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Pensamento: figuração ou realidade?

O ser humano está destinado ao pensamento. É uma ocorrência inevitável da sua psique. E isso ocorre desde que o processo de evolução do ego humano se deu a partir das formas iniciais na nossa espécie, a partir do homem pré histórico que iniciou sua evolução biológica e psicológica.

Assim, o homem veio desenvolvendo sua consciência reflexiva ao longo de milhões de anos, suas emoções básicas, seus sentimentos, suas percepções. E já há milênios atrás os “cientistas” da mente haviam detectado o modus operandi desse mecanismo, bem como seus “bugs”. Esses “cientistas” foram homens como Hermes Trismegisto, Buda, Jesus e vários outros que foram além do círculo fechado do pensamento egocentrado. Foram visionários, que estavam além do seu tempo. Santos, sábios, ermitões, cada um revelando aspectos da nossa natureza mais intima. Vários outros homens confirmaram por si mesmos a validade desses ensinamentos e experimentaram diretamente a natureza do SER.

Recentemente, porém, houve um desvio básico em nossa cultura atual. Quando Descartes postula “Penso, logo existo“, e esse postulado se infiltra nas bases das nossas crenças, ocorre uma inversão. A partir desse postulado, que condicionou nossa percepção e o conhecimento atual que se desenvolveu pela ciência moderna a partir da Renascença, atribuímos validade existencial a uma coisa somente após seu conhecimento através do pensamento. Identificamos a coisa com o pensamento da coisa. Identificamos o fato com a construção mental dele. Identificamos o nome com a forma. Assim, associamos pensamento a existência numa relação biunívoca, ou seja, com um elemento de um conjunto associado a pelo menos um elemento do outro. Para uma realidade, diferentes nomes, conceitos, interpretações. Essa é a base da framework do pensamento. Uma frame, claro, dualista que separa o objeto do seu conhecedor.

Além disso, nessa framework identificamos a nós mesmos com as próprias identificações do pensamento. Ou seja, o postulado “Penso, logo existo” é tão forte que até mesmo para pensar é necessário a premissa da existência um pensador-que-pensa-o-pensado. Assim, quando o pensamento identifica o nome “copo” para essa coisa cilindrica à minha frente, dando a ela validade existencial através dessa relação de identidade, quase automaticamente o pensador disso tudo se identifica com essa identificação, dizendo “eu gosto desse copo”, ou não, por exemplo. Assim, esse “eu que gosta” é esse desdobramento sutil à identificação que o pensamento produz.

A própria inconsistência de um pensador-que-pensa-o-pensado já seria suficiente para demonstrar que “penso, logo existo” não tem validade absoluta, pois neste caso o pensador-que-pensa-o-pensado já deveria existir antes do próprio pensamento. Ou seja, alguma coisa seria anterior ao pensamento. Aí está o pulo do gato, o “bug” do sistema que, ainda bem, nos permite flagrar um gap, uma lacuna, e assim não cair no buraco, ir além disso tudo.

Resumindo, essa frame é um labirinto. Se entrar nela procurando sua saída, não achará, pois toda conclusão ocorrerá dentro dos seus limites espelhados.

Neste nível, o pensamento é figuração. Não apenas figuração em um nível, mas figuração de figuração, de figuração…. ad eternum. Como um fractal que se reproduz repetindo sua estrutura básica em outros níveis, a gosto do cliente. E, acho que já está claro, o “eu” é essa identificação com as estruturas do fractal. Justamente porque nos identificamos em vários níveis da estrutura, as combinações tendem ao infinito. “Meu carro”. “Meu carro que eu gosto”. “Meu carro que eu gosto e que leva minha esposa para jantar”. “Meu carro que eu gosto, que leva minha esposa para jantar, um jantar que não me satisfez”. “Não me satisfez, portanto estou irritado”. (percebeu a mudança de nível do fractal? Saiu da posse de coisas para a sensação física de saciedade, e dela para o sentimento emocional identificado). Etc, etc, etc..

Olha só outra estrutura fractal perigosa, porque se camufla de boas intenções: “Eu sou o monge”. “Eu sou o monge que segue o caminho budista e que quer meditar, acabar com o eu”. “Eu sou o monge que quer se libertar do pensamento”.

