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FELICIDADE E ESCRAVIDÃO

Durante a expedição que realizamos no México, em abril deste ano, uma pessoa me disse que tinha uma tatuagem que dizia: “Não sou escravo do que me faz feliz”.

Isso soou muito bem aos meus ouvidos. Pensei: “certo, estou diante de alguém que reconhece a diferença entre felicidade e apego”. E, depois de algumas horas, peguei um pedaço de papel e escrevi: “Não há felicidade naquilo que escraviza”.

Comecei a investigar: Qual a relação entre felicidade e escravidão?

É muito fácil nos tornarmos apegados às coisas que nos dão certo grau de satisfação. Eu usei a palavra satisfação no lugar de felicidade, porque acredito haver pelo menos uma relação unívoca entre as duas nessa questão. Essa relação se baseia na ideia de saciar continuamente os desejos que emergem em nós, atendendo ao suposto lema “estou satisfeito, logo estou feliz”. Na verdade, esse deslocamento proposital e sutil da ideia de felicidade para a ideia de satisfação é a representação do ideal do consumo. Eu insisto nesse ponto porque muito do nosso comportamento e do nosso ideário moderno é fruto do condicionamento de massa a que estamos sujeitos, atacados diuturnamente por uma campanha, principalmente visual, em nome da satisfação garantida (adquirida). Compre isso e seja feliz, coma aquilo e sorria, beba essa cerveja, sacie sua sede e fique (sedado) alegre. Mas, se estamos condicionados, não podemos nem ser livres e nem felizes.

A felicidade é abstrata, a satisfação é sensorial. Esse é o ponto chave que é explorado nesse modelo. Você não pode dar felicidade para alguém, simplesmente porque esse sentimento depende do estado mental, da predisposição da psique e de várias outras condições que, dentro do complexo psicológico de uma pessoa, se traduzem ou não por estar feliz. É claro que podemos afetar as condições externas que influenciam diretamente os outros, como zelar por um ambiente agradável, cultuar a gentileza, ser prestativos, etc., e isso pode realmente contribuir para o bem estar coletivo e individual. Mas isso em si não é o próprio sentimento de felicidade, porque este ocorre dentro da instância psicológica de cada um, então não pode ser identificado como suas condições externas. Ou seja, a ocorrência da felicidade é uma ocorrência subjetiva de cada sujeito, intraduzível, intransmissível, independente, sendo no máximo compartilhada quando duas ou mais pessoas comungam da mesma experiência interior no mesmo tempo-espaço.

Mas com a satisfação sensorial é diferente. Um prato bem feito irá certamente saciar a fome de pessoas distintas. Um bom perfume satisfaz o olfato. Conforto e luxo geram sensação de prazer satisfeito pelo toque, manuseio ou até mesmo pela visão. Posse gera sensação de poder satisfeito pelo controle das coisas. Isso não é apenas abstração, isso é sensorial, entende? Felicidade é um sentimento, mas satisfação é sensorial. Essa é a chave do condicionamento usado, a associação implícita entre um e outro, literalmente a venda de gato por lebre a vendar nossos olhos. É insinuado, de forma muito sutil, que o sentimento de felicidade é consequência direta da satisfação sensorial. Basta olhar para as campanhas comerciais e rapidamente reconhecer esse princípio. No início, é difícil reconhecer esse mecanismo condicionante em nós mesmos, pois fomos adestrados a isso desde muito cedo. Mas, depois que flagramos o truque, ficamos cada vez mais espertos, despertos, e não caímos tão facilmente nele.

Claro, você pode comer tranquilamente seu prato predileto, andar no seu carro dos sonhos ou consumir tudo mais o que deseja. Não tem nada demais nisso. Liberdade não é dizer apenas “não”, e nem dizer “sim” a todo o momento, porque desse jeito estamos presos nos extremos do sim e do não. Só não confunda satisfação do consumo sensorial com esse sentimento de plenitude interior batizado de felicidade ou, ainda pior, não se iluda pensando que escolha é o mesmo que liberdade.

Não pode haver escravidão na felicidade autêntica, incondicionada, plena, porque ela não se baseia apenas na satisfação sensorial que nunca se satisfaz, ela é, antes de tudo, uma experiência psicológica libertadora. E, por isso, não pode haver felicidade em nada que escravize, porque a escravidão é sempre uma situação de limitação condicionante.

Se sua felicidade depender de alguma condição, desconfie e investigue suas causas. Essa é a forma mais eficiente de encontrar as chaves, caso exista algum par de algemas disfarçado dentro dela.

Gustavo Mokusen.

