Arquivo da categoria: Equilíbrio Emocional

Melhorando a concentração

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Concentração é a atenção física e mental focalizada intensamente em um ponto. Por isso, para se concentrar com eficiência é importante harmonizar corpo e mente, usando o corpo físico como âncora da atenção mental. Isso significa que você vai ancorar sua atenção mental no seu corpo, e daí você poderá direcioná-la para a ação que quiser. É pouco provável que você consiga melhorar sua atenção usando apenas métodos mentais, como dizendo mentalmente para si mesmo “concentre-se!”, isso equivaleria a tentar apagar um incêndio usando apenas fogo como ferramenta. A técnica de usar o corpo físico como âncora tem o poder de quebrar o ciclo mental vicioso da desatenção e é largamente utilizada nas artes marciais, nos esportes, na música e em qualquer outra atividade onde sejam necessárias precisão, atenção e focalização.

O princípio fundamental dessa ancoragem é a sincronização da respiração. A respiração funciona como elemento sincronizador entre a mente e o corpo. Na verdade, mente e corpo já estão naturalmente sincronizados e unificados, mas através da respiração podemos tomar consciência desse fato, podemos atualizar instante após instante essa unidade indissolúvel. E é justamente essa tomada de consciência o fator que sustenta a atenção focalizada, ou seja, a concentração.

A respiração é, ao mesmo tempo, mente e corpo; é o sopro que une a terra ao céu.

ddePara se respirar corretamente e, portanto, se concentrar corretamente, é importante manter uma postura corporal adequada. Isso significa dizer que é necessário manter as costas eretas, estando sentado ou em pé. Quando você coloca sua coluna ereta, a respiração pode ocorrer com ajuda de todos os músculos necessários para que ela ocorra perfeitamente. Por exemplo, a região abdominal: com as costas encurvadas, essa região fica comprimida e não ajuda muito no processo respiratório. Já com as costas eretas, é possível alongar o movimento respiratório e “respirar na barriga”, ou seja, com a ajuda dos músculos abdominais profundos.

Basta colocar as costas eretas e “respirar na barriga” para que seu estado mental de atenção melhore consideravelmente. Enquanto lê esse texto, experimente. Costas eretas, respiração profunda pelo nariz, sem forçar, naturalmente. Veja como é diferente. Você está ancorando sua atenção no seu corpo, usando a respiração.

Comece ancorando todos os dias, sempre que lembrar ou desejar ficar mais atento. Pode ser por uns 5 minutos, ou pelo tempo que desejar. Como um samurai que segura sua espada com máxima atenção, preencha cada pedaço do seu corpo com sua atenção e respiração nesse momento. Empunhe sua existência no aqui e no agora. Saiba que até mesmo tomar conhecimento da desatenção é igualmente praticar a atenção plena. Relaxe os músculos faciais, solte a máscara. Apenas respire na barriga com as costas retas e observe-se. Sem esforço demasiado, coloque-se naturalmente. Não tente alcançar nada, e nem desviar de nada. Apenas empunhe-se no agora. Se fizer isso, já estará no lugar correto.

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Se você praticar isso por uma semana, já irá dar uma poderosa mensagem à sua mente desatenta: “estou aqui”. Se praticar por três meses, durante todos os dias, fortalecerá seu estado mental e seu corpo. Se praticar durante alguns anos, a concentração será seu estado natural da mente.

Gustavo Mokusen.

Caminhando sem peso

PERU 2009 190

“Quem carrega peso é mula”, e foi com essa frase curta e direta que meu amigo engraçadíssimo, DJ Ivan Molambo, resumiu pra mim a inutilidade de nutrir arrependimentos e culpas do passado. Certíssimo. Deveríamos aprender a aliviar os ombros ao invés de colocar mais cargas do que o necessário.

Às vezes fantasmas antigos batem à porta, tentando nos assombrar. Relacionamentos mal resolvidos, oportunidades desperdiçadas, decisões mal tomadas, viagens não feitas, tudo isso vira motivo para lamentações e choro atrasado. E assim vamos socando pedra no lombo com o martelo que batemos em um julgamento apressado e superficial, míope, dramático a nosso próprio respeito.

Pára tudo. Arrepender-se sinceramente é legal quando envolve uma tomada de consciência e sua consequente mudança de atitude. Talvez o erro possa ser reparado, talvez não, e nesse caso o lance é parar de errar, compensar de outras formas. Isso é totalmente diferente da lamúria negativista, do sentimento de culpa inútil que nos ensinaram a nutrir e carregar como uma cruz de espinhos, uma espécie de condenação eterna que ultrapassa essa vida e ainda continua até o inferno.

Céu e inferno estão dentro das nossas cabeças. Iluminação é ir além dos dois e fazer o que tem que ser feito, isto é, viver a vida como ela se apresenta. Nem bom, nem mau, mas assim como é, corretamente ajustado.