Mais engenhoso ainda é que uma estrutura pode se acoplar tranquilamente à outra. São as nossas personalidades diferentes. São os diferentes aspectos que criamos para nós mesmos, os diferentes “eus”. Somos muitos, múltiplos, multifacetados. O marido,  a esposa, o pai, o profissional, o monge, a filha, o médico…

Eu não quero condenar Descartes, dizer que ele foi o responsável, ou quem quer que seja, talvez ele somente tenha dito “Penso, logo existo” como se dissesse “tive um pensamento, que bom, estou vivo!” e foi simplesmente tomar uma cerveja depois. Mas a direção que tudo tomou, principalmente depois da Renascença, foi reforçar a identificação do sujeito com o pensamento.

Nessa identificação, o homem irá sofrer o processo do pensamento durante toda sua vida, justamente porque não vê sua natureza de SER e crê que ela é pensada.

A identificação com a figuração é sofrimento. Aqui o pensamento (sujeito) se aparta da realidade. Esse é o nível relativo da realidade.

Ok, o pensamento ocorre, sem dúvida. Afinal, fomos à Lua usando Física e Matemática, não? Portanto, dizer que a figuração, o pensamento não existe ou não tem validade também não está adequado. Afinal, há o “pensamento correto”.

Entretanto, podemos experimentar o estado de não-identificação onde o pensamento simplesmente cai em seu lugar. Neste estado, o pensamento figurado ainda continua a ocorrer, mas no seu lugar correto, como parte da própria realidade. Por exemplo, quando você olha para o azul do céu e não projeta ali nenhuma identificação, você sabe que o céu é azul, você tem a experiência de olhar para ele mas não se identifica com nada, nenhum nome, embora o pensamento possa ocorrer “ó céu é vasto e azul” você não está sofrendo com isso. Você simplesmente se conecta com a experiência que tem no aqui-agora.

A não-identificação com a figuração é o fim do sofrimento. Aqui o pensamento (sujeito) é a própria realidade. Esse é o nível absoluto da realidade.

O SER tem sua essência revelada, sincronizada e ajustada com a realidade no nível absoluto.

(…)

– “Então quer dizer que o pensamento é figuração, certo?”

– Sim.

– “Estar identificado à figuração é sofrer a ilusão fractal do “eu”, é distorcer a realidade, certo?”

– Sim.

– “Mas ao mesmo tempo a figuração ocorre na realidade, certo?”

– Sim.

– “Então, o pensamento pode ser considerado, ao mesmo tempo, figuração e realidade?”

– Sim.

– “Então, por Júpiter, é possível que a figuração ocorra em perfeita harmonia com a realidade, em seu lugar correto?”

– Sim.

– “E para que isso ocorra não pode haver, ao mesmo tempo, a identificação, o “eu”, a separação, a distorção, não é?”

– Sim.

– “Mas, afinal, o que é anterior: a realidade ou o pensamento? O quê, então, originará o quê?”

– Ahahahahaha, por um motivo que eu não posso explicar, os dois são simultâneos e complementares, ou seja, não há antes ou depois. Assim, o pensamento correto molda uma realidade correta, da mesma forma que uma realidade correta molda o pensamento correto. É assim. É infinito. Um alimenta o outro como um círculo inseparável e contínuo.

Gustavo Mokusen.

(ensaio escrito de forma independente, a opinião do autor não representa ou defende nada, nenhuma instituição de nenhum “ismo”, apenas apresenta o que ele mesmo pensa)

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A flor amarela do ipê

A velha questão entre “ser” e “ter” ganhou uma coloração diferente depois que encontrei uma carta que escrevi no ano de 2001, explicando a um amigo uma descoberta que tinha feito àquela época.

Nesse relato, e isso só percebi quando reli a carta hoje, o aspecto do “ter” diz respeito a uma característica muito sutil que eu chamaria de “sensação de posse primordial do ser humano“: os pensamentos que julgamos sermos donos. Antes mesmo de qualquer posse material, nosso processo de identificação e apego começa muito mais cedo em nossa própria mente. Já o aspecto do “ser” aparece na carta descrito como a nossa experiência direta no aqui e agora.

E para você, o que é mais importante: os pensamentos que você “tem” ou as experiências que os originam?

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Carta ao amigo Frederich L.

