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Comentário sobre o decrescimento

Por Antônio Selvaggi

Latouche tem realmente frases poderosas e um subtexto consistente… Uma reestruturação nos moldes que ele coloca é um passo radical, mas creio que não se espera que isso seja uma “revolução”, mas uma influência poderosa e serena em contraposição a um ganho de velocidade desmedido principalmente pós-revoulão-industrial e pós-revolução-da-informática. Essas sim verdadeiras revoluções que mexeram brutalmente e profundamente com a relação entre as pessoas. Latouche reajusta o foco no que importa. Esse é o verdadeiro eixo terrestre que está torto.

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Quando observo o movimento da economia como um todo, vejo uma máquina quase desgovernada. Não consigo culpar o capitalismo, a globalização nem qualquer sistema específico, e nem consigo culpar nenhum ator poderoso específico, porque não acredito no poder que se costuma atribuir a eles. Sim, podem ser relativamente poderosos, mas seguem uma cartilha compilada no tempo com margem de manobra limitadíssima. No fundo, são tão reféns do sistema como nós. A máquina tem uma dinâmica própria onipresente. É o sistema humano de relações na forma como se apresenta hoje.

Então, Latouche toca (sem querer fazer trocadilhos…) nos pontos que precisam ser revistos, revalorizados, aponta para as falhas do sistema, os defeitos da máquina. Não busca revoluções (ou seja, injeção de energia em algum outro sentido pra corrigir um suposto erro), mas um “decrescimento sereno”, exatamente como o zen propõe! A gente senta pra meditar pra largar o entulho que pesa nos ombros e sufoca a respiração, e de forma serena, apenas contemplando a realidade das dores e do sofrimento que se instalam numa perspectiva individual. Queremos reduzir o entulho pra gastar energia com o essencial: relações mais saudáveis com as pessoas e a teia da vida em geral. Latouche chega a citar o Tao, esse caminho intangível.

Na vida relativa, todos os conflitos são “reais”, por assim dizer, não são ilusão. Quem acredita no Absoluto como realidade final em detrimento do dualismo no mundo dos egos, se ilude. Só é possível tocar no absoluto através do dualismo, só é possível perceber o dualismo fincado na subestrutura do absoluto. Talvez fazer a ponte seja viver no tao, ou no darma… então, é preciso decrescer com serenidade, como informa Latouche sobre o meio econômico, e o zen na prática individual. No zen, decrescer com serenidade significa buscar uma maior aproximação com o absoluto, as raizes universais, e, com isso, realinhar as metas gerais da convivialidade. Assim como propõe Latouche na escala macroeconômica…

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É certo que com essas duas interferências, muita coisa muda, e isso gera insegurança, porque mexer na zona de conforto é problemático, porque o futuro é apenas reflexo das interações na realidade presente, não há garantia de conforto melhor. O que coloca as mudanças em movimento é a necessidade. A indústria farmacêutica responde produzindo cada vez mais antidepressivos e ansiolíticos. Esse é um exemplo de resposta do sistema: interferência direta para resolver um problema humano concreto. Essa não é a proposta do zen nem de Latouche. Para os dois, o desgoverno perceptível vem do excesso de controle! O “corrigir” excessivo só insere mais variáveis no contexto, mais opções, amplificando o espectro do controlável, alimentando o ciclo da depressão e da ansiedade.

É preciso sim decrescer, com serenidade. É preciso um certo comedimento, é preciso valorizar uma certa convivialidade frugal. Enquanto os indivíduos e o sistema não perceberem essa saída concreta e não se sentirem compelidos por necessidade a seguirem esse caminho, a indústria farmacêutica, a indústria bélica, o mercado de TI, etc., continuarão acumulando fortunas com suas múltiplas soluções. Decrescer coloca em risco o nosso emprego? Talvez. Pode ser um tiro no pé? Quem sabe. Que formato que isso assume na dinâmica do sistema se colocado em prática? Sabe-se lá! Vale o risco da perda do conforto e do desconforto que sentimos hoje? Cada um que apresente a sua resposta e possa contribuir para o aprimoramento do sistema humano…

Decrescimento

Hoje estive lendo sobre um economista e filósofo atual muito interessante, o francês Serge Latouche, por indicação do meu amigo Antônio Selvaggi. Suas ideias me fizeram lembrar um clássico dos anos 80, “O Ponto de Mutação” de Fritjof Capra, onde muito do que Latouche traz hoje era também exposto pelo físico vienense Capra. Abaixo, um extrato de uma matéria sobre o principal eixo temático de Serge: o decrescimento e o mito do desenvolvimento sustentável.

