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“Meditação muda a forma de reagir a emoções”

Matéria publicada na revista Veja, 14/11/2012.

meditação

Imagens de ressonância magnética mostram que diferentes formas de meditação têm efeitos duradouros na estrutura cerebral

Participar de um programa de treinamento em meditação pode ter efeitos duradouros e mensuráveis nas funções do cérebro, mesmo nos momentos em que a pessoa não está meditando. Esse é o resultado de uma pesquisa publicada na edição deste mês da revista Frontiers in Human Neuroscience que usou imagens de ressonância magnética do cérebro de voluntários para medir como a prática da meditação afetava a regulação das emoções. “Essa é a primeira vez que a meditação foi mostrada afetando o processamento emocional do cérebro fora dos estados meditativos”, disse a neurocientista Gaëlle Desbordes, pesquisadora da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, e autora da pesquisa.

Diversos estudos anteriores mostraram que a prática da meditação diminuía a ativação da amígdala – uma área cerebral conhecida por seu papel na regulação das emoções. Essas pesquisas, no entanto, só haviam sido feitas com voluntários durante o estado meditativo. O novo estudo é o primeiro a medir se a prática pode produzir uma redução duradoura na resposta da amígdala aos estímulos emocionais.

Os participantes foram recrutados entre os voluntários de uma pesquisa maior realizada pela Universidade de Emory, nos Estados Unidos, que havia angariado adultos saudáveis para participar de cursos de oito semanas em dois tipos de meditação. A primeira foi a meditação de atenção plena, o tipo mais estudado, focado em desenvolver a consciência da respiração, pensamentos e emoções. A segunda, e menos conhecida, foi a meditação compassiva, que inclui métodos destinados a desenvolver a bondade e a compaixão por si mesmo e pelos outros. Um terceiro grupo de voluntários participou de cursos de saúde pelo mesmo período de oito semanas.

A pesquisa da Universidade de Boston recrutou 12 participantes de cada um dos três grupos, e realizou exames de ressonância magnética em seu cérebro três semanas antes de começarem os cursos e três semanas depois de terminarem. Os exames foram realizados enquanto os voluntários viam uma série de 216 fotografias de pessoas passando por situações com conteúdo emocional positivo, negativo ou neutro.

Atenção e compaixão – As imagens de ressonância magnética do grupo que praticava a meditação de atenção plena mostraram uma queda na atividade da amígdala direita em resposta a todas as fotografias. Já as imagens do grupo que praticava a meditação compassiva só mostraram uma queda na reação às fotografias positivas e neutras. Na verdade, entre os participantes que praticavam esse tipo de meditação com mais regularidade, a resposta da amígdala às imagens negativas aumentou.

Imagens de ressonância magnética mostraram uma menor atividade da amígdala direita após a meditação, o que indica maior estabilidade emocional

Já o terceiro grupo, que recebeu apenas as aulas sobre saúde, não mostrou nenhuma mudança na reação às fotografias, mostrando que a meditação ajuda a melhorar a estabilidade emocional e a resposta ao estresse. “Esses resultados são consistentes com a hipótese de que a meditação pode resultar em mudanças benéficas e duradouras no funcionamento cerebral, especialmente na área de processamento emocional”, diz Gaëlle Desbordes.

Quanto à resposta cerebral diferente entre os dois grupos de praticantes da meditação, os pesquisadores explicam que isso se deve ao fato de eles treinarem aspectos diferentes da mente. “A meditação compassiva foi desenvolvida para aumentar os sentimentos de compaixão, então faz sentido que ela aumente as respostas da amígdala à visão de pessoas sofrendo. O aumento da atividade da amígdala também esteve relacionado com índices menores de depressão, mostrando que o fato de ter mais compaixão pelos outros também pode ser benéfico para si mesmo.”

CONHEÇA A PESQUISA
Título original: Effects of mindful-attention and compassion meditation training on amygdala response to emotional stimuli in an ordinary, non-meditative state

Onde foi divulgada: Revista Frontiers in Human Neuroscience
Quem fez: Gaëlle Desbordes, Lobsang T. Negi, B. Alan Wallace e Charles L. Raison
Instituição: Universidade de Boston, nos EUA
Dados de amostragem: 36 voluntários que participaram de três tipos de cursos: aulas sobre saúde, treinamento em meditação de atenção plena e treinamento em meditação compassiva
Resultado: Aqueles que tiveram treinamento em meditação mostraram ter maior estabilidade emocional em resposta a imagens emotivas

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Um gás mental chamado sofrimento

Outro dia ouvi um comentário interessante: que o sofrimento se comporta como um gás, ocupando todo o espaço disponível para ele e tomando a forma do recipiente que o contém. Achei essa analogia fantástica.

Sim, o sofrimento se comporta como um gás. Como tal, sua forma e seu volume são exatamente as do seu receptáculo. Isso explica, entre outros fenômenos, porque um mesmo fato provoca diferentes sensações de sofrimento nas diferentes pessoas. Por exemplo, alguém critica o João. Para ele essa crítica será uma dor de cabeça que dura uma semana, um mês inteiro, e ele ficará ali paralisado no ressentimento e na mágoa de ter ouvido o que não queria, resistindo a se abrir e mudar se for o caso. Em outras palavras, sofrendo. Entretanto, a mesma crítica é feita ao Zé ali do lado. O Zé ouve, entende o que a pessoa queria lhe dizer, analisa o que é verdade e o que é exagero na crítica feita, reconhece e corrige o que está ao seu alcance mudar, esquece o resto e toca o barco pra frente. No lugar do sofrimento, trabalho, esforço e mudança na vida do Zé.

