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Atenção e presença

O ser humano possui basicamente 3 aspectos de sua natureza: o corpo físico, o corpo de emoções e o corpo mental ou intelectual. E o que acontece normalmente? Estamos a maior parte do tempo com várias tensões espalhadas pelo corpo físico, nossas emoções nos jogam de um lado para o outro, nossa mente cria imagens e ilusões a uma velocidade que não podemos acompanhar. Estamos desatentos em relação a nós mesmos.

Estamos literalmente, a maior parte do tempo, triseccionados e perdemos muita energia com isto. Porém, a idéia é que existe uma possibilidade de uma melhor articulação entre as naturezas do ser humano, para que o aprendizado e o desenvolvimento humano possam atingir níveis mais profundos e eficazes. Creio que do desequilíbrio entre corpo, mente e emoção nascem bloqueios que às vezes nem percebemos, e por isto não temos a menor chance de supera-los. Mas é possível reestabelecer o equilíbrio. Sinta você mesmo, através de um pequeno exercício, um melhor equilíbrio entre estes estados diferentes de consciência: tente ler o restante do texto e, ao mesmo tempo, sentir seu abdômen descontraído, livre de tensões. Descontraia também sua face, e verá como seu estado de atenção melhorará consideravelmente. Respire com atenção.

Quando dispensamos esta atenção especial para nosso interior, parece que “algo” responde a altura, e começa lentamente a se desenvolver. A atenção é o alimento para o “ser interno”. Neste nível de consciência concentrada o aprendizado é muito favorecido. É possível lembrar mais da nossa presença, aprender e conhecer mais os mecanismos internos que nos levam de um lado a outro, se quisermos experimentar a sensação de paz interna. Com esta condição poderemos enxergar um pouco mais longe.

A ideia é trabalhar em cima das três naturezas do homem através de atividades mais práticas e simples o possível (como a indicação de sentir o abdômen), para evitar a dispersão mental que nasce quando as elucubrações mentais tomam o lugar do ser: experimentar a atenção dada a nós mesmos e a partir dela chegarmos a alguma conclusão palpável, não discursiva. É uma nova faculdade, uma nova alfabetização tão lenta quanto a literária, mas possível de ser feita. Se é possível estarmos presentes durante cinco minutos, então é possível durante dez minutos. Se é possível por dez minutos, é possível por uma hora. Enfim, é possível revertermos a situação de sonolência a  que estamos submetidos a maior parte do tempo e, assim, cultuar uma presença de corpo e mente harmonizados.

Gustavo Mokusen.

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O Caminho e a mente macaco

A grande questão da meditação zen é manter o foco mental e a atenção no momento presente, sem divagar ou fugir da realidade que se apresenta no agora. Em outras palavras, fazer o que se está fazendo com inteireza e completude de corpo e mente.

O conceito de “Tao”, do “Caminho”, está sempre presente na filosofia oriental. O Caminho é aquilo que está bem à sua frente, neste momento. É o propósito da sua vida. São as inúmeras circunstâncias que emergem em sua realidade e que, somadas e interligadas, perfazem sua matriz existencial. Por exemplo, há o caminho da espada para o samurai, o caminho zen para o monge, o caminho dos arranjos florais para o jardineiro, o caminho dos negócios para o comerciante. Em outras palavras, o Caminho é aquilo que aponta o sentido e a direção da sua realização nessa vida.

Particularmente, acredito que esse seja um conceito que não se aplica somente ao caminho zen. Creio que a “mente macaco” seja um problema que muitas pessoas enfrentam. A mente macaco é aquela que fica pulando prá lá e prá cá enquanto você está tentando se concentrar. É aquele tipo de comportamento mental que nunca deixa você comer ou dormir em paz, e por isso você quase sempre se sente com fome ou cansado. Sempre falta alguma coisa em sua vida, em seu caminho, por mais e mais que você possa ter na sua frente.

Mas, na verdade, essa é uma ilusão que a mente macaco produz. O conceito de Caminho é, por natureza, completo, assim mesmo como ele é. Ele não exclui e nem tenta introduzir nada que já não seja a própria realidade. A realidade é, então, perfeita e completa por natureza, no sentido de que nada lhe sobra ou falta. Você poderia dizer: “eu estou com fome e falta comida, então a realidade não é perfeita assim ou assado”. Mas essa ainda é uma visão fragmentada: a fome que ocorre é conseqüência justamente da falta de comida, então tudo está como deve ser e a realidade é completa em sua causa e efeito, sem mais nem menos, o problema seria não sentir fome quando não se tem comida. Mas o excesso de movimento intelectual não permite que você veja a realidade à sua frente com a máxima resolução da sua tela mental. Você, no estado da mente macaco, perde definição de foco e, com isso, perde tudo o que poderia ser experimentado neste momento. Você chupa uma mexerica preocupado com o problema de ontem ou de amanhã, e assim não há paz ou satisfação, você simplesmente perde o sabor de cada gomo e nem consegue resolver os problemas, desperdiçando os gomos um a um com sua mente desfocalizada.

É necessário focalização para realizar qualquer Caminho que seja. A chamada mente comum no quadrinho é justamente essa mente que se apóia naquilo que ocorre neste momento, na sua frente, ao contrário daquela que fica pulando sem parar. O “comum” é, ironicamente, seu Caminho mais essencial que se apresenta no agora, simplesmente porque é o único disponível para você. O comum, o ordinário é, ao mesmo tempo, extraordinário. Não duvide dele; faça as pazes com ele. Cada gomo de mexerica é único, quando bem degustado.

Durma quando sentir sono. Coma quando sentir fome. Esse é o seu Caminho, é a extraordinária mente comum. O que passa disso é pura macaquice da mente.

Gustavo Mokusen.