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A tal da liberdade

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Não é que sua liberdade seja ameaçada de vez em quando pelo sofrimento, mas, antes, que o sofrimento cria a necessidade de se agarrar na ideia de uma liberdade. Isso pode soar estranho, pois é completamente contrário ao que nos foi ensinado e aprendido, mas temos que nos dar conta também que aquilo que ensinamos e aprendemos muitas vezes são apenas conceitos e ideias. A liberdade, palavra que usamos muito gratuita e genericamente, é na maior parte do tempo uma abstração. É uma abstração criada pela necessidade de atenuarmos psicologicamente o sofrimento.

Não conheço nada neste mundo causal que seja absolutamente livre, independente. Tudo o que existe depende de causas e condições, e essa dependência direta já seria suficiente para demonstrar de que tudo o que existe não pode existir independentemente no universo. Você pode dizer: “sou livre para ir aonde quiser”. Mas você não é tão livre assim. No plano prático você tem que se deslocar, pegar um ônibus, um avião, colocar gasolina no seu carro, e para fazer tudo isso você depende de outras pessoas. Isso sem falar da permissão de cruzar fronteiras entre países diferentes. Até mesmo na sua cidade você não é tão livre assim para frequentar certas regiões, como aquelas dominadas pelo tráfico de drogas.

“Sou livre para fazer o que quiser”. Será mesmo? O problema é que o querer nunca é livre, independente, mas sempre associado ao desejo, que por sua vez é também fruto e consequência direta das impressões e experiências que recebemos a todo o momento do mundo que nos cerca. O querer, o desejo depende de muitos fatores, como a cultura local, por exemplo. Um mulçumano não vai querer seguir o protocolo do casamento cristão, e por aí vai. Além disso, mesmo que você pudesse querer tudo, uma hipótese na qual tudo seria possivelmente “desejável” e “querível”, você ainda não poderia realizar tudo, fazer tudo de forma independente. Seu desejo depende também do outro para se realizar.

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Não vejo tal liberdade absoluta que de nada possa depender. Vejo, ao contrário, uma profunda interdependência entre tudo o que existe. Assim, como falar dessa liberdade a não ser como uma ideia, um conceito, uma abstração do pensamento? Eu acho muito engraçado que o ideário da revolução francesa tenha sido “liberdade, igualdade, fraternidade”, pois não se poderia nunca ser ao mesmo tempo livre e necessariamente igual; se você é livre, você poderia ser tudo, inclusive diferente. Ou isso foi uma piada ou uma jogada muito bem feita.

A liberdade, o livre arbítrio, a independência são todas formas diferentes da mesma ideia, da mesma vontade, do mesmo desejo de não sofrer mais. Seria muito mais benéfico para nós, seres que vivemos em sociedade num Universo interligado, entendermos que esse conceito de liberdade é apenas uma abstração, mas que na prática dependemos uns dos outros. Poderia haver menos crimes, menos abusos, menos exploração, menos sofrimento se aceitássemos certa liberdade relativa, restrita, limitada, no lugar do ideal da independência total do ego. Mas se a liberdade é restrita, então deveríamos não usar nem o termo liberdade…

É como uma língua, em que existem formas textuais, onde existem frases, que são formadas por palavras e sinais gráficos, que possuem letras. Está tudo interligado para dar sentido à existência daquele texto, daquela língua. Mude-se as condições, os sinais, as palavras de lugar e tudo muda. Não existe independência. Existe interdependência. Como poderia acreditar que uma letra do alfabeto pudesse ser livre, absolutamente livre em um texto como esse?

O ermitão não é livre, o rei não é livre, o rico não é livre, o pobre não o é tampouco, o liberto não está livre e nem o preso é livre em uma cela. Isso equivale a afirmar também que o oposto da liberdade é igualmente abstrato, o conceito de falta de liberdade. O ermitão, o rei, o rico, o pobre, o liberto e o preso tampouco estão presos. O que ocorre é que todos estamos sob a ação da interdependência e da originação dependente. Mas não é necessário chamar isso nem de liberdade e nem de prisão, e os elfos e duendes não poderiam jamais encantar alguém que estivesse além das palavras e conceitos.

Gustavo Mokusen.

O elefante, a argola e você mesmo

Era uma vez um bebê elefante que fora capturado e enviado para um circo. Lá chegando, colocaram uma argola de ferro em uma das pastas do pequeno elefante e o acorrentaram junto a uma estaca. O bebê não tinha forças suficientes para romper a argola e assim ficou preso, se movimento dentro de uma pequena área delimitada pelo tamanho da corrente. Ali se alimentava e dormia todos os dias.

