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Meditação em um instante

A inclusão do exercício de meditação em nosso cotidiano é a chave para o desenvolvimento de uma prática espiritual vinculada às nossas necessidades reais. É de suma importância compreender que esse tipo de prática pode, ao mesmo tempo, efetivamente contribuir para nosso aprimoramento pessoal e também evitar qualquer alienação ou fuga de realidade empreendida em nome de um caminho espiritual. Além disso, afeta diretamente as pessoas que nos cercam, transmitindo a elas todos os frutos e benefícios que são gerados quando praticamos desta forma.

Procurar seguir na direção de uma prática que está inserida no contexto que se apresenta ao nosso redor, e não apartada dele, é, sem dúvida, a  mais útil de todas. Durante anos pude realizar exercícios de meditação, respiração e relaxamento em situações cotidianas, como no trabalho, no trânsito ou durante uma conversação qualquer, e deixo aqui meu testemunho do quão benéficos são estes exercícios.

O vídeo abaixo ilustra muito bem o ponto, e sugere um poderoso exercício que está ao alcance de todos.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

O espetáculo e a falsificação da realidade

Hoje recebi um interessante email em minha caixa de mensagens, que transcrevo abaixo em azul:

(…)

A gênese do pensamento contemporâneo sobre a questão do espetáculo tem suas raízes no pensador pós-marxista francês Guy Debord, que faleceu em 1994. O caráter contestatório da obra de Debord incita a todos, numa luta acirrada contra a perversão da vida moderna, que prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo. Em sua obra há influência direta de Karl Marx e Sigmund Freud, dentre outros, sendo que seu livro mais famoso se chama “A sociedade do espetáculo“.O ponto de partida do livro é uma crítica ferina e radical a todo e qualquer tipo de imagem que leve o homem à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo estilo de vida consumista. Para o filósofo, cineasta e ativista francês, a sociedade da época estava contaminada pelas imagens, as sombras do que efetivamente existe, onde se torna mais fácil ver e verificar a realidade no reino das imagens, e não no plano da própria realidade. Servindo-se de aforismos, no primeiro deles Debord afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação“. Ou seja, pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa, os indivíduos em sociedade abdicam da realidade dos acontecimentos da vida, nem sempre prazeirosos, e passam a viver num mundo movido pelas aparências e consumo permanente de fatos, notícias, produtos e mercadorias. Segundo o autor:

O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identificada ao consumo). Os meios de comunicação de massa são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’”.

Desta maneira, as relações entre as pessoas transformam-se em imagens e espetáculo. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens“, argumenta Debord. O consumo e a imagem ocupam o lugar que antes era do diálogo pessoal através da TV e os outros meios de comunicação de massa, publicidades de automóveis, marcas etc. e produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos.

(…)

O que me chama a atenção é a completa adequação e aplicação dessas ideias nos dias atuais, mais de 40 anos após serem apresentadas por Guy Debord. A alienação espetacularizada é cada vez mais presente em nossas vidas, e o que assusta é a normalidade com que se passou a consumir esses produtos. Seja um “Reality Show”, que de realidade não tem nada, absolutamente nada, mas que mesmo assim atinge picos de audiência, seja o vício desenfreado pelas chamadas “Redes Sociais”, que vinculam as pessoas mais pela imagem, status e outros aspectos superficiais do que pelas relações maduras e concretas, e que muito provavelmente têm também empobrecido essa realidade social relacional na medida em que se gasta muito mais tempo lidando com perfis virtuais na tela do computador do que conversando com alguém de verdade, de carne e osso.

As relações sociais mediadas por imagens vivem seus tempos máximos. O espetáculo se apresenta como nunca antes se viu, invadindo para vender a invasão de privacidade. Pense apenas nas últimas semanas e a enxurrada de matérias “espetaculares” empurradas goela abaixo pelos grandes veículos de comunicação, quase todas fruto de um sensacionalismo pobre e barato.

O culto ao externo, à imagem e ao superficial compete diretamente com o conteúdo, o interior, a essência. Dada a devida importância aos modernos meios de comunicação, poderíamos iniciar uma espécie de uso consciente deles, uma vez que tanto a alienação pelo excesso quanto a alienação pelo isolamento são ambas alienações. Poderíamos, neste sentido, entrar mais em contato com o real. Faça uma caminhada, vá a uma cachoeira, chame alguém para cozinhar e bater um papo.  Caso contrário, estaremos fadados a viver hipnotizados em meio a bolhas, a ilusões criadas pelo consumo voraz da imagem e do espetáculo, que sempre será uma falsificação da realidade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.  

A mente pacificada

Ontem conversei com um pesquisador sobre as religiões orientais, e em dado momento da conversa ele me perguntou:

– “O Zen Budismo lhe trouxe as respostas que você procurava?”

– “Não” – eu disse a ele.

– “Como não?”

– “A prática do Zen cortou fora as perguntas excessivas que eu tinha” – respondi.

De fato, essa é uma realização que a prática da meditação sentada e do treinamento Zen pode trazer: a dissolução das dúvidas mentais inúteis e a pacificação do pensamento discriminador exagerado. Isso não significa que você vai responder todas as perguntas que por acaso possa ter, ou que você não vai dar atenção às suas questões pessoais, mas sim que você vai aprender a se relacionar e fazer as pazes com elas.

De fato, uma mente que vive imersa nas dúvidas e na insegurança é uma mente intranquila. Vivemos em uma época onde o conhecimento intelectual é muito valorizado, e muitas vezes essa corrida por uma acumulação de informações acaba gerando terreno fértil para incertezas e ansiedades. Quando eu era um estudante de Física – e também nos anos seguintes quando atuei nessa área – pude perceber claramente o quanto o desenvolvimento desequilibrado da intelectualidade pode gerar um padrão de insatisfação mental. Vivi isso em minha própria experiência. Saber, acumular conhecimento teórico, mais saber, mais conhecimento desvinculado da prática, e tudo isso vai crescendo e, no fim das contas, terá que ser usado e justificado através da busca incessante de respostas para perguntas criadas, que nem sequer existiam. Claro, como temos grande sede e desejo teórico, acabamos criando muitas perguntas e dúvidas mentais. Algumas são questões que realmente se justificam e provocam nosso crescimento e desenvolvimento. Mas uma parte considerável delas não passa de especulação, de ruminação do pensamento, de conflito criado na abstração e na teorização em excesso.

Não quero insinuar que o conhecimento intelectual seja inútil, longe disso. Mas a informação acumulada sem conexão com a realidade pode sim provocar uma alienação individual. O exercício mental é válido, mas ele deve ser aplicado e pautado em nossa relação com a realidade. Sem exageros ou extremismos, devemos cultuar uma mente equilibrada entre o real e o abstrato, entre as ideias e os fatos.

Uma atividade mental balanceada é um dos aspectos que a prática da meditação traz. Diz-se que o excesso de dúvidas traz ansiedade. Na meditação não reprimimos e nem nos apegamos à nossa atividade mental, e por isso ela vai se equilibrando naturalmente. O excesso vai saindo naturalmente, a pressão interna de emoções vai se balanceando com a realidade. Assim, ao longo dos anos de prática vamos cultuando uma mente confiante, segura e tranquila, harmonizada com o corpo e com o momento presente.

Ter dúvidas é natural, pois é consequência da estrutura dualista do nosso pensamento comparativo e reflexivo. Sofrer e se apegar a elas é uma questão de escolha, de direcionamento do foco da atenção da mente. Com treinamento adequado é possível pacificar a mente e cortar fora o excesso de preocupação e ansiedade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.