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A mochila e a margem de lá

FOTO_0002 - RIO AMAZONAS - MATERIAL EMBARGADO

Se você não se desprender, vai acabar afogando“, gritou da outra margem o barqueiro que tentava ajudar um viajante que tinha caído na correnteza e que levava uma mochila nas costas. Dentro da mochila, tanto as coisas úteis quanto as inúteis eram naquele momento igualmente inúteis. Todas as coisas tinham um peso, e todo peso arrastava para baixo.

Comecei a pensar em tudo que colocamos na mochila. Imagine todas as coisas que você tem, imagine tudo isso dentro da sua mochila, casa, carro, ventilador, livros, sapatos, ahh, e não esqueça as panelas, todas elas. Também não se esqueça das coisas que não tem massa, mas pesam do mesmo jeito, relações atravessadas, arrependimentos não pedidos ou concedidos, mágoas alimentadas por anos a fio, sonhos desbotados, e tudo o mais que não deixa dormir em paz na madrugada.

Essa é uma história sobre o desapego. Essa é nossa oportunidade de chegar e respirar na margem de lá. A cada instante praticamos com nosso corpo, soltamos o ar velho e inspiramos o ar novo, fresco, revigorante. O corpo sabe. Mas o que aconteceu com nossas mentes? O apego não se explica, a bruma se desfaz e o rio sempre correrá. Mas às vezes vacilamos na mente, com aquela velha noção de “ainda dá para segurar mais um pouco”.

Eu, você, o andarilho ou o barqueiro, tudo se resolve nesse instante. A mochila ou a margem de lá?

Gustavo Mokusen.

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O medo de perder

O medo que nutrimos em nossas mentes cria ou reforça os obstáculos que experienciamos em nossas vidas. O medo é a raiz de toda emoção negativa, uma vez que ele nos rouba a realidade e não nos permite conhecer realmente o nosso verdadeiro caminho nessa existência. Digamos assim, o medo é um véu que encobre as coisas e as experiências como elas são.O medo é a porta de entrada para a ignorância e, consequentemente, para o sofrimento.

Há dois tipos básicos de medos que podemos sentir, e eu costumo dar um exemplo muito simples sobre eles. O primeiro tipo é o chamado medo real de preservação, geralmente associado a alguma situação que coloca em risco as nossas vidas. Por exemplo, se você se debruçar do último andar de um edifício alto, você pode sentir medo da altura. Isso significa: cuidado, não se arrisque. Outras pessoas têm medo de altas velocidades, ou ainda de bichos selvagens. Bom, todos esses exemplos ilustram bem esse tipo de medo ancestral ligado ao instinto de autopreservação. Talvez a palavra “medo” usada nestes casos não seja apropriada, talvez esse medo pudesse ser renomeado como prudência, proteção, ou prevenção, ou ainda simplesmente cuidado próprio. Mas, sem entrar nesse mérito, apenas reconheçamos que esse primeiro tipo de “medo”, quando equilibrado no bom senso da realidade, é importante porque tem a função de nos manter vivos nas situações de risco ou na iminência de nossa morte física. Ou seja, é um “medo” ancestral do homem que tem o papel de garantir a sua sobrevivência física.

O segundo tipo de medo é bem mais irreal do que o primeiro, uma vez que quase sempre está associado a uma ilusão mental, ou seja, a uma criação da nossa subjetividade. Por exemplo, o medo de perder alguém ou alguma outra coisa. Essa é uma questão importante, pois geralmente não investigamos profundamente as raízes deste tipo de medo. Ocorre que essa emoção não diz respeito diretamente à nossa autopreservação, uma vez que a situação em questão não nos expõe diretamente ao risco de morte física. Sendo assim, qual a sua origem? Sua origem está na ilusão, no caso em questão na ilusão de que podemos perder algo ou alguém, pois há uma crença anterior de que as possuímos. Partimos do pressuposto de que somos donos, proprietários do objeto em questão, e esse pressuposto de propriedade cria automaticamente a ilusão da possibilidade de sua perda. É justamente essa possibilidade, essa angústia permanente que assombra ao redor do objeto do apego, que cria a falsa sensação de perda e, consequentemente, a sensação de medo. Resumindo, é uma forma de apego, ou identificação, que gera o medo de perder.