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Vinte anos se passaram. O elefante agora não era mais um bebê, era enorme, e forte, e vigoroso. Mas, curiosamente, continuava preso pela mesma corrente atrelada à sua pata. Embora tivesse forças de sobra para romper a amarra, ele não o fazia e continuava ali, vivendo na mesma área limitada há vinte anos.

Esse é um caso real. Os adestradores do circo sabem que se o elefante bebê aprender que ele não pode romper a corrente, então ele se lembrará disso para sempre e, mesmo grande e forte, não saberá que cresceu e agora possui forças suficientes para se libertar. Ele ficará preso em algo que aprendeu quando era muito pequeno, vivendo numa espécie de ilusão em sua mente. Ele não conhece sua própria força.

Infelizmente, esse caso não se aplica somente aos elefantes de circo. Os elefantes e outros animais não chegam nem perto da capacidade do ser humano de aprender coisas. Aprendemos muito, essa é a marca da nossa espécie. Assim, é muito provável que a maioria de nós tenha aprendido e assimilado coisas em idades tenras, e carregado isso vida afora.

É muito provável que tenhamos correntes em nossos pés, dos mais variados tipos.

Todo tipo de autoridade se baseia nesse princípio. Autoridade aqui significa controle e manipulação. Significa submeter o outro a minha vontade, ou ainda usar de meios ardilosos para controlar pessoas e situações. Temos vários tipos de autoridade, religiosa, familiar, social, consumista e, na era da informação, a autoridade da mídia, por exemplo.

Mas as crianças recebem suas primeiras impressões da família e, logo depois, da escola. Assim, é na família e na escola que nossos principais limites e experiências repressoras são vivenciados e apreendidos. É claro que em um seio familiar equilibrado e em uma boa escola também recebemos amor, carinho, compreensão, etc., mas infelizmente isso não ocorre o tempo todo. Em algum instante vamos receber uma pressão externa que tende a deixar marcas limitadoras em nós. Em algum momento seremos certamente acorrentados com alguma crença ou suposição limitante.

Por exemplo, na escola. Eu me lembro bem, nos anos 80 a sala de aula era bem diferente do que é hoje. Quem não viveu isso e não se lembra dos mecanismos de controle e de autoridade que eram difundidos naquela época? Havia recompensas e punições. Havia os carimbos que a “tia” dava no caderno da gente, quando o para-casa era bem feito recebíamos um coração, uma estrelinha, um comentário qualquer. Mas também havia os bilhetes que nossos pais deveriam assinar, quase sempre de conteúdo delator das coisas que fazíamos, ou que não fazíamos. “Tia, posso ir ao banheiro?”, e a resposta da professora dependia muito de quem pedia. Se fosse um da turma de trás… Isso já chegou ao absurdo de ver um colega fazer na calça.  Havia medidas drásticas de exclusão como a “suspensão”. Terror dos que falavam o que pensavam! E ainda, de quebra, era carimbado na caderneta! Ah, a caderneta, quem não se lembra dela?

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O problema disso tudo é que pode marcar para o resto da vida. Assim como o elefante. Por exemplo, eu mesmo nunca fui de receber muitas estrelinhas no caderno. Nunca fui o preferido da tia, assim como não era o mais brilhante da turma. Eu via aquelas meninas de trança bem feita no cabelo recebendo elogios no para-casa, aqueles meninos de uniforme impecável e que eram o exemplo da turma e eu não era assim, como eles. Eu não parecia nada com isso, eu sentia. E todos aqueles métodos de recompensas e punições serviam, no fundo, para discriminar e controlar os alunos. Ou você era dos bons, ou era da turma da suspensão, ou não era nada. O rótulo era automático.

A consequência é que passei muitos anos sendo nada. Ou seja, apenas sendo eu mesmo, kkkkk. Não era dos bons, não tinha estrelinha no caderno. Mas também não era dos maus, da turma da pesada, afinal meu pai era muito bravo para isso. A consequência é que aprendia com lentidão e dificuldade, simplesmente porque estava à parte de tudo isso. Isso me custou várias recuperações ao longo dos anos e uma dolorosa reprovação na sétima série.

Levei muitos anos para quebrar essa corrente do pé e descobrir que eu gostava de estudar – e que podia ser agradável. Só que ninguém tinha me estimulado para isso em meus primeiros anos na escola, apenas estrelinhas ou suspensões.

Eu sei que hoje em dia muita coisa mudou nas escolas. Melhoramos muito, em vários aspectos pedagógicos. Mas o que quero chamar a atenção aqui é: pequenas experiências na infância podem geram enormes consequências na vida adulta. Assim como o elefante acorrentado.

