Arquivo da tag: sofrimento

Meditação por Krishnamurti

“(…) E haverá alguma coisa que ultrapasse o tempo e o pensamento? Podem fazer essa pergunta mas, se o pensamento inventar que existe algo transcendente, isso ainda constitui um processo material. O pensamento é um processo material que acumula o conhecimento nas células cerebrais. O orador não é cientista, mas podem ver isso em si mesmos, podem observar em seu próprio cérebro a atividade do pensamento. Desse modo, se puderem desfazer-se de tudo isso voluntariamente, sem oposição nem resistência, nesse caso, inevitavelmente, indagarão: existirá algo que esteja além do tempo e do espaço? Haverá algo jamais visto antes por qualquer outro homem? Haverá algo imensamente sagrado? Haverá algo jamais tocado pelo cérebro? E é isso que vamos descobrir, se é que já deram o primeiro passo, o de varrer completamente toda essa baboseira chamada religião. Quando usam o cérebro e a lógica, podem duvidar, indagar.

Assim, o que significa a meditação que faz parte da religião? O que é meditação? Será fugir do tumulto, ter uma mente silenciosa, uma mente tranqüila e pacífica? E, para ficarem atentos, para manterem os pensamentos sob controle, praticam um sistema, um método, um processo. Sentam-se de pernas cruzadas e repetem um mantra qualquer. Disseram-me que essa palavra meditação, etimologicamente, significa “ponderar”, “não vir a ser”, “absorver”, “eliminar toda atividade egocêntrica”. Mas nós repetimos, repetimos, repetimos e continuamos vivendo egocentricamente, egoisticamente, pois a meditação perdeu o significado.

O que é, pois, meditação? Será um esforço consciente? Costumamos meditar conscientemente, praticar a fim de conseguir alguma coisa – uma mente ou um cérebro tranqüilo, um estímulo para o cérebro. Mas qual é a diferença entre esse meditador e o homem que diz “Quero dinheiro e vou trabalhar para obtê-lo”? Qual é a diferença entre os dois? Ambos estão buscando alguma coisa. Só que a busca de um classificamos de espiritual e a do outro, de mundana. Não obstante, ambos estão buscando algo. Assim, para o orador, isso não é meditação; meditação nada tem que ver com qualquer desejo consciente e deliberado como produto da vontade.

Precisamos indagar, portanto, se há alguma espécie de meditação que não seja produzida pelo pensamento. Haverá alguma espécie de meditação da qual não estejamos consciente? Compreendem isso? Nenhum processo deliberado de meditação é meditação. Isso é tão claro! Podem sentar-se de pernas cruzadas pelo resto da vida, meditar, respirar e praticar tudo mais sem que cheguem sequer perto da outra coisa, pois isso não passa de uma ação intencional para conseguir um resultado – causa e efeito. Mas o efeito torna-se a causa e, assim, acabam presos num círculo. Haverá uma espécie de meditação que não resulte do desejo, da vontade, do esforço? O orador afirma que há. Mas não precisam acreditar nisso; pelo contrário, devem duvidar, indagar, assim como o orador indagou, duvidou, rejeitou. Haverá uma espécie de meditação não planejada nem organizada? Para examinar isso, precisamos compreender o cérebro condicionado, o cérebro limitado, o cérebro que tenta alcançar o ilimitado, o imensurável, o atemporal, se é que existe esse atemporal. E, para isso, é necessário compreender o som. Som e silêncio são inseparáveis.

Costumamos separar o som do silêncio. O som é o mundo; o som é a batida do coração; o universo está repleto de sons; os céus, as milhares de estrelas, todo o firmamento está cheio de som. E consideramos o som uma coisa intolerável. Mas, quando escutamos o som, o próprio ato de escutar é silêncio. O silêncio não se separa do som. A meditação, portanto, não é algo planejado, organizado. A meditação apenas é. Começa com o primeiro passo que é o estar livre de todos os ressentimentos, livre de tudo que já acumulamos – temores, ansiedades, solidão, desespero, sofrimento. Essa é a base, o primeiro passo e o primeiro passo é o último passo. Se derem o primeiro passo, termina tudo. Mas não estamos com vontade de dar esse primeiro passo porque não queremos ser livres. Queremos depender – do poder, de pessoas, do meio-ambiente, de nossa experiência, do conhecimento. Nunca nos libertamos da dependência, do medo.

