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No limite

Quando estiver cansado de remar, pare um pouco e descanse ao som da correnteza da água.

Quando estiver desanimado e descrente do mundo, sente-se por alguns instantes e observe crianças brincando.

Se as dúvidas chegarem em algum momento da jornada, não se apresse para responde-las.

Se a solidão trouxer um sentimento de amargura no peito, procure um amigo e fale com ele sobre isso.

Para todos nós, há momentos de dificuldades nessa caminhada da vida. Há momentos em que nossa energia precisa ser recarregada e renovada.

Nesses momentos, pedir ajuda é de uma sabedoria enorme. Quando pedimos ajuda, praticamos de uma só vez várias virtudes emocionais e espirituais. Deveríamos saber pedir ajuda à natureza, ao Universo, ao tempo, às pessoas. Pedir ajuda compreende também aceitar o auxílio oferecido, ou seja, abrir-se para mudanças. Significa parar de lutar contra nós mesmos ou contra os outros e buscar uma via de pacificação através da fala e da escuta.

Saber dividir é uma questão de libertar-se do isolamento do ego. Aquilo que você guarda é perdido para sempre, mas aquilo que você divide torna-se infinito e ilimitado.

Gustavo Mokusen.

Navegar com as emoções

Dizem que as pessoas que vivem próximas ao mar conhecem melhor a natureza das emoções humanas.

O oceano traz mistério e força. Suas marés se alternam, assim como nosso estado emocional. Às vezes nos sentimos plenos, cheios de vigor, fortes, como a maré alta. Nesses períodos nossa atividade é intensa, a confiança aumenta e temos muitas emoções positivas. É hora de realizar. Mas em outros momentos ocorre o inverso, isto é, experimentamos dificuldades, nos recolhemos em silêncio, percebemos que nossa energia é mais baixa e nossa força decresce. São os dias difíceis, os períodos críticos que passamos. É hora então de recuar e esperar até que nosso estado volte ao normal. Devemos descansar na maré baixa.

Há também as tempestades emocionais, assim como as tempestades marítimas. O horizonte fica então escuro, o vento sopra forte e frio, nuvens carregadas se aproximam e tudo é uma explosão de energia. Seria arriscado sair para navegar no mar nesses momentos. Assim, também não seria conveniente tomar decisões em momentos de tempestades emocionais. Mas o lado bom das tempestades é que elas chegam, descarregam a tensão e depois sempre vão embora. Elas passam. Se esperamos um pouco, de repente o céu começa a ficar mais limpo e o sol volta a brilhar. Então é hora de pegar no leme novamente e seguir em frente.

No mar tudo está em movimento, nada está parado. Assim também ocorre com nossas percepções, emoções e sensações. Elas estão ocorrendo a cada instante, nos trazendo estímulos, flutuações de humor, certezas e incertezas. Não deveríamos nos preocupar com isso tudo. Você não se aborrece pelo fato das ondas no mar irem e virem ininterruptamente, não é? Essa é a natureza do oceano, e também é a natureza das nossas emoções. O segredo é não se apegar a elas, pois elas estão em movimento perpétuo. Irão se transformar, esteja certo disso. Quando se conhece tal aspecto, podemos fazer uso e aproveitar as mudanças, as correntezas que vem e vão, as flutuações.

Por fim, a maré é imprevisível. Você nunca sabe predizer ao certo o que aparecerá na praia amanhã. Neste ponto, aceitar é uma arte, é harmonia com a realidade presente.

Sim, o oceano é uma fonte inesgotável de vida e conhecimento, mesmo com todos os percalços e dificuldades. Navegar é preciso, é uma ordem, até que nossa embarcação possa atracar no porto de destino.

Gustavo Mokusen.

Uma lição de vida sobre impermanência

Por Shan Zimmerman

O post a seguir é uma história verdadeira sobre uma lição de vida sobre impermanência.

Aconteceu  no início da manhã, e Maya estava puxando seus livros das prateleiras, passando as mãos sobre páginas lisas e apreciando as fotografias coloridas. Ocasionalmente, eu tirava de sua boca páginas quase comidas e, no lugar delas, colocava em suas mãos um livro mais resistente. Como é bela, porém, esta menina curiosa com seu grande sorriso e cílios longos. Ela estava contente e ela nem sequer parecia cansada. Eu, por outro lado, estava sentada no chão e encostada na estante, grata pela luz do dia. Desde a meia-noite, eu havia sido tomada lentamente por um vazio de coisas amargas e desanimadoras. Eu estava exausta, frustrada e me perguntando se na noite seguinte seria a mesma… Acordar a cada hora, às vezes a cada meia hora, às vezes a cada quinze minutos. Eu estava derrotada.

… e aqui, aqui foi onde algo verdadeiramente belo aconteceu.

