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O vazio do Zen

O que significa mente vazia?

Quando você está com muita sede e bebe um copo d’água, neste exato momento sua mente vagueia para além desta experiência? O que é mais importante neste momento, você mesmo ou a água?

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 Neste momento você, de certa forma, se funde com a água. Se estiver observando tudo com clareza verá que não há a menor diferença entre você e a experiência que vive. Sua mente está vazia, virgem, sem nenhum preconceito ou idéia preconcebida; ela se entrega ao universo completamente naquele momento, tal como ele é.

Mas no momento em que você começa a se identificar com um pensamento que surge, “que água boa!” ou “ela podia estar mais gelada”, neste exato momento sua mente não é mais vazia. Ela está contaminada com a discriminação e, por isso, contamina a experiência.

 O pensamento vai surgir, sempre. Mas você não precisa se apegar, se identificar com ele e perder sua mente vazia, perder a experiência completa. Você pode treinar sua mente para ser como a mente de um principiante, aberta a experiência e sempre alerta, sem nenhum preconceito. Este mente de principiante é a chave do Zen.

Nossa mente, na maior parte do tempo, não está vazia. Está ativa, racionalizando a experiência, bifurcando a realidade em certo e errado, bom e mal. E por isso sofremos. É a única razão do sofrimento. Sofrer é, em última análise, tão vazio quanto beber água.

Hoje de manhã, enquanto meditava, a luz da vela produzia sombras trêmulas na parede. A sombra é vazia em existência, é dependente do objeto e da luz para existir, não possui uma existência própria. Mas alguém que não conhecesse uma sombra lhe atribuiria existência. Acontece o mesmo com nossos sentimentos, pensamentos e experiências no mundo fenomenológico: eles são completamente vazios, desprovidos em Realidade Existencial. Nós lhe atribuímos as propriedades que enxergamos, uma construção que parte da nossa ignorância a seu respeito. É paradoxal, mas nós mesmos construímos nossas experiências.

 A Realidade Fundamental está além da análise. Ao mesmo tempo ela se encontra disponível na experiência pura dos fatos. Podemos conhecê-la com a mente vazia, não com a mente contaminada racional porque senão o que vemos não é mais a Realidade Fundamental, mas sim o que queremos ver.

Mas, em última análise, a mente vazia não tem significado intelectual; ela é uma experiência.

Desta experiência direta dos fatos se ocupa o Zen, penetrando em cheio o Vazio pleno da realidade.

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Gustavo Mokusen.

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Meditação e mais além

Por Guilherme Diniz

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A meditação ocupa papel central dentro do Zen. Porém, ela vai além de estar sentado na posição de Lótus. Estar-em-Zen integra-nos às múltiplas facetas da realidade sentida e pensada, superando-a enquanto dualidade sujeito-objeto, conhecedor e conhecido, pensamento e pensador.

A consciência da plenitude de se fazer algo em sua inteireza é meditar, empurrando-nos cada vez mais à serenidade de compreender que o corpo que age e a mente que discrimina indicam a percepção de que estamos além do próprio corpo e da própria mente que age e descrimina.

Através do corpo somos capazes de compreender não apenas a impermanência e o processo de construção egóica do sofrimento, mas também como estamos além de ambos.

Aquele que sofre somente existe quando um Eu se identifica com a dor sentida. O Ego é o adubo para o sofrimento que se semeia sobre a terra de ignorância. Ao perceber essa engrenagem, damo-nos conta que esse Eu é uma realidade sem substância, forma ou conteúdo — não nos é nosso por não sermos nada.

Somos tudo isso e não somos absolutamente nada disso: somos « essa Natureza, perfeita e penetrante, [que] circula em todas as naturezas; uma Realidade, que tudo abrange, [que] contém em si todas as realidades » (Lankavatara Sutra).

Nossa identidade pessoal, à semelhança de uma pintura, é apenas uma paisagem cujos elementos escolhemos aleatória e discriminadamente de acordo com nossas experiências passadas. Cremos-nos senhores, mas vivemos numa liberdade que já nasce limitada por aquilo que já sentimos e pensamos. Nosso conhecimento de nós mesmos é apenas uma realidade comparada a experiências anteriores, nossas ou de outros.

E é a partir desse conhecimento artificialmente agregado que construímos nossa personalidade. Termos nascidos num dado momento do tempo medido, possuirmos nome e ostentarmos uma posição social, seguirmos uma tradição filosófica ou religião, falarmos uma língua e termos costumes, imprime à nossa existência sentido e uma suposta autossuficiência.

Mas ao mesmo tempo em que esses predicados nos situam no mundo, dele nos afasta. A nossa ignorância da unidade do Ser cristaliza um falso Eu como foco apartado e autônomo de vida e consciência.

Meditar é questionar a posição daquilo que reputamos valioso e necessário, aumentando  gradualmente a percepção de que a importância desses fatores tem apenas uma função acessória: demonstrar que não somos eles, que a beleza de tudo quanto existe prescinde deles. Meditar remove-nos o que nos afasta do mundo para que nos integremos a ele e a sua indecomponível unidade.

Existem elementos opostos na realidade, mas não há qualquer oposição entre eles. Tudo é belo, harmônico e impermanente. Somente quando superamos esses condicionamentos através da auto-observação o peso do passado desaparecerá, assim como a servidão que deles decorre. E à semelhança da folha que pende da árvore e se desgarra no outono, todos os conflitos e oposições desaparecem.

Além da consciência não há sofrimento.