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O Caminho e a mente macaco

A grande questão da meditação zen é manter o foco mental e a atenção no momento presente, sem divagar ou fugir da realidade que se apresenta no agora. Em outras palavras, fazer o que se está fazendo com inteireza e completude de corpo e mente.

O conceito de “Tao”, do “Caminho”, está sempre presente na filosofia oriental. O Caminho é aquilo que está bem à sua frente, neste momento. É o propósito da sua vida. São as inúmeras circunstâncias que emergem em sua realidade e que, somadas e interligadas, perfazem sua matriz existencial. Por exemplo, há o caminho da espada para o samurai, o caminho zen para o monge, o caminho dos arranjos florais para o jardineiro, o caminho dos negócios para o comerciante. Em outras palavras, o Caminho é aquilo que aponta o sentido e a direção da sua realização nessa vida.

Particularmente, acredito que esse seja um conceito que não se aplica somente ao caminho zen. Creio que a “mente macaco” seja um problema que muitas pessoas enfrentam. A mente macaco é aquela que fica pulando prá lá e prá cá enquanto você está tentando se concentrar. É aquele tipo de comportamento mental que nunca deixa você comer ou dormir em paz, e por isso você quase sempre se sente com fome ou cansado. Sempre falta alguma coisa em sua vida, em seu caminho, por mais e mais que você possa ter na sua frente.

Mas, na verdade, essa é uma ilusão que a mente macaco produz. O conceito de Caminho é, por natureza, completo, assim mesmo como ele é. Ele não exclui e nem tenta introduzir nada que já não seja a própria realidade. A realidade é, então, perfeita e completa por natureza, no sentido de que nada lhe sobra ou falta. Você poderia dizer: “eu estou com fome e falta comida, então a realidade não é perfeita assim ou assado”. Mas essa ainda é uma visão fragmentada: a fome que ocorre é conseqüência justamente da falta de comida, então tudo está como deve ser e a realidade é completa em sua causa e efeito, sem mais nem menos, o problema seria não sentir fome quando não se tem comida. Mas o excesso de movimento intelectual não permite que você veja a realidade à sua frente com a máxima resolução da sua tela mental. Você, no estado da mente macaco, perde definição de foco e, com isso, perde tudo o que poderia ser experimentado neste momento. Você chupa uma mexerica preocupado com o problema de ontem ou de amanhã, e assim não há paz ou satisfação, você simplesmente perde o sabor de cada gomo e nem consegue resolver os problemas, desperdiçando os gomos um a um com sua mente desfocalizada.

É necessário focalização para realizar qualquer Caminho que seja. A chamada mente comum no quadrinho é justamente essa mente que se apóia naquilo que ocorre neste momento, na sua frente, ao contrário daquela que fica pulando sem parar. O “comum” é, ironicamente, seu Caminho mais essencial que se apresenta no agora, simplesmente porque é o único disponível para você. O comum, o ordinário é, ao mesmo tempo, extraordinário. Não duvide dele; faça as pazes com ele. Cada gomo de mexerica é único, quando bem degustado.

Durma quando sentir sono. Coma quando sentir fome. Esse é o seu Caminho, é a extraordinária mente comum. O que passa disso é pura macaquice da mente.

Gustavo Mokusen.

A flor amarela do ipê

A velha questão entre “ser” e “ter” ganhou uma coloração diferente depois que encontrei uma carta que escrevi no ano de 2001, explicando a um amigo uma descoberta que tinha feito àquela época.

Nesse relato, e isso só percebi quando reli a carta hoje, o aspecto do “ter” diz respeito a uma característica muito sutil que eu chamaria de “sensação de posse primordial do ser humano“: os pensamentos que julgamos sermos donos. Antes mesmo de qualquer posse material, nosso processo de identificação e apego começa muito mais cedo em nossa própria mente. Já o aspecto do “ser” aparece na carta descrito como a nossa experiência direta no aqui e agora.

E para você, o que é mais importante: os pensamentos que você “tem” ou as experiências que os originam?

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Carta ao amigo Frederich L.

“… Houve um tempo em que eu acreditava firmemente naquilo que se chama de atividade mental como a base para toda a experiência no mundo.