No findar do sofrimento está o amor. E nesse amor há compaixão. A compaixão tem sua própria inteligência. E quando age a inteligência, atua a própria verdade. Quando essa inteligência está presente, não há conflito. De tudo já ouviram falar – da cessação do medo, do findar do sofrimento, da beleza e do amor. Mas uma coisa é ouvir, e outra, agir. Ouvem tudo isso (que é verdadeiro, lógico, sensato, racional) mas não agem de acordo com isso. Vão para casa e começa tudo de novo – as preocupações, os conflitos, toda a miséria. Assim, perguntamos: qual é a finalidade de tudo isso? Que adianta ouvir este orador e não viver o que ele diz? Quando ouvimos e não agimos, desperdiçamos nossa vida; se ouvirem algo verdadeiro e não agirem, estarão desperdiçando a vida. E a vida é algo muitíssimo precioso – é a única coisa que temos. E acontece que perdemos também contato com a natureza, o que significa que perdemos contato com nós mesmos, parte que somos da natureza. Não amamos as árvores nem os pássaros nem as águas nem as montanhas. Estamos a nos destruir uns aos outros. E tudo isso é desperdício de vida.

Quando percebemos toda essa coisa não apenas intelectualmente nem verbalmente, então vivemos uma vida religiosa. Botar um manto, tornar-se pedinte ou entrar para um mosteiro, nada disso é vida religiosa. A vida religiosa começa quando cessa o conflito, quando existe amor. Podemos amar uma pessoa (esposa ou marido), mas aquele amor é para todos os seres humanos, não se destina a uma só pessoa, não é restritivo. Portanto, se empenharem coração, mente e cérebro haverá algo que transcende o tempo. E aí estará a bênção – não nos templos, nas igrejas nem mesquitas. Essa bênção estará onde estivermos.”

Krishnamurti. Bombaim. 10/02/1985. K. F. Bulletin 54 (1988) – Carta de Notícias. Janeiro-Dezembro 1991. ICK.

Breve reflexão sobre o sofrimento

Por J. Krishnamurti.

“O sofrimento é um violento golpe no sistema nervoso, como um soco no corpo e na psique. E geralmente tentamos escapar dele através de drogas, bebida, movimentos religiosos – ou, então, acabamos cínicos ou passamos a aceitar as coisas como inevitáveis.

Será que podemos investigar, a fundo e com seriedade, se é possível ficar com o problema sem fugir dele? Suponhamos que perca meu filho e, sofrendo com isso um grande choque, experimentando uma dor imensa, descubra que sou um ser humano extremamente solitário. Não consigo encarar nem suportar a situação e, por isso, fujo dela. Há inúmeras formas de fuga – religiosas, mundanas ou filosóficas. Mas será que posso permanecer com o que aconteceu, com essa coisa chamada sofrimento, sem procurar, de modo algum, fugir da dor, da angústia, da solidão, da aflição, do abalo? Será que podemos observar um problema, observá-lo apenas, sem procurar resolvê-lo, olhar para ele como se fosse uma jóia preciosa, de fino acabamento? Para uma coisa bonita olhamos sem parar, sem qualquer desejo de fugir dela; sua beleza nos atrai tanto e tanto prazer nos proporciona que ficamos olhando para ela o tempo todo. Se, da mesma forma, pudermos observar nosso sofrimento, sem um movimento sequer de julgamento ou fuga, ficar com a tristeza… nesse caso, a própria ação de ficar com o fato nos liberta completamente daquilo que produziu a dor.”