“… Houve um tempo em que eu acreditava firmemente naquilo que se chama de atividade mental como a base para toda a experiência no mundo.

A espécie humana está destinada a pensar, e o pensamento opera em cada um a partir de causas diferentes, de condições particulares. A atividade mental é comum ao se humano. Entretanto, a despeito da nossa capacidade de pensamento, muitas vezes surge confusão, conflito e  dificuldade de compreensão entre as pessoas. O motivo disso é que estamos num mesmo mundo em comum, dividindo juntos o mesmo tempo e espaço, mas cada um de nós crê firmemente em sua própria base operacional do pensamento a partir da qual o mundo é representado e descrito. Assim, o conflito de ideias e pontos de vista é uma consequência natural dessa atividade mental. A partir dessa constatação, decidi investigar mais profundamente o fenômeno do pensamento.

Além disso, a pergunta – ‘o que é o pensamento?’ – começa a tomar uma forma séria e mostrar que a direção de uma resposta madura e convincente deve passar por uma experiência plena e não somente por uma teoria dos sentidos.

O pensamento, aquela instância onde acontece a figuração da realidade, passou a ser por mim considerado como um processo que merece um acompanhamento minucioso da minha própria atenção, no sentido de ser mantido sob rigorosa e imparcial observação. Mostrou-se necessário, nessa espécie de pesquisa, não cair na armadilha  do  julgamento que causa discriminação e, assim, manter a imparcialidade para investigar o processo do pensamento, e ainda equilibrar e neutralizar o movimento do devaneio mental, que nos faz perder o foco mental do objeto de estudo. Tudo isso deu a essa tarefa um caráter de difícil execução.

Mas agora quero relatar o que ocorreu.

No início, confundi observação com controle. Ainda não era nítida para mim a diferença entre acompanhar e conduzir. O método que passei a usar era o de tentar controlar mentalmente as próprias funções da mente. Reprimir o que considerava nocivo; cercear o que julgava perigoso; reforçar o que fosse por mim tomado como benéfico. Estava, por assim, dizer, usando fogo contra fogo, mas o resultado disso foi que um incêndio se propagou através da inflamação do julgamento moral, o que só reforçou mais ainda a discriminação dualista entre bem e mal, entre certo e errado e todos os demais critérios que transformam o real em figuração abstrata. Claro que a partir dessa falta de habilidade nasceram situações de desconforto e de intensa contradição, mas isto foi essencial para dar mais um passo na investigação a que me propunha.

Foi quando, durante um retiro intensivo de meditação, desisti de controlar o pensamento (pelo cansaço e não por perspicácia) e, assim, algo aconteceu.

Simplesmente comecei a olhar mais para as árvores, em especial para os ipês.

O que me admirava neles era o fato esmagador de que, quando os contemplava, não podia pensar em outra coisa. Nem sei se era devido à cor amarela viva, ou por causa do formato disforme da árvore. Mas assim que meus olhos pousavam nos cachos amarelos, nenhum pensamento interferia naquele instante.

Não quero insinuar que não havia pensamentos ocorrendo em mim naquele instante. O fluxo mental estava lá, mas era como se houvesse me descolado deles. Pela primeira vez eu ocupava um espaço sutil não identificado com minha própria figuração mental.

Quando olhava os ipês, simplesmente os olhava.

Era um momento de descanso em minha mente.

Era um sentimento de alivio da complexidade mental a que havia submetido a mim mesmo.

Era como se estivesse lendo um livro sem palavras.

A partir desta época, o que aconteceu em mim foi irreversível e absolutamente consciente. Passei a ocupar esse espaço mais e mais vezes. Desde então tenho visto que as coisas que se manifestam, tudo aquilo que existe ao meu redor é anterior ao pensamento. Vi que a existência não precisa de nenhuma justificativa e é anterior à razão; a flor do ipê se abre, ela emerge diretamente da ação pura. O pensamento só ocorre dentro de nós, humanos.

Existimos não porque pensamos nisto ou porque assim o desejamos, mas porque algo que antecede o pensamento ou o desejo está presente.

A existência é anterior ao pensamento. Algo está presente antes, algo que sustenta o conhecedor e o objeto do conhecimento, algo que permite a experiência direta com as coisas, algo que abraça as coisas mesmas e a própria experiência das coisas.”