Maya tirou da prateleira um livro intitulado “Mente Zen, Mente de Principiante” e começou a virar suas páginas. Eu pensei comigo mesmo: “Maya, mostre-me alguma coisa. Deixe a vida brilhar através de você e me guiar. Eu estou precisando”. Ela abriu o livro na página 122, um capítulo sobre impermanência. Eu gentilmente peguei o livro das mãos dela e novamente substitui por algo menos comestível.

O capítulo começou com esta citação: “Devemos encontrar a existência perfeita dentro da existência imperfeita.”

Eu sorri.

Minha alma começou a sair do buraco em que ela tinnha afundado e eu continuei a ler o capítulo que me fez decolar e aqueceu meus pensamentos cansados sob o sol revigorante de inspiração.

Veja se esse texto vai mudar sua prespectiva, assim como mudou a minha…

lmpermanência

Do livro “Mente Zen, Mente de Principiante” – Shunryu Suzuki

“Devemos encontrar a perfeita existência através da existência imperfeita.”

“O ensinamento básico do budismo é a impermanência ou a mudança. Para cada existência, a verdade básica é que tudo muda.

Ninguém pode negar essa verdade e todo o ensinamento do budismo está condensado nela. Este é o ensinamento para todos. Seja onde for, este ensinamento é verdadeiro. Este ensinamento é também entendido como o ensinamento da inexistência de uma entidade individual. Por estar cada existência em constante mudança, não existe um eu permanente. De fato, a natureza essencial de cada existência nada é senão a própria mudança. Ela é a própria natureza de toda existência. Não existe uma natureza especial ou entidade individual pe rmanente para cada existência. Este também é chamado o ensinamento do nirvana. Quando percebemos a perene verdade de que “tudo muda” e encontramos serenidade nisso, descobrimo-nos no nirvana. 

Sem aceitar o fato de que tudo muda, não podemos encontrar perfeita tranqüilidade. Mas, infelizmente, embora seja verdade, temos dificuldade em aceitá-lo. Por não conseguirmos aceitar a verdade da impermanência é que sofremos. Em conseqüência, a causa do sofrimento é a não aceitação dessa verdade. O ensinamento da causa do sofrimento e o ens inamento de que tudo muda são, pois, dois lados da mesma moeda. Em termos subjetivos, a impermanência é a causa de nosso sofrimento. Em termos objetivos, este ensinamento é simplesmente a verdade básica de que tudo muda.

O mestre Dogen disse: “Ensinamento que não parece forçar alguma coisa em você, não é verdadeiro ensinamento”. O ensinamento em si próprio é verdadeiro e em si mesmo nada força em nós; é por causa de nossa tendência humana que recebemos o ensinamento como se alguma coisa nos estivesse sendo imposta. Mas, quer nos sintamos bem ou mal a respeito disso, essa verdade existe. Se nada existisse, essa verdade não existiria. O budismo existe por causa de cada existência particular.

Devemos encontrar a perfeita existência através da existência imperfeita. Devemos encontrar a perfeição na imperfeição. Para nós, a completa perfeição não é diferente da imperfeição. O eterno existe por causa da existência não-eterna. No budismo, esperar algo fora deste mundo é um ponto de vista herético. Não buscamos nada fora de nós mesmos. Devemos encontrar a verdade neste mundo, através de nossas dificuldades, de nosso sofrimento. Este é o ensinamento básico do budismo. O prazer não é diferente da dificuldade. Bom não é diferente de mau. Bom é mau; mau é bom. São dois lados da mesma moeda. Portanto, a iluminação deve estar na prática. Este é o entendimento correto da prática, o entendimento correto da nossa vida. Assim, encontrar prazer no sofrimento é a única maneira de aceitar a verdade da impermanência. Sem compreender como aceitar essa verdade, você não pode viver neste mundo. Mesmo que tente escapar dele, seu esforço será em vão. Se você pensa que existe alguma outra maneira de aceitar a eterna verdade de que tudo muda, é ilusão sua. Este é o ensinamento básico de como viver neste mundo. Qualquer que seja seu sentimento acerca disso, você tem de aceitá-lo. Você tem de realizar este tipo de esforço. 

Assim, enquanto não nos tornarmos fortes o bastante para aceitar a dificuldade como prazer, temos de continuar no esforço. Na verdade, quando você se torna suficientemente honesto e franco, não é tão difícil aceitar essa verdade. Você pode mudar um pouco sua maneira de pensar. Sabemos que é difícil, mas a dificuldade não será sempre a mesma – algumas vezes será difícil, outras nem tanto. Se você está sofrendo, achará algum prazer no ensinamento de que tudo muda. Quando você tem problemas, é bem fácil aceitar este ensinamento. Então, por que não aceitá-lo em outras ocasiões? É a mesma coisa. As vezes, você até pode rir de si mesmo ao descobrir quão egocêntrico é. Mas, independente de como se sinta a respeito deste ensinamento, é muito importante mudar sua maneira de pensar e aceitar a verdade da impermanência.”