A espécie humana está destinada a pensar, e o pensamento opera em cada um a partir de causas diferentes, de condições particulares. A atividade mental é comum ao se humano. Entretanto, a despeito da nossa capacidade de pensamento, muitas vezes surge confusão, conflito e  dificuldade de compreensão entre as pessoas. O motivo disso é que estamos num mesmo mundo em comum, dividindo juntos o mesmo tempo e espaço, mas cada um de nós crê firmemente em sua própria base operacional do pensamento a partir da qual o mundo é representado e descrito. Assim, o conflito de ideias e pontos de vista é uma consequência natural dessa atividade mental. A partir dessa constatação, decidi investigar mais profundamente o fenômeno do pensamento.

Além disso, a pergunta – ‘o que é o pensamento?’ – começa a tomar uma forma séria e mostrar que a direção de uma resposta madura e convincente deve passar por uma experiência plena e não somente por uma teoria dos sentidos.

O pensamento, aquela instância onde acontece a figuração da realidade, passou a ser por mim considerado como um processo que merece um acompanhamento minucioso da minha própria atenção, no sentido de ser mantido sob rigorosa e imparcial observação. Mostrou-se necessário, nessa espécie de pesquisa, não cair na armadilha  do  julgamento que causa discriminação e, assim, manter a imparcialidade para investigar o processo do pensamento, e ainda equilibrar e neutralizar o movimento do devaneio mental, que nos faz perder o foco mental do objeto de estudo. Tudo isso deu a essa tarefa um caráter de difícil execução.

Mas agora quero relatar o que ocorreu.

No início, confundi observação com controle. Ainda não era nítida para mim a diferença entre acompanhar e conduzir. O método que passei a usar era o de tentar controlar mentalmente as próprias funções da mente. Reprimir o que considerava nocivo; cercear o que julgava perigoso; reforçar o que fosse por mim tomado como benéfico. Estava, por assim, dizer, usando fogo contra fogo, mas o resultado disso foi que um incêndio se propagou através da inflamação do julgamento moral, o que só reforçou mais ainda a discriminação dualista entre bem e mal, entre certo e errado e todos os demais critérios que transformam o real em figuração abstrata. Claro que a partir dessa falta de habilidade nasceram situações de desconforto e de intensa contradição, mas isto foi essencial para dar mais um passo na investigação a que me propunha.

Foi quando, durante um retiro intensivo de meditação, desisti de controlar o pensamento (pelo cansaço e não por perspicácia) e, assim, algo aconteceu.

Simplesmente comecei a olhar mais para as árvores, em especial para os ipês.

O que me admirava neles era o fato esmagador de que, quando os contemplava, não podia pensar em outra coisa. Nem sei se era devido à cor amarela viva, ou por causa do formato disforme da árvore. Mas assim que meus olhos pousavam nos cachos amarelos, nenhum pensamento interferia naquele instante.

Não quero insinuar que não havia pensamentos ocorrendo em mim naquele instante. O fluxo mental estava lá, mas era como se houvesse me descolado deles. Pela primeira vez eu ocupava um espaço sutil não identificado com minha própria figuração mental.

Quando olhava os ipês, simplesmente os olhava.

Era um momento de descanso em minha mente.

Era um sentimento de alivio da complexidade mental a que havia submetido a mim mesmo.

Era como se estivesse lendo um livro sem palavras.

A partir desta época, o que aconteceu em mim foi irreversível e absolutamente consciente. Passei a ocupar esse espaço mais e mais vezes. Desde então tenho visto que as coisas que se manifestam, tudo aquilo que existe ao meu redor é anterior ao pensamento. Vi que a existência não precisa de nenhuma justificativa e é anterior à razão; a flor do ipê se abre, ela emerge diretamente da ação pura. O pensamento só ocorre dentro de nós, humanos.

Existimos não porque pensamos nisto ou porque assim o desejamos, mas porque algo que antecede o pensamento ou o desejo está presente.

A existência é anterior ao pensamento. Algo está presente antes, algo que sustenta o conhecedor e o objeto do conhecimento, algo que permite a experiência direta com as coisas, algo que abraça as coisas mesmas e a própria experiência das coisas.”