O medo de perder

O medo que nutrimos em nossas mentes cria ou reforça os obstáculos que experienciamos em nossas vidas. O medo é a raiz de toda emoção negativa, uma vez que ele nos rouba a realidade e não nos permite conhecer realmente o nosso verdadeiro caminho nessa existência. Digamos assim, o medo é um véu que encobre as coisas e as experiências como elas são.O medo é a porta de entrada para a ignorância e, consequentemente, para o sofrimento.

Há dois tipos básicos de medos que podemos sentir, e eu costumo dar um exemplo muito simples sobre eles. O primeiro tipo é o chamado medo real de preservação, geralmente associado a alguma situação que coloca em risco as nossas vidas. Por exemplo, se você se debruçar do último andar de um edifício alto, você pode sentir medo da altura. Isso significa: cuidado, não se arrisque. Outras pessoas têm medo de altas velocidades, ou ainda de bichos selvagens. Bom, todos esses exemplos ilustram bem esse tipo de medo ancestral ligado ao instinto de autopreservação. Talvez a palavra “medo” usada nestes casos não seja apropriada, talvez esse medo pudesse ser renomeado como prudência, proteção, ou prevenção, ou ainda simplesmente cuidado próprio. Mas, sem entrar nesse mérito, apenas reconheçamos que esse primeiro tipo de “medo”, quando equilibrado no bom senso da realidade, é importante porque tem a função de nos manter vivos nas situações de risco ou na iminência de nossa morte física. Ou seja, é um “medo” ancestral do homem que tem o papel de garantir a sua sobrevivência física.

O segundo tipo de medo é bem mais irreal do que o primeiro, uma vez que quase sempre está associado a uma ilusão mental, ou seja, a uma criação da nossa subjetividade. Por exemplo, o medo de perder alguém ou alguma outra coisa. Essa é uma questão importante, pois geralmente não investigamos profundamente as raízes deste tipo de medo. Ocorre que essa emoção não diz respeito diretamente à nossa autopreservação, uma vez que a situação em questão não nos expõe diretamente ao risco de morte física. Sendo assim, qual a sua origem? Sua origem está na ilusão, no caso em questão na ilusão de que podemos perder algo ou alguém, pois há uma crença anterior de que as possuímos. Partimos do pressuposto de que somos donos, proprietários do objeto em questão, e esse pressuposto de propriedade cria automaticamente a ilusão da possibilidade de sua perda. É justamente essa possibilidade, essa angústia permanente que assombra ao redor do objeto do apego, que cria a falsa sensação de perda e, consequentemente, a sensação de medo. Resumindo, é uma forma de apego, ou identificação, que gera o medo de perder.

Se uma situação de risco real, como um bicho selvagem, cria um sentimento de preservação que procura evitar a morte física do corpo ou seu dano, podemos inferir que uma situação subjetiva como a descrita acima provoca um sentimento que busca a preservação daquela contraparte psicológica associada ao dano potencial em questão, no caso algum aspecto do “eu”, ou ego, ligado ao objeto do apego. Assim, o medo de perder alguma coisa busca a manutenção de alguma parte do ego que se encontra identificada com essa coisa.

Entretanto, a sensação de medo em questão seria facilmente dissolvida se reconhecêssemos que, para começo de conversa, não somos donos de nada nessa existência, que nada pode ser possuído ou tido como propriedade permanente. Se entendemos que nada pode ser possuído neste sentido permanente, uma vez que tudo está em constante transformação, então também aceitamos que nada pode ser perdido. Ainda, basta vislumbrar que, ao reter o velho, deixamos de conhecer tudo o que ainda está por vir, e isso revela ainda mais a natureza ilusória de todo medo que existe por trás de uma “perda”.Nesta perspectiva mais ampla, a propriedade é uma ficção temporária. E assim sendo, não pode haver nenhuma perda.

Desta forma, o sofrimento e a ignorância que poderiam nascer e crescer a partir desse sentimento são cortados fora quando examinados à luz de sua natureza ilusória. Se você pratica a meditação ou qualquer outro exercício de contemplação mental, você pode incluir essa visualização em sua rotina, a visualização da natureza vazia do medo e do sentimento de perda, libertando-se assim de suas influências delusivas.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.