Caminhando sem peso

PERU 2009 190

“Quem carrega peso é mula”, e foi com essa frase curta e direta que meu amigo engraçadíssimo, DJ Ivan Molambo, resumiu pra mim a inutilidade de nutrir arrependimentos e culpas do passado. Certíssimo. Deveríamos aprender a aliviar os ombros ao invés de colocar mais cargas do que o necessário.

Às vezes fantasmas antigos batem à porta, tentando nos assombrar. Relacionamentos mal resolvidos, oportunidades desperdiçadas, decisões mal tomadas, viagens não feitas, tudo isso vira motivo para lamentações e choro atrasado. E assim vamos socando pedra no lombo com o martelo que batemos em um julgamento apressado e superficial, míope, dramático a nosso próprio respeito.

Pára tudo. Arrepender-se sinceramente é legal quando envolve uma tomada de consciência e sua consequente mudança de atitude. Talvez o erro possa ser reparado, talvez não, e nesse caso o lance é parar de errar, compensar de outras formas. Isso é totalmente diferente da lamúria negativista, do sentimento de culpa inútil que nos ensinaram a nutrir e carregar como uma cruz de espinhos, uma espécie de condenação eterna que ultrapassa essa vida e ainda continua até o inferno.

Céu e inferno estão dentro das nossas cabeças. Iluminação é ir além dos dois e fazer o que tem que ser feito, isto é, viver a vida como ela se apresenta. Nem bom, nem mau, mas assim como é, corretamente ajustado.

Meu amigo, DJ Ivan “Mulambo” daqui pra frente, reescreveu Drumond em uma linha com suas mulas carregadeiras. Valeu, meu velho.

Gustavo Mokusen.

O peso do Mundo

Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade.

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