Duas conclusões: primeiro, se você tem filhos ou trabalha com crianças, esteja muito atento com suas ações, falas e sentimentos. Elas aprendem com as experiências que recebem, e direcionar isso da melhor forma possível se chama “educar”, e não controlar.

A outra é que vivemos no presente, e não no passado. Assim, caso você sinta alguma argola apertando em seu pé e limitando sua vida, investigue a questão a fundo. Procure entender o tamanho da corrente e, principalmente, saber o tamanho da sua força. Você cresceu e, possivelmente, possui uma energia enorme que pode estar adormecida dentro de você. Às vezes, basta um gesto para romper a amarra. Às vezes, o sofrimento é opcional.

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Gustavo Mokusen.

Receita inversa

Normalmente, entre o impulso de criticar e a ação de ajudar, nossa tendência humana se inclina mais facilmente para a crítica.

Entre o impulso do apego e o exercício do desapego, nossa tendência é de se apegar.

A reatividade, muitas vezes agressiva, é por vezes mais presente em nosso comportamento do que uma atitude pacífica.

Entre a acumulação e a doação, geralmente optamos pela primeira.

Ataque, contração, apego, retenção; uma investigação profunda e honesta em nossos instintos básicos revela que a herança do homem primitivo ainda se encontra presente em nosso ser. Em algumas pessoas isso é mais evidente, em outras menos, mas ainda podemos testemunhar essa herança milenar das cavernas emergindo pelo menos de vez em quando.

Tudo isso revela que, desde tempos remotos, algumas emoções e impulsos se instalaram na estrutura psicológica do ser humano. Digamos que eles sejam como uma programação que herdamos de nossos ancestrais, assim como herdamos características físicas e genéticas, e desta forma esse padrão mental se perpetuou em nossa raça através dos tempos. Digamos assim, é nossa tendência primitiva, são impulsos que desenvolvemos na infância da humanidade.

 Mas essa programação psicológica que se instalou e se perpetuou na psique humana surgiu a partir de uma emoção negativa chave: o medo. Podemos dizer que o medo ancestral do homem está por trás de todas as demais emoções negativas que ele experimenta. É por medo que atacamos, que o apego surge, que o músculo se contrai e que buscamos acumular – pois tememos a perda. Esses eram os métodos que nossos ancestrais utilizavam na tentativa de evitar as dores e o desprazer do mundo desconhecido que se apresentava.

 Desta forma, podemos assim dizer que o medo está intimamente conectado – consciente e inconscientemente – ao sofrimento. Se “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”, o medo pode ser então entendido como o elemento que sustenta o desejo de não sentir dor. Ou seja, o medo e a dor estão em relação direta um com o outro.

É aí que entra a receita inversa.

Todas as vezes que estivermos lidando com a raiva, a agressão, o apego e demais emoções negativas, em nós mesmos ou nos outros, podemos realizar uma manobra importantíssima para neutralizar esses impulsos primitivos. Ao invés de focar no próprio sentimento de raiva, ou no próprio ato de apego, ou ainda na crítica que recebemos ou que estamos prestes a disparar a alguém, podemos realizar a manobra de procurar pela base que sustenta esses sentimentos e atitudes, ou seja, o medo que está por trás deles. No lugar de reagir agressivamente numa situação raivosa, pergunte-se com lucidez mental: toda essa agressividade está a serviço de qual medo? Esse ataque é consequência impulsiva de qual medo? Podemos fazer o mesmo em outras situações. Quando estiver apegado a um ponto de vista numa discussão calorosa, ou momento em que reagir a uma crítica frontal, pergunte-se: minhas atitudes estão sendo regidas pelo medo de quê? O que temo perder? O que temo sofrer? Que tipo de dor ou sofrimento estou tentando evitar?

Apenas ver e reconhecer esse medo operando dentro de nós já é retirar dele mais da metade de sua influência. É como lançar luz num quarto escuro: se você vê o que tem lá dentro, então não há mais lugar para sentir medo. A luz entra e o medo sai.

A luz que precisamos lançar sobre nossos medos é a luz do entendimento, do olhar que testemunha as coisas como elas são, da compreensão de como atuamos no mundo. É como pegar toda a atenção que temos disponível e focalizá-la em determinada ocorrência. Ao fazer isso, o temor diminui e a liberdade da existência pode ser experimentada, assim como desfrutamos do sabor de morangos silvestres encontrados numa caminhada despreocupada por uma trilha na floresta.

Gustavo Mokusen.