Arquivo da categoria: Psicologia & Cotidiano

Manifesto

Testemunhamos mais um episódio de ignorância e tristeza na faixa de Gaza, onde membros do Hamas e tropas israelenses entraram em conflito nos últimos dias. Não há nada mais horroroso, nada mais inaceitável do que uma guerra fundamentalmente político religiosa onde morrem pessoas inocentes como os civis que, na maioria das vezes, sequer empunham armas e não querem conflito algum.

Nada justifica a violência. Nenhum patriotismo, nenhuma religião, nenhuma filosofia, nada pode ser usado como ponto de partida para justificar um comportamento tribal e primitivo como o de fazer guerra. As cenas de crianças feridas e mortas nos bombardeios são claramente provas da estupidez de que o homem é capaz.

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O bem não é abstrato, é objetivo, é muito concreto e somente pode ser manifestado nesse mundo quando convertido em ações praticadas. Qualquer ideia do bem é apenas uma ideia, é somente abstração até que se transforme em realidade corrente. Embora haja o ensinamento de que não exista o dualismo entre bem ou mal no nível da Iluminação, há também um famoso ensinamento sobre o que seja a prática Budista: “evitar o mal e fazer o bem”. Ora, não é necessário ser um budista, um cristão, um islâmico ou seja lá de que religião for para entender que esse é o pilar básico, fundamental e mínimo para se alcançar qualquer tipo de paz duradoura que seja.

O mal se apoia no medo, na raiva, na ignorância, no apego e nas demais emoções primitivas da mente humana. E também no desejo desenfreado de obter lucro, poder e ganho pessoal, impulsos fundamentais do instinto de sobrevivência que, quando deixados no comando da mente, transformam-na em máquina cega e insensível a serviço do ego.

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A verdadeira prática religiosa, seja ela qual for, deve agregar pacificamente as pessoas, e não separar. Se uma religião ou convicção afasta seus seguidores dos outros por que simplesmente eles pensam diferente, então algo está fundamentalmente errado, pois a semente do conflito está lançada. Se você, em nome do Budismo, começa a discriminar as pessoas que não praticam meditação, então seria melhor largar tudo e ir jogar sinuca com elas, pois assim ao menos haveria certo grau de entendimento mútuo.

Tudo aquilo que promove sofrimento, separação e conflito é, em última análise, uma ilusão da mente, uma mentira. “Só a verdade liberta”.

Gustavo Mokusen.

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Pão e circo

O que penso eu sobre essa copa de futebol que será realizada em Terra Brasilis e de todo o espetáculo proporcionado pelas grandes corporações aliadas politicamente aos interesses de manutenção do poder no mundo?

Para não cansar os leitores com os mesmos argumentos já tão desgastados pelo uso, mas nem por isso inválidos, tais como os investimentos que deveriam ser priorizados em outros setores do nosso país, a urgência de reformas não de estádios, mas de ruas, estradas e cidades, etc, etc, decidi brindar os amantes dos textos clássicos com uma carta que revela em seu conteúdo a milenar estratégia política de ministrar doses anestésicas no povo, de tempos em tempos.

Essa é a carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito, datada de 22 de junho do ano 79 depois de Cristo – ou seja, há 1935 anos. Os termos em latim foram traduzidos entre parênteses.

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“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.

Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis (nádegas): numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.

Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum (um século de séculos), e sempre que o olharem dirão: ‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.

Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.

Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso). Portanto deves construir esse estádio em Roma.

Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: `Ad captandum vulgus, panem et circenses´ (Para seduzir o povo: pão e circo).

Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

 

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Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito inaugurou o Coliseu, com 100 dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.

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Qualquer semelhança NÃO é mera coincidência.

Gustavo Mokusen.

O pau da barraca

Chutar o pau da barraca é fácil. Difícil é se equilibrar em meio às turbulências da vida. Equilíbrio pessoal é, por natureza, dinâmico. Temos que, constantemente, mantê-lo através do uso de sentimentos, ações, interações e forças balanceadoras. Há que se ponderar, sempre, há que se adaptar, nada é estático. Nossos desejos, nossos sentimentos e emoções mudam de peso, mudam de perspectiva – e o dos outros também.

Nunca vi ninguém se equilibrar na corda bamba sem ser flexível. Rigidez demais? Vai pro chão. Mas tudo bem; caiu, levanta e sacode a poeira, afinal a corda esticada é seu desafio diário, e você não vai ficar de vítima culpando a gravidade terrestre, não é? Estamos falando de como se entender com os próprios desequilíbrios.

Reatividade nunca ajuda. Movimentos bruscos tampouco, assim como falta de atenção. Equilíbrio não significa ficar estático, pelo contrário, é necessário manter certo fluxo constante de movimentos adequados. Aliás, o princípio de andar de bicicleta: vai cair para um lado, vira o guidão pro outro.

O princípio do equilíbrio pessoal, nas palavras de Jean Paul Sartre: “O mais importante não é  aquilo que fizeram conosco, mas sim o que nós mesmos iremos fazer com isso”. Tem a ver com contrabalancear as nossas demandas com as demandas alheias. Equilíbrio dinâmico.

Prenda a respiração e veja aí que exemplo fantástico de equilíbrio dinâmico:

 

Chutar o pau da barraca é fácil. Equilibrar-se é uma arte.

Gustavo Mokusen.