Arquivo da categoria: Finanças & Bem Estar

Você sabe quanto custa?

Por Allyson Bastos

@allbastos

Há uma grande tendência de acharmos que as coisas custam muito menos que o preço estampado na embalagem. Se o preço de um chocolate é 10 reais, logo imaginamos que seu custo de produção muito provavelmente não ultrapassa os 5 reais. Ledo engano.

No caso do exemplo do chocolate, o custo diretamente suportado pelo produtor pode, de fato, ser somente os 5 reais. Todavia, o processo produtivo, principalmente aquele que alimenta o consumo em massa, engendra custos elevados, a maior parte dos quais transferidos para a sociedade de maneira geral, tornando-se ocultos aos olhos do consumidor desatento.

Pesquisas indicam, por exemplo, que para cada dólar gasto  por produtores rurais com pesticidas e agrotóxicos, a sociedade despende 80 centavos para neutralizar seus efeitos nocivos.

Essa informação é suficiente para demonstrar o porquê de produtos ecologicamente corretos, como vegetais orgânicos, normalmente terem seus preços mais elevados. Isso ocorre porque nesses casos, a produção fundamenta-se em práticas que minimizam os riscos à saúde dos consumidores e os impactos ambientais decorrentes da atividade, implicando custos diretos de produção mais elevados.

O economista inglês Raj Patel, em seu livro “O valor de nada”, refere-se, também, à transferência de custos trabalhistas e sociais das corporações para o Estado. A guerra pela conquista de mercado pressiona as empresas a reduzirem seus custos de produção para, com isso, oferecerem bens e serviços mais baratos aos consumidores. Decorrência lógica desse processo é que os salários da grande maioria dos trabalhadores são comprimidos para um valor inferior ao mínimo necessário para a manutenção da própria subsistência.

Podemos nos lembrar das lições aprendidas nas aulas de história, na época do colégio, que o capitalismo, em seu período embrionário, pressupunha o pagamento de salários de valor estritamente necessário para a manutenção do trabalhador em sua condição de submissão ao modo de produção.

Hoje, nem esse mínimo é garantido. Com isso, massas de assalariados são empurradas para baixo das asas do Estado, que se torna responsável pela complementação de sua renda e pelo custeio expressivo de outros serviços necessários à sua sobrevivência, como educação e saúde. Ou seja, para conseguir reduzir seus custos diretos e oferecer produtos a preços ilusoriamente baixos, sem prejudicar a lucratividade do negócio, os produtores deslocam os custos de produção para a sociedade em geral.

Raj Patel apresenta em seu livro um contundente estudo realizado pelo Centro de Ciência e Meio Ambiente da Índia. Segundo tal estudo, o custo total estimado para a produção de um hambúrguer fabricado com carne de rebanho criado em áreas desmatadas (como é comum no Brasil), considerados além dos custos ambientais, os custos sociais da produção em massa típica das grandes redes de fast-food (baixos salários que sobrecarregam a máquina assistencialista estatal), seria de 200 dólares, dos quais apenas cerca de 4 dólares suportados diretamente pelo produtor!

No campo das ciências econômicas convencionou-se chamar de “externalidades” tais efeitos que transcendem as relações de produção e consumo, e que impactam os demais agentes do ambiente.

Dados chocantes como esses demonstram com clareza a importância de buscarmos adotar padrões de consumo sustentáveis, que prestigiem produtores que se empenhem em reduzir as externalidades negativas de suas atividades, ainda que para tanto tenham que arcar com custos diretos mais elevados que acabam por elevar os preços aos consumidores.

A busca pelo bem-estar deve estar alinhada com a diretriz macro da sustentabilidade. É no mínimo paradoxal que na tentativa de alcançarmos uma melhor qualidade de vida venhamos a reduzir nossos custos imediatos, fechando os olhos para os imensos prejuízos decorrentes de nossa adesão a um tipo de relação produção-consumo “desonesta”, que com uma mão nos oferece seus produtos a preços artificialmente baixos e com a outra nos entrega silenciosamente a fatura dos elevadíssimos custos reais da satisfação de nossas demandas.

O caminho da prosperidade não deve ser percorrido sozinho. Prosperidade de verdade não combina com egoísmo. O comprometimento com o bem-estar coletivo também nos leva para mais perto do nosso ideal de qualidade de vida. Nesse contexto, então, é essencial que as estratégias voltadas para o alcance da independência financeira não se concentrem simplesmente em gastar menos, mas também em gastar melhor.

Mais importante que saber o preço do produto, portanto, é saber o verdadeiro custo das nossas decisões de consumo.

Até breve!

Ideias simples, grandes resultados

Por Allyson Bastos

@allbastos

Gostaria de compartilhar com todos os que acompanham o “A Luz do Dia” um interessante esquema de autoria de Trent Hamm, autor do excelente blog de finanças pessoais The Simple Dollar (www.thesimpledollar.com).

O título do esquema já diz tudo: Everything you ever really needed to know about personal finance on just one page (Tudo o que você precisava saber sobre finanças pessoais em uma única página).

Toda a teoria da educação financeira está condensada neste esquema: manter as despesas menores que as receitas, viver de maneira frugal, ganhar mais, administrar o dinheiro e ser responsável pelo próprio destino, seguindo os sonhos e paixões, fazendo o que nos torna mais felizes, sem arrependimentos ou preocupações em demasia.

O recado mais relevante deixado por Trent, no entanto, e, na minha opinião, o que deve nortear toda e qualquer estratégia financeira é que prosperidade não tem nada a ver com ser rico, mas tudo a ver com ser livre!

