Jogando no real – comentário recebido

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“São problemas reais, que nós enfrentamos na nossa vida de classe média. Os problemas do mundo da pobreza são sem dúvida, infinitamente mais degradantes, em especial os que envolvem a violência. Comento isso, Gustavo, pois atuo na área de direitos humanos. De fato as violações são de uma tristeza incomensurável, e acompanham também o sentimento constante de medo. É preciso viver o Dharma minuto a minuto, desapegando-se absolutamente do apego ao ego e à vida humana para seguir com força e serenidade. É preciso, na verdade, substituir o medo de morrer pelo de não vivenciar o Dharma; mas as ilusões são tantas, e o apego ao em-si tamanho, que muitas vezes nos rendemos ao instinto de conservação da própria vida e deixamos de atuar onde era preciso. Por isso sou muito grato à vocês, pelo acolhimento no templo zen das alterosas, o que, tenho fé, ajudará no desenvolvimento de uma mente zen e na prática do Dharma. Afinal, só o vivenciaremos praticando a compaixão universal, que se torna atitude mental no zazen, e, a partir disso, atitudes verbais e físicas ao longo do dia. Creio que essas atitudes mentais e físicas, num país como o Brasil, significam renunciar à própria rotina e ajudar os irmãos presos no Samsara, aliviando seu sofrimento físico, seja com alimentos, roupas etc; e seu sofrimento emocional, este, com palavras, ensinamentos. Assim, se lhes abriremos o caminho do Dharma, como o abriremos a nós próprios verdadeiramente; já que a compaixão universal é condição para nossa própria iluminação, e ela não deve ser apenas meditativa, comtemplativa, mas gerar atos verbais e físicos em auxílio dos demais, não é verdade? Um prazer ler seus textos sensatos, ponderados e refletindo o Dharma em nosso dia-a-dia. Por favor, continue postando, um leitor você já conquistou. Abraço afetuoso, Filipe Rodrigues.”

Quando testemunhamos e nos conscientizamos sobre o sofrimento e desconforto que existe no mundo – e há muito dele – nossas pequenezas egocêntricas desaparecem, nossos problemas tornam-se sinais de dádiva e o que considerávamos triste destino é releito como um caminho cheio de oportunidades desperdiçadas por nós mesmos.

Despertamos do nosso sonho de imunidade de classe média, como bem disse Filipe.

Obrigado por alargar os horizontes do post com seu comentário.

Gustavo Mokusen.

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4 comentários em “Jogando no real – comentário recebido”

  1. É isso mesmo, Filipe. A maioria de nós procura o caminho do zen, assim como diversos outros caminhos budistas ou “espirituais” em geral para aliviar condições internas de desequilíbrio. E, nessa busca, a atuação relacional (com o mundo em geral) é negligenciada. É um problema que me parece comum na busca introspectiva. E, normalmente, para a maioria de nós, o cotidiano relacional com todos os seus deveres e obrigações e responsabilidades representa tamanho peso que a compaixão universal se torna um conceito distante. Talvez a melhor resposta a isso seja apenas uma boa atuação local, que seja apenas no seio da família, mas boa, construtiva.

    O fato é que a resposta às necessidades cotidianas é muito mais premente. Por isso, a ênfase à compaixão me parece um elemento tão forte no budismo em geral, porque isso precisa sim ser despertado em meio às práticas introspectivas. Eu entendo o zen como sendo o budismo filtrado ao máximo, e o zazen é essa tentativa de sintonia com a essência existencial profunda, uma experiência concreta. Esse é o vigor do zen. Mas o que se faz com essa experiência ou busca é uma questão relativa… e aí a potencialidade, as circunstâncias, a história e os padrões de condicionamento de cada um terá um grande impacto. Ainda mais para todos nós que somos leigos e vivemos o dia-a-dia globalizado. Então, me parece, quem possui tendências mais introspectivas, encontrará no zen um ferramenta para aprofundar isso, e não sairá do zazen pronto para ser Madre Tereza, porque manterá algumas dificuldades relacionais como sempre teve. Isso me parece a realidade da maioria de nós, praticantes de meditação. Por outro lado, no caso dos mais extrovertidos, com uma participação relacional ou social naturalmente mais ativa, a prática do zen pode trazer um efeito tranquilizador que torna essa participação mais equilibrada e focada. Então, o que esse tipo de pessoa costuma inicialmente ver como uma prática individualista e egocentrada pode ganhar seu devido lugar: uma poderosa ferramenta de equilíbrio das tensões do ego e da vida relacional.