Se uma situação de risco real, como um bicho selvagem, cria um sentimento de preservação que procura evitar a morte física do corpo ou seu dano, podemos inferir que uma situação subjetiva como a descrita acima provoca um sentimento que busca a preservação daquela contraparte psicológica associada ao dano potencial em questão, no caso algum aspecto do “eu”, ou ego, ligado ao objeto do apego. Assim, o medo de perder alguma coisa busca a manutenção de alguma parte do ego que se encontra identificada com essa coisa.

Entretanto, a sensação de medo em questão seria facilmente dissolvida se reconhecêssemos que, para começo de conversa, não somos donos de nada nessa existência, que nada pode ser possuído ou tido como propriedade permanente. Se entendemos que nada pode ser possuído neste sentido permanente, uma vez que tudo está em constante transformação, então também aceitamos que nada pode ser perdido. Ainda, basta vislumbrar que, ao reter o velho, deixamos de conhecer tudo o que ainda está por vir, e isso revela ainda mais a natureza ilusória de todo medo que existe por trás de uma “perda”.Nesta perspectiva mais ampla, a propriedade é uma ficção temporária. E assim sendo, não pode haver nenhuma perda.

Desta forma, o sofrimento e a ignorância que poderiam nascer e crescer a partir desse sentimento são cortados fora quando examinados à luz de sua natureza ilusória. Se você pratica a meditação ou qualquer outro exercício de contemplação mental, você pode incluir essa visualização em sua rotina, a visualização da natureza vazia do medo e do sentimento de perda, libertando-se assim de suas influências delusivas.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Tentativas de trabalhar o desapego

Por Márcia Cândido

Estou aprendendo a aceitar aquilo que vem, sem me rebelar. Às vezes, o que nos vem não é lá muito desejável; então, é um desafio aceitar tais coisas. Como precisamos viver apesar de tudo o que nos acontece, envolvo-me na tentativa de entender a lição que está implícita em cada coisa, porque cada acontecimento tem seu motivo, sua razão de existir.

Também estou tentando aprender a não perseguir aquilo que vai embora, porque muitas vezes, o que rompe conosco por ser algo bom e, como seres humanos e como seres frágeis, desejamos ser felizes e ter tudo de bom ao nosso redor.

A isso dou o nome de tentativas de trabalhar o desapego. Na teoria, parece fácil, mas na prática, nunca constatei como é tão difícil!

A natureza está aí para nos ajudar a entender. As flores desabrocham, exalam seu perfume, enfeitam ambientes e, mesmo com todo o cuidado que temos com elas, não conseguimos prendê-las neste mundo. Elas cumprem seu ciclo e vão-se, deixando no ar uma doce lembrança do momento em que nos foram ofertadas  ou compradas. Com o tempo, as sensações que evocam ficam arquivadas na memória.

Os animais, ah!… os animais de estimação. Eles estão aí também para nos alegrar, enfeitar nosso dia, nos encher de bons momentos felizes e, como têm uma vida geralmente mais curta que a nossa, um dia vão-se deixando, tal como as flores, uma suave lembrança do que foram um dia.

Brisa Maria, uma poodle misturada com bichon frisé, de origem belga, me acompanhou ao longo de 11 anos. Meiga, dócil, amiga, companheira. Quando me sentava para meditar ela, cuidadosamente, aproximava-se e ficava próxima, silenciosa até que eu, também, quebrasse o silêncio. Deitada no chão, sentia as vibrações do momento e, solene, também, usufruía daquela paz.

É a mais atual lição que a natureza me enviou para aprender que tudo tem seu tempo, que a vida cumpre um ciclo e que o desapego precisa, realmente, ser trabalhado. Nós não temos controle sobre todas as coisas.

Na paz.