Arquivo da categoria: Filosofia & Letras

Os limites da Filosofia

A Filosofia por si não pode melhorar o mundo.

É o mundo melhorável ? Sim, certamente o é. Podemos matar a sede de alguém, ou dar de comer a uma pessoa, ou ajudar um conhecido no momento de dor, se por melhorar o mundo entendemos tornar a existência mais equilibrada, menos sofrida. Ou ainda, caso queiramos melhorar o mundo através de coisas materiais que nos tragam conforto ou que solucionem nossos problemas, podemos produzir bens materiais e tecnologias capazes de nos ajudar a solucionar estes problemas. Mas isso não se faz só com Filosofia. Tudo isso é realizado através de ações, através da intervenção direta no mundo onde ocorrem os fatos, e não apenas na esfera do pensamento − aquela instância onde representamos os fatos. O mundo não pode ser melhorado apenas em pensamento, mas sim através de ações que alterem os fatos.ff

A Filosofia deve estar limpa de promessas que não pode cumprir; por isso, deve ser uma atividade através da qual a representação do pensamento torna-se mais clara, mais consciente. A questão é que uma vez reconhecida esta diferença − a diferença entre um fato e sua representação na mente − podemos sanear nossas representações mentais e devolver a Filosofia ao seu lugar apropriado, o de uma atividade de correção do pensamento. Assim, essa pretensão confusa e ingênua de mudar o mundo (através do filosofar) não será em vão alimentada. Provável pode ser que aquele que tenha seu pensamento esclarecido pela atividade filosófica possa, assim, agir de forma mais acertada no mundo; mas não confundamos os meios com as finalidades alcançadas. Se isso acontecer, benefícios serão produzidos por aquele que conseguir transformar um pensamento clarificado em ação correta no mundo, e dele serão os méritos por ter transformado o mundo através do agir.

Assim é o mundo – resolve-se em fatos, que são precedidos por ações coordenadas por pensamentos esclarecidos.

Gustavo Mokusen

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Além do bem e do mal

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“… Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma coisa
que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a verdade do
erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o ato
desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio da
cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso parece
próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem ter outra
origem que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe esse
mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta emaranhada
cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do ser, no qual
não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si” é onde
deve se abrigar seu princípio, ali e em nenhuma outra parte.

Este é o preconceito característico dos metafísicos de todos os
tempos, este gênero de apreciação se encontra na base de todos
seus procedimentos lógicos. A partir desta “crença” esforçam-se
em alcançar um “saber”, criam a coisa que, afinal, será
pomposamente batizada com o nome de “verdade”. A crença
medular dos metafísicos é a crença na antinomia dos valores.
Nem aos mais avisados dentre eles ocorreram dúvidas desde o
início, quando teria sido mais necessário. Entretanto, deve-se
duvidar, imediatamente, da existência de antinomias; depois
dever-se-ia perguntar se as valorações e as oposições de valores
usuais às quais os metafísicos apuseram seu sinete, não são
apenas valorações superficiais, perspectivas momentâneas,
tomadas a partir de um ângulo determinado, perspectivas de
peixe, no faizão dos pintores. Qualquer que seja o valor que
concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao desinteresse,
poderia acontecer que nos víssemos obrigados a atribuir à
aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à cobiça, um valor
superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar a supor
inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma insidiosa
em que estão emaranhadas e talvez até cheguem a ser idênticas
em essência às coisas más que parecem suas contrárias.”

Frederich Nietzsche em “Além do bem e do mal”.

Novo agora

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RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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