    Como disse acima, a pratica do zazen é uma prática de contato existencial profundo. O que se faz dela é o caminho de cada um, com todas as forças que atuam sobre a individualidade. O enfoque budista na compaixão segue o caminho das grandes religiões do mundo, que tentam minimizar a ostentação do ego e posicionar o sujeito num contexto mais integrado. O passo além do zen é mostrar um caminho por onde essa unidade com o universo é perceptível, um caminho experiencial, o caminho do reconhecimento da própria raiz. Quem souber ou puder se utilizar bem dessa energia poderá trazer essa percepção para o mundo relativo e atuar socialmente de uma forma grandiosa e equilibrada. Não se espera isso da maioria. Muito pelo contrário, será apenas uma minoria que terá acesso a essa fonte e uma minoria ainda menor que terá a capacidade e os meios de realizá-la de forma plena. A maioria de nós continuará buscando alento para mazelas individuais e ocasionalmente exercendo a compaixão consigo mesmo e com os outros. Se pudermos atuar de uma forma mais compassiva no mundinho pequeno em que vivemos, já estaremos contribuindo de forma significativa para o engrandecimento do todo.

    Uma coisa extremamente importante a se ressaltar é que a atuação social de cada um porta todas as suas questões individuais, todas as suas qualidades e vícios. É muito fácil o ator social se perder no contexto das forças que enfrenta, e se perder da sua própria fonte inspiradora original. Esse é o papel de equilíbrio básico da prática do zazen. Ajudar a manter o foco mostrando de onde parte esse anseio por um mundo mais justo e igualitário, de onde parte a própria noção de justiça social. Sentir a própria raiz universal é a maior mola propulsora que um ator social pode ter para agir de forma plena.

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    1. Excelente seu comentário, li várias vezes. Acrescentou bastante. Quanto à esse microcosmo de prática compassiva que nos cabe (nossa família, conhecidos etc), estou buscando ampliá-lo, e creio que isso é possível fazendo algumas renúncias, mas o faço apenas porque o sentimento focalizado de compaixão universal e a lembrança focalizada da não-felicidade dos outros assim insiste. O sofrimento de todos é variado e grande, e não posso ficar sem agir tendo conhecimento dele ou prisioneiro de uma profissão ou estilo de vida que me impeça de assim fazer. Em verdade, ao longo do dia falho imensamente, e volto a direcionar meus pensamentos numa felicidade delusória e egocentrada, mas o meditar na compaixão universal, este zazen específico, é o que tem me ajudado a superar isso. O Dharma é raro, desafiador, e não vejo outro caminho satisfatório; não vejo possibilidade de privilegiar, em meus pensamentos e ações, carreiras profissionais, aquisições patrimonais ou qualquer outro norte de ação que não o buscar permanente da Iluminação.

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  2. Talvez o maior desafio à parte da Sanga hoje seja entender que não se pratica a compaixão universal apenas meditativa e contemplativamente, afinal, como alguém experimenta o sentimento de compaixão universal – que é condição do Dharma – e não toma quaisquer atitudes físicas e verbais pelos outros? Se ele desenvolveu compaixão universal realmente, de forma profunda e internalizada, sentirá compelido ao fazê-lo, não é verdade? Mas se o desenvolveu superficialmente, e só o experimenta às vezes durante as sessões de zazen, mas não ao longo do dia, seguirá sem ver seu estilo de vida egocêntrico. Parece que muitas pessoas que buscam e desejam o caminho da Iluminação não desenvolveram realmente tal sentimento: por mais que busquem senti-lo no zazen, comtemplá-lo e focalizá-lo, ele não se internaliza em suas consciências, e assim murcha e morre ao longo do calor do dia, não gerando quaisquer ações.
    Assim, grande parte da Sanga não toma o verdadeiro caminho da iluminação, mas vive um mero desejo egocêntrico de paz mental, e, logo, não búdica. Cumprem os rituais budistas formais nos templos mas sem o pensamento búdico; não vivenciam o verdadeiro Dharma (que é mesmo tão raro…). Vivem um pseudo-budismo.
    Vocês concordam?

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  3. Passei para uma leitura esporádica e vi, de repente, a menção. Obrigado pela valorização das palavras, Gustavo. Concordo de alma e coração com o que você escreve em seguida: nossos pseudo-problemas tomam uma dimensão tão diminuta, que somem aos olhos, e damos graças por eles… Um budismo individualista é um falso budismo, não é? Devemos empregar esforços, físicos, verbais e mentais para livrar os irmãos do Samsara, e para que assim obtamos também nossa propria iluminação. Vocês concordam? Você pode fazer um texto trazendo o que pensa sobre isso, Gustavo? Abraço afetuoso aos irmãos da Sanga

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