Vale a pena conferir o blog de Trent, há muita informação valiosa e gratuita por lá. Agora, se seu inglês não anda lá “grandes coisas”, é uma ótima oportunidade para desenvolver duas habilidades ao mesmo tempo. Então, dicionário a postos e mãos à obra!

Armadilhas do relativismo

Por Allyson Bastos

@allbastos

Estudos demonstram que grande parte das decisões fudamenta-se não na razão, mas na emoção.

Muitas vezes nossas decisões são tomadas por fatores emocionais para os quais, posteriormente, construímos justificativas pseudo-racionais. Esse tipo de conduta é recorrente em consumidores compulsivos. Para tais pessoas, a decisão de comprar algo de que não precisam geralmente decorre de fatores emocionais, como o desejo se sentirem integradas a um grupo, o desejo de se parecerem com alguém, ou mesmo a vontade de exprimirem o sucesso por meio de símbolos materiais.

Após o ato do consumo surgem as justificativas que chamo de “pesudo-racionais”: “comprei porque merecia me presentear”, “comprei porque estava em promoção”, “se não comprasse agora, correria o risco de não conseguir comprar isso nunca mais!”.

Geralmente, decisões emocionais decorrem de uma visão relativista do valor. O relativismo é natural e inevitável, estando presente em vários aspectos da vida. A própria formação de um juízo de valor depende essencialmente da comparação. O que é bom só pode assim ser considerado a partir do momento em que há a percepção do que é ruim. E mesmo o que é ruim pode ser considerado bom, quando posto ao lado daquilo que é ainda pior.

O relativismo sobre o qual estamos acostumados a nos apoiar para subsidiar nossas decisões, entretanto, pode nos preparar algumas armadilhas.

Isso é muito comum especialmente em situações de promoção em lojas ou em sites de compras coletivas.

O que atrai o consumidor não é simplesmente o valor do bem ou serviço oferecido, mas sim o percentual de desconto divulgado (e que muitas das vezes não corresponde à realidade).

Assim, se alguém se depara com a oportunidade de adquirir, por R$50,00, um produto do qual não precisa, mas cujo preço original divulgado era R$100,00, é mais provável que o apelo do desconto de 50% fale mais alto que o fato de se tratar de um gasto de R$50,00 por algo desnecessário. Note que, neste exemplo, apesar do desconto de 50%, o consumidor nada economizou. Houve sim um gasto desnecessário de R$50,00.

Dia desses recebi um telefonema de um vendedor de revistas. Segundo ele, eu havia sido agraciado com um grande e exclusivo desconto para a realização da assinatura do periódico, em razão de minha participação, há alguns meses, em um evento sobre finanças. Após ser informado sobre os valores e condições especiais para a realização da assinatura, confesso que achei a proposta bem interessante. Resolvi, entretanto, verificar no site da revista as condições oferecidas ao públicoem geral. E, para o meu espanto, as condições e os valores eram exatamente iguais! A proposta que, até então, eu considerava uma boa oportunidade, passou a não ter qualquer atratividade para mim. Veja bem, o valor da assinatura da revista continuou o mesmo. O que mudou foi o meu ponto de vista. Aquilo que relativamente seria um grande negócio (pois haveria um desconto em relação aos preços normalmente praticados) passou a ser uma compra como outra qualquer, sem diferenciais que pudessem me impulsionar ao consumo.

O relativismo, portanto, ainda que não possa ser abandonado, deve ser, na medida do possível, substituído por um juízo de utilidade no momento de tomada de decisões. Devemos ter bem claros, em tais momentos, os porquês de se adotar esta e não aquela opção.

Do mesmo modo que quase fui induzido a adquirir a assinatura da revista devido não à sua utilidade intrínseca, mas sim à aparente vantagem comparativa das condições propostas, muitas pessoas são induzidas a sentirem insatisfação com seu padrão de vida, devido ao relativismo exacerbado que aponta sua visão para as pessoas que estão no degrau de cima.

Foi disso que o empresário do ramo de internet James Hong pretendeu fugir ao trocar seu caríssimo Porsche Boxster por um modesto Toyota. Ao explicar o motivo da decisão, disse Hong ao The New York Times: “Não quero viver a vida de Porsche Boxster, pois quando a gente tem um Boxster passa a querer um Porsche 911, e sabe o que os donos de 911 queriam ter? Uma Ferrari”.

De fato, o relativismo costuma apontar nossa visão para cima. Raramente para baixo. Se existe um celular melhor que o meu, eu quero, ainda que não vá utilizar nem 10% de suas funcionalidades. Se for lançado um automóvel modelo “ano que vem”, eu quero, ainda que o meu atual esteja em ótimas condições.

Recordo-me de um caso raro em que a visão relativista foi utilizada para propiciar maior satisfação. Um próspero comerciante que iniciou seus negócios em uma favela do Rio de Janeiro e nela permaneceu mesmo após o sucesso financeiro foi questionado quanto ao motivo de não ter se mudado para um bairro nobre, agora que tinha dinheiro suficiente. E ele respondeu: “em um bairro nobre eu seria classe média, mas na favela sou rico!”.

Creio que os exemplos acima demonstram claramente as armadilhas que podem distorcer nossas decisões financeiras e nossa percepção de bem-estar, seja por nos seduzir com ilusórias vantagens comparativas, seja por nos forçar a buscar um padrão de vida mais elevado, mesmo que à custa de endividamento.

Como afirma o economista e psicólogo Dan Ariely, autor do livro Previsivelmente irracional, “quanto mais temos, mais queremos. A única cura é rompermos o ciclo da relatividade”.

Até a próxima!