A mochila e a margem de lá

FOTO_0002 - RIO AMAZONAS - MATERIAL EMBARGADO

Se você não se desprender, vai acabar afogando“, gritou da outra margem o barqueiro que tentava ajudar um viajante que tinha caído na correnteza e que levava uma mochila nas costas. Dentro da mochila, tanto as coisas úteis quanto as inúteis eram naquele momento igualmente inúteis. Todas as coisas tinham um peso, e todo peso arrastava para baixo.

Comecei a pensar em tudo que colocamos na mochila. Imagine todas as coisas que você tem, imagine tudo isso dentro da sua mochila, casa, carro, ventilador, livros, sapatos, ahh, e não esqueça as panelas, todas elas. Também não se esqueça das coisas que não tem massa, mas pesam do mesmo jeito, relações atravessadas, arrependimentos não pedidos ou concedidos, mágoas alimentadas por anos a fio, sonhos desbotados, e tudo o mais que não deixa dormir em paz na madrugada.

Essa é uma história sobre o desapego. Essa é nossa oportunidade de chegar e respirar na margem de lá. A cada instante praticamos com nosso corpo, soltamos o ar velho e inspiramos o ar novo, fresco, revigorante. O corpo sabe. Mas o que aconteceu com nossas mentes? O apego não se explica, a bruma se desfaz e o rio sempre correrá. Mas às vezes vacilamos na mente, com aquela velha noção de “ainda dá para segurar mais um pouco”.

Eu, você, o andarilho ou o barqueiro, tudo se resolve nesse instante. A mochila ou a margem de lá?

Gustavo Mokusen.

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2 comentários em “A mochila e a margem de lá”

  1. Gustavo, excelente sua rápida palestra no domingo explicando como é incoerente e distante do Dharma a prática de um zazen alienante, explicando que com ele não se foge dos problemas em busca de uma pseudo-paz mental, mas se os traz a tona para enfrentá-los com a filosofia de Buda, e que a vida zen deve ser levada minuto a minuto, em cada ato; mas, ainda e mais uma vez, gostaria de lhe pedir um texto esmiuçando melhor sua opinião sobre todo este assunto. Estive hoje num abrigo da prefeitura para crianças de até seis anos, separadas de suas famílias por sofrerem abusos, e me doeu profundamente a absoluta desestabilidade emocional das crianças, sem família, sem norte, prisioneiras do Samsara até o pescoço; e em seguida ver os recém nascidos, sem família, muitos já portadores de doenças como sífilis, e lembrar que este abrigo (Filhas de Nazaré, na rua Cuiabá, bairro Prado, em Belo Horizonte) passa todo tipo de privação por falta de recursos, precisando pedir de forma humilhante até mesmo doações de leite em pó e a ajuda de voluntários sem qualquer formação simplesmente para ajudar os irmãozinhos no para-casa. Como diz Frei Betto, “a cabeça pensa onde os pés pisam.” E são tantas crianças, tantos recém nascidos… Se debatendo nas caminhas, consciências encarnadas sofrendo dor e confusão, sem um adulto mais íntimo, como uma mãe, confiável ou cúmplice, apenas uma porção de estranhos. Continuo abalado, e chego e casa determinado a iniciar um zazen e me comprometer a libertar os irmãos do Samsara. Por favor oriente compartilhando seu conhecimento da vida zen.

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