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Tudo é maravilhoso, e ninguém está contente

Por Guilherme Diniz, praticante zen budista.
A resposta de quem somos resplandece além consciência.
Mas com a mesma naturalidade com que afirmamos nosso existir e o existir do mundo que nos sustenta os pés e o devir, acreditamos ser natural nos descrevermos em vista dessa constatação. E creio ser um grande obstáculo à prática espiritual querer explicar essa complexidade referenciada numa terminologia que não pode ir além dos seus limites: o da discriminação, o da linguagem e da conceituação.
O cachimbo de Magritte não era, definitivamente, um cachimbo. Alienamos-nos das coisas pensando encontrá-las em seus nomes.
Descartes sela essa questão ser possível afirmar a existência humana pelo pensamento do sujeito que pensa si próprio. Existimos porque pensamos em nós mesmos, como se fosse possível apartar a coisa do seu conhecedor ou a imagem de seu reflexo. A flor é o seu cheiro, sua essência? E por nos pensarmos alheios à natureza intrínseca da realidade, diluímos essa experiência num trecho infinitamente menor que toda beleza de tudo quanto habita sobre o universo.
Há uma consciência de rocha, de arbusto, vento, pássaros e água, tão viva e esplendorosa além de tudo que possamos enumerar. À nossa semelhança, tudo caminha para o mesmo fim: as rochas se desgastam, as ramas apodrecem e as águas evaporam e os pássaros adubam novamente o solo que nos alimenta.
E por deixarem de ser alguma coisa, noutra se transformam, com outras vestes e novos arranjos. Há algum tempo escrevi um poema sugere essa compreensão:
« Abandona-te ao tempo
como se pela morte abraçasse a vida.
Despeça-te imerso na luz que te desengana e retorne
à espuma do mar que te abocanha
com fúria e desapego, para que em vosso
coração floresça um jardim de infinita compaixão. »
O que chamamos de vida, essa centelha de humanidade, essa fortaleza do Ego que busca necessidades, que chora e vive, se entrega e se emociona, é apenas a consciência limitada que percebe a vida sob a forma de homens e mulheres. Não sejamos a gota que se exclui do oceano, o peixe que se nega ao cardume, a melodia que se aliena ao canto.
Não há quem chore de saudade pelo tempo não vivido ou pelo futuro onde não mais se existe feito carne, sangue e mente. Mas ali estávamos, e lá estaremos, além do tempo, além de nós mesmos. Entre as margens da dor e do esquecimento sobrevoa a bem-aventurança. Feliz aquele que se refunda na existência além dos limites existência.

A busca da felicidade

Contribuição de Ana Rennó, Engenheira e leitora do ALD.

Passamos a vida em busca da felicidade, procurando o tesouro escondido. E, assim, uns fogem de casa para serem felizes, outros fogem para casa em busca da felicidade, uns se casam pensando em serem felizes, outros se divorciam para serem felizes, uns desejam viver sozinhos para serem felizes, outros desejam possuir uma grande família a fim de serem felizes, uns fazem viagens caríssimas buscando serem felizes, outros trabalham além do normal buscando a felicidade, uns desejam ser profissionais liberais para comandar a sua própria vida e poderem serem felizes, outros desejam ser empregados para ter a certeza do salário no final do mês e, assim, poderem ser felizes, outros, ainda, desejam trabalhar por comissão, assegurando que o seu esforço se transforme em melhor remuneração e assim serem felizes.

Descrição: http://intranet/intranetsei/wp-content/uploads/2012/09/BUSCA-DA-FELICIDADE.jpg

É uma busca infinita.

O carinho recebido nunca é suficiente.

Mas, há uma forma melhor de viver! A partir do momento em que decidirmos ser felizes, nossa busca da felicidade chegou ao fim.

É que percebemos que a felicidade não está na riqueza material, na casa nova, no carro novo, naquela carreira, naquela pessoa.

E jamais está à venda.

Quando não conseguimos achar satisfação dentro de nós mesmos, é inútil procurar em outra parte. Sempre que dependemos de fatores externos para ter alegria, estamos fadados à decepção.

A felicidade não se encontra nas coisas exteriores. A felicidade consiste na satisfação com o que temos e com o que não temos. Poucas coisas são necessárias para fazer o homem sábio feliz, ao mesmo tempo em que nenhuma fortuna satisfaz a um inconformado.

As necessidades de cada um de nós são poucas. Enquanto nós tivermos algo a fazer, alguém para amar, alguma coisa para esperar, seremos felizes.

Tenhamos certeza: A única fonte de felicidade está dentro de nós, e deve ser repartida.

Se chover, seja feliz com a chuva que molha os campos, varre as ruas e limpa a atmosfera.

Se fizer sol, aproveite o calor.

Se houver flores em seu jardim, aproveite o perfume.

Se tudo estiver seco, aproveite para colocar as mãos na terra, plantar sementes e aguardar a floração.