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Negociação de conflitos

Em um mundo materialmente limitado e onde vivem cerca de sete bilhões de pessoas, é impossível não haver conflitos de interesses entre indivíduos e grupos. Para piorar a situação, a maior parte destas pessoas vivem aglomeradas nos grandes centros urbanos, com espaços físicos e oportunidades limitadas, e neste ambiente tenso é onde a maior parte de suas vidas e realizações irão ocorrer.

Saímos logo cedo e já existe o trânsito pesado, a disputa por espaços de locomoção. Chegamos ao trabalho e não é raro nos depararmos com conflitos de ideias e posturas. E ainda existem os conflitos emocionais nas relações com família, amigos, parceiros… Mas, existiria uma forma de amenizar tais conflitos? Qual a solução para este cenário? Será que estamos destinados a brigar até o último dos nossos dias?

Não, não precisamos passar uma vida inteira em guerra com o mundo ao nosso redor. Há uma forma mais flexível e possível de lidar com as diferenças de pensamentos, atitudes e crenças. Podemos aprender e praticar a negociação das situações críticas iminentes e também a negociação de conflitos já instalados.

O primeiro passo para isso é entender que a diversidade é característica cada vez mais crescente no mundo atual. Isso significa: nem todos são iguais a você. As diferenças irão aparecer, mas isso não significa necessariamente confronto. É necessário praticar uma virtude muito pouco incentivada hoje em dia, a aceitação. Eu não disse passividade, aquele tipo de omissão em que se busca o menor esforço. A aceitação é uma das posturas mais ativas, porque ela pressupõe se colocar no lugar do outro, ouvir o contraponto e se posicionar de acordo com ele. Mas infelizmente há uma cultura disseminada atualmente da tolerância zero, onde a aceitação é tratada errônea e negativamente como submissão; nesse modelo, que mostra claramente sua ineficiência quando vemos os mais elevados números de litígios não resolvidos satisfatoriamente, todos clamam por seus direitos a qualquer custo.

Então, a aceitação ativa e não reativa – se colocar no lugar do outro, aceitar a diferença e conhece-la bem para se posicionar com equilíbrio – é o primeiro passo para uma negociação justa e eficiente.

O segundo momento de uma negociação bem sucedida é expressar-se com clareza. Agora é hora de expor sua perspectiva, de forma que seu interlocutor não se engane a respeito do que está sendo tratado. Eu diria que 90% dos casos de conflitos ocorrem por equívocos de linguagem, naquele corriqueiro tipo de “uai, eu pensei que você não gostava disso ou daquilo”. Sun Tzu, o autor do famoso “A arte da guerra” diz: “A guerra se baseia no engano”. Isso tem duplo significado: que a raiz do conflito é a confusão de entendimento ou que a guerra opera enganando o oponente. Mas veja bem, se não há engano de entendimento inicial, não há necessidade de guerrear! Então, seja claro e específico, peça sempre um feed back do tipo “você me entendeu?” ou “isso está claro?”. Neste momento, cuidado: não use palavras ásperas ou muito emotivas. Procure se expressar com equilíbrio.

Chega então a hora de estabelecer um consenso final. Se 90% dos conflitos ocorrem baseados no engano, quase 100% deles se resolvem quando a estratégia do caminho do meio é aplicada. Muitas vezes o meio termo atende ambas as partes. Se esse for o caso, não se acanhe em propô-lo. Antecipe-se, porque muitas vezes é só por “não dar o braço a torcer” que muitos conflitos não se resolvem. Ou seja, por puro orgulho. Seja flexível, mas não perca suas raízes, não venda sua alma ao diabo. Isso significa manter-se fiel à sua ética pessoal, pois se ela não é respeitada então a negociação é uma mentira consentida. Vise ao bem comum, ou seja, a negociação deve atender positivamente a todos os envolvidos, mas saiba que haverá sempre um ou outro ponto que não poderá ser do jeito que você gostaria. Isso se chama flexibilidade em ceder. Lembre-se do bambu que cede ao vento e dobra-se um pouco para não se quebrar.

Aceitação, clareza de expressão, ética é flexibilidade. Se você treinar e aplicar esses quatro conceitos em seus conflitos, os resultados serão cada vez mais positivos. Lembre-se: o conflito de interesses vai aparecer em algum ponto da sua vida, mas a negociação bem feita pode neutralizar uma guerra.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

A competitividade é saudável, mas…

Por Márcia Cândido

“Toda vez que tentava meditar, um monge era incomodado por uma aranha.

– Sempre que medito, aparece esta aranha e não consigo me livrar dela…”

***

Vivi uma experiência muito semelhante à representada nos quadrinhos do recente post aqui do ALD A aranha e o monge. À época da minha experiência, recebi uma lição que se encaixou, como uma luva, na minha vida profissional.

Participando de um sesshin (retiro de meditação zen budista), fui acometida por um medo, sem explicações, de um louva-a-Deus que tinha entrado, ao final da tarde, no zendô – local onde nos reuníamos para meditar.

Projetada na parede à minha frente, refletida à luz das velas, na altura dos meus olhos semicerrados, a sombra do inseto parecia fazer do bicho um animal muito maior que ele realmente era. Como o monge dos quadrinhos, também não conseguia concentrar. Tinha medo de que o louva-a-Deus, em sua rota incerta, me atingisse. Eu não relaxava.

Ao final da meditação, procurei Mokusen San e, com a voz bem baixa para não burlar a regra (tinha sido comunicado que, a partir daquele momento, vigorava o silêncio) e pedi ajuda:

– Por favor, poderia me ajudar a tirar esse louva-a-Deus daqui? Amanhã, de madrugada, quando nos reunirmos, novamente, sei que estará por aí e não vou conseguir concentrar.

Então, veio a lição:

– Porque tirá-lo? Ele tem todo o direito de estar aqui. Tanto quanto você.

Fiquei sem resposta.

E Mokusen San finalizou:

– Deixe ele aí. Talvez ele também tenha vindo buscar iluminação.

Foi uma lição e tanto. Grande sesshin! São experiências que adquirimos para a vida toda.

Foi, então, que compreendi que podemos dividir o mesmo espaço, sobretudo, no campo profissional, com todos. Afinal, todos têm o direito de buscar o sucesso, almejar a felicidade e garantir seu bem-estar. A competitividade é saudável, mas “precisamos ir além de nós mesmos”.

Eu fico por aqui. Até nosso próximo encontro.