Gustavo Mokusen.

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DECRESCIMENTO E A DESECONOMIZAÇÃO DO IMAGINÁRIO

” O que realmente conta na vida não é mensurável, por isso vivemos uma “falência da felicidade quantificável”. Por outro lado, “um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito. Quem acredita nisso ou é louco ou é economista”.

A crítica radical à economia de Serge Latouche, ele mesmo economista, além de sociólogo e antropólogo, visa a descolonizar o imaginário das “ideologias da sociedade moderna”.

Nela, o professor de economia da Universidade de Paris XI – Sceaux/Orsay retomou o histórico do seu conceito mais importante: o decrescimento. Seu principal interesse no encontro era apresentar como é possível encontrar, por meio do decrescimento, a “felicidade na frugalidade convivial”

Afirmou Latouche que “a sociedade dita desenvolvida, da opulência, se baseia em uma produção massiva, mas também em uma perda de valores”. Assim, retomando um conceito caro a um teólogo amigo seu, Raimon Panikkar, é necessária uma metanoia, ou seja, questionar profundamente o mito do progresso indefinido. É preciso “resistir ao imperialismo da economia para reencontrar o social”. “O que realmente conta na vida não se mede”, sintetiza Latouche.

Portanto, como encontrar a felicidade dentro da frugalidade convivial? Para isso, Latouche reatualiza a intuição do teólogo Ivan Illich, ainda dos anos 1970, do termo convivialidade, que, de certa forma, encontra-se em sintonia com a proposta andina do bem-viver (sumak kawsay), que, afirma, “tem mais coerência do que os economistas, que tentam medir o que não é mensurável”.

Felicidade, para Latouche, é a “abundância frugal em uma sociedade solidária”. Uma prosperidade sem objetivo, uma sobriedade voluntária, segundo Illich. “O projeto de decrescimento que queremos – slogan para marcar uma ruptura com essa lógica do “sempre mais”, do crescimento indefinido – é uma saída do ciclo infernal da criação de necessidades e produtos”.

Esse é o conceito de decrescimento. Em síntese, conta Latouche, chegou-se à conclusão de que é preciso combater o desenvolvimento sustentável, que é uma contradição em termos, porque o desenvolvimento “nada mais é do que uma transformação qualitativa do crescimento, e um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito”, afirmou. “Quem acredita nisso ou é louco ou é economista”.

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Se o desenvolvimento é uma “palavra tóxica”, Latouche prefere falar de um “futuro sustentável da vida”. E esse, sim, é possível. Por isso, a proposta do decrescimento é a da autolimitação e simplicidade voluntárias, da abundância frugal, da reabilitação do espírito da doação e da promoção da convivialidade. Se na década de 1960 se falava de círculos virtuosos do crescimento, é necessário um círculo virtuoso do decrescimento. Uma “mudança de software”, ilustra Latouche, uma mudança “daquilo que os marxistas chamavam de superestrutura, que leva a uma mudança da infraestrutura”.

E ele propõe, para isso, oito passos:

  1. reavaliar
  2. reconceitualizar
  3. reestruturar
  4. realocar
  5. redistribuir
  6. reduzir
  7. reutilizar
  8. reciclar

 A economia existente não é solidária, é baseada na avidez, no lucro máximo. É quase uma religião.

Portanto, sair dessa economicização, para Latouche, é uma conversão ao contrário. “Temos uma relação religiosa com a economia. É preciso nos tornarmos ateus e agnósticos do crescimento. É preciso reencontrar a abundância perdida”. Descolonizar e deseconomizar o imaginário é “redimensionar o papel do econômico no social”, limitar a avidez, limitar o “greed is good” das escolas de administração. É, em suma, reapropriar-se, enquanto sociedade, das três bases do capitalismo: o trabalho, a terra e o dinheiro. “Não é abolir o capitalismo – esclarece Latouche –, é mudar o nosso software, a nossa educação, é possibilitar regulações, hibridações e proposições concretas para chegar à abundância frugal”.

Para ajudar nessa “reformatação”, não basta seguir a “via” do decrescimento. Latouche prefere falar do “tao do decrescimento”, palavra chinesa que, além da dimensão de caminho, percurso, remete também à ética. “Não é possível encontrar a felicidade sem restringir e limitar os nossos desejos – a autolimitação que se encontra nos ameríndios, na África, no passado do Ocidente, no epicurismo. Todas as sabedorias do mundo têm essa ideia fundamental”, explica. É necessário, hoje, dominar o que os gregos consideravam como o perigo por excelência: a hybris, a desmedida.”

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