Meu amigo, DJ Ivan “Mulambo” daqui pra frente, reescreveu Drumond em uma linha com suas mulas carregadeiras. Valeu, meu velho.

Gustavo Mokusen.

O peso do Mundo

Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade.

Lidando com a raiva

Às vezes sentimos raiva em nossas vidas. É uma experiência psicológica que faz parte do nosso espectro emocional enquanto humanos. Pode ser raiva de uma pessoa, de uma situação, de nós mesmos ou simplesmente raiva inconsciente que desponta e aparece sem motivo nenhum aparente. Geralmente a experiência da raiva, quando atinge níveis de descontrole e não recebe atenção devida, culmina com uma explosão ou com algum tipo de descarga energética no nosso aparato mental, emocional e físico, ou pode até mesmo afetar diretamente outras pessoas, o que certamente pode provocar danos e complicações indesejáveis.

De qualquer forma, independente da sua origem, a raiva pode ser entendida como uma espécie de inflamação do nosso sistema emocional. Assim como alguma parte do nosso corpo físico pode ficar inflamada, especialmente após alguma intervenção cirúrgica ou alguma mudança de hábitos, assim também uma inflamação emocional pode aparecer após ou durante algum processo de mudança psicológica, ou ainda quando atravessamos fases emocionais mais intensas. Como toda inflamação, a raiva requer cuidados e atenção plena em seu tratamento. Sim, a raiva pode ser tratada, ou seja, podemos aprender a lidar com ela de forma menos traumática.

No pensamento oriental a raiva é tida como um dos três venenos da mente humana. Os outros dois são a cobiça e a ignorância. Geralmente o aparecimento de um veneno na mente induz o aparecimento dos outros, de forma que quase sempre podemos identificar uma associação desses três elementos quando estão atuando. O termo veneno significa que essas emoções possuem a capacidade de mudar nosso estado de consciência de tal forma que experimentamos o sofrimento diretamente em nossa existência. Sentimos dor, infortúnio, infelicidade e demais emoções negativas a partir dos três venenos da mente. Não apenas podemos experimentar tudo isso, mas também provocamos sofrimentos nos outros quando nós mesmos estamos envenenados mentalmente.

A boa notícia é que para todo veneno mental existe um antídoto. E ele se chama atenção plena. A atenção plena tem o poder de neutralizar a atuação do veneno e o seu espalhamento por nosso corpo físico, mental e emocional. E assim também não contaminamos os outros ao nosso redor. Mas como poderia a atenção plena neutralizar a raiva?

Quando perceber que um sentimento raivoso está emergindo, está aparecendo dentro de você, quando sentir que sua face está vermelha e a ira começa a despontar, quando sua boca estiver espumando e você perceber que tudo isso começa a aparecer em seu ser, simplesmente tome consciência disso tudo, volte seu olhar interior para tudo isso ocorrendo dentro da sua mente e no seu corpo. Ao invés de tentar bloquear a raiva ou tentar eliminá-la com o uso da força de vontade, simplesmente perceba a tensão muscular que geralmente se forma na face, perceba como a respiração fica ofegante, como a adrenalina corre nas veias, sinta o calor no rosto e a testa já franzida, veja tudo isso com seu olhar interior e imediatamente pense: “um sentimento envenenado de raiva está emergindo em mim agora”. Rotule tudo isso que está ocorrendo com um pensamento claro de constatação interior. Se puder criar um rótulo jocoso para o sentimento, do tipo “lá vem aquela raivinha de cachorro zangado de novo”, melhor ainda. Ao invés de simplesmente se identificar como sentimento de raiva que induz ao pensamento “eu estou com raiva”, e assim se entregar a ele, faça diferente: dê um passo ao lado, constate a ocorrência, rotule e separe-se da raiva. Isso faz toda a diferença, isso tira a energia de qualquer veneno mental.

Não é que você irá sublimar a raiva e jogá-la para o fundo do inconsciente, ou se entregar a ela, mas antes, que a ocorrência dela não implica necessariamente na sua identificação subjetiva com você. Reprimir apenas reforça o veneno, assim como se identificar com ele e levar a cabo sua atuação maléfica. Mas reconhecer seu surgimento é o passo essencial para testemunhar também a sua extinção. A observação cuidadosa e atenciosa dos estados mentais que surgem instante a instante já é uma atitude retificadora que tem o poder de alinhar o nosso material subjetivo de forma mais harmoniosa.

Quando observamos com uma honesta atenção plena, constatamos que a raiva ainda pode emergir em nós, mas isso não implica necessariamente em identificar nosso pensamento, palavras e ações com ela. Ou seja, o veneno existe mas não precisamos beber dele.

Gustavo Mokusen.