Qual a diferença entre João e o Zé? Dizemos que o espaço interno disponível ao sofrimento que um possui é maior do que o outro, no exemplo dado. Há muitos fatores que determinam esse volume disponível, e geralmente são aspectos complexos como história de vida e experiências anteriores, expectativas em relação ao futuro, desejos não realizados, traumas, inseguranças, etc. Resumindo tudo em uma palavra: ego. É muito interessante perceber que, quanto maior o autocentramento, maior é a capacidade de experimentar sofrimento. Quanto mais vamos além de nós mesmos, quanto mais transcendemos a noção egoísta, mais nos livramos das tormentas e do infortúnio.

Isso deve ser compreendido. Se você cria um enorme espaço destinado a esse ego, cheio de demandas egoístas, de caprichos, de vontades, de desejos autocentrados, você está criando também o tamanho do sofrimento, das decepções, das amarguras e das contrariedades que poderão ser experimentadas. As condições são tantas, as necessidades são em tal número que é simplesmente impossível atender a todas elas. O nível de aceitação das coisas como elas são, nesse tipo de postura, é muito baixo. Ao contrário, a tentativa desesperada de mudar todo o mundo à volta está sempre presente, uma tentativa de alcançar a qualquer custo uma satisfação pessoal egoísta confundida com felicidade. Essa busca está fadada, claro, ao insucesso. A satisfação pessoal confundida com felicidade, nesse contexto, é como uma anestesia cujo efeito passa rápido.

Partimos do pressuposto de que, se alterarmos o mundo, o cenário que nos cerca, de certa forma e com certa configuração que nos agrada (e assim o mantermos), então teremos felicidade. Mas este é um pressuposto falso, uma vez que é impossível manter alguma coisa sempre constante neste mundo de impermanência. Sendo assim, algo sempre sairá do controle.

Quanto mais se busca esse controle e essa satisfação, mais se experimenta sofrimento. Ou se sofre porque aquilo que produzia “felicidade” muda, ou porque não se consegue alcançar o que pensamos que produzirá satisfação.

Se fosse realmente possível alcançar tal estado sempre constante e pleno de satisfação, ele já não teria sido alcançado? Já não teria sido produzido? O que há de errado então?

Bom, essa pergunta cabe a cada um de nós respondermos. Mas uma valiosa observação: felicidade não é a mesma coisa que satisfação. Há pessoas que se mantêm felizes mesmo não possuindo todos os seus desejos egoístas satisfeitos. Há outras que, mesmo satisfazendo todos estes desejos, não conseguem experimentar alegria de viver.

Na Física sabemos que, quando aquecido, um gás expande ou aumenta sua pressão interna, ou ainda ambos. Isso ocorre porque ao aquecer damos energia cinética para suas moléculas. Na nossa analogia seria o mesmo que alimentar, cultivar, dar energia ao sofrimento – às nossas intenções autocentradas. Se você “esquentar” demais o ego a pressão interna aumentará, bem como o volume ocupado pelo sofrimento. Ao contrário, quanto menos você dá energia aos pensamentos e emoções autocentradas, menor o espaço disponível para sofrer, ou mais o sofrimento diminui de tamanho.

Voltemos ao gás (inflamável) chamado “sofrimento” e aos vazios criados para ele ocupar. É possível manter um equilíbrio e fazer as pazes com o mundo ao redor. É possível não estar inchado, inflamado, e aprender a fazer do sofrimento um gás rarefeito. É possível alterar o espaço interior que ocasionalmente é preenchido pelo sofrimento, você pode fazê-lo aumentar ou diminuir, e tudo isso por uma simples razão: ele só existe em sua mente, e por isso depende de como é manuseado.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Sabotagem

Por Márcia Cândido*

Um dia, é um projeto que precisa ser apresentado. Outra ocasião é um colega que faz aniversário e você fica encarregado das congratulações em nome da turma. O certo é que em algum momento da vida profissional, precisamos falar em público e dar nosso recado. O frio na barriga, a taquicardia, a insegurança são inevitáveis para quem tem receio de falar em público.

Uma boa notícia e uma ruim. A má notícia (relativamente falando) é que você deve aproveitar a oportunidade de se expressar. Mesmo com medo. Pode parecer desconfortável, mas enfrente, ensaie, faça exercícios e tente vencer a primeira barreira. Existem cursos que ajudam a eliminar a timidez, uma reação que muitos desenvolvem ao longo da vida e que pode ser trabalhada. Existem técnicas para aprender a lidar com o medo que, muitas vezes, paralisa.

A boa notícia é que, vencida a primeira barreira, todo o resto flui. Naturalmente. Comunicar é um caminho sem volta. Aprenda com erros. Veja e reveja onde pode melhorar. Erros você vai cometer, com certeza. A partir da primeira experiência, você não deve se sabotar. Encare a situação com leveza e busque aproveitar as oportunidades que se apresentarem. Hoje, a palavra de ordem é comunicar. E quem não vencer as primeiras dificuldades corre o risco de sofrer sabotagem imposta por si mesmo.

E aí vai a dica: se tiver que falar em público não decore texto, seja espontâneo. Naturalmente, algumas situações irão exigir preparo e conhecimento do assunto. Então, prepare-se. Faça anotações para seguir e procure ser leve ao apresentar-se, para chegar ao coração de quem está ouvindo. Quando deixamos a rigidez de lado, atingimos o alvo. Existem momentos em que precisamos ser como bambu: flexíveis.

Até nosso próximo encontro!

*Márcia Cândido é jornalista. Atua prestando assessoria de imprensa e em treinamentos para lidar com a mídia. Especialista em jornais empresariais, vê na comunicação um grande aliado para o sucesso de toda iniciativa.