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O maravilhoso estado Assim-Agora

Considere um ipê amarelo florido, um caroço no meio do abacate ou o som da chuva que penetra o ouvido – como não perceber a valiosa realidade nisso tudo, o que mais poderia ser acrescentado a este perfeito estado de coisas? Quão maravilhoso isto não é, nem um fio de cabelo a separar o completo estado Assim-Agora, tão comum e tão sagrado, indizível e, ainda assim, assim agora.

Há os que dizem que o mundo espiritual está em algum lugar puro e distante, em algum tempo secreto deslocado no futuro ou passado, mas o fato é que a imaculada flor de lótus nasce na lama, cresce através do lodaçal e emerge acima do barro, abrindo ali suas pétalas reluzentes ao sol e sustentadas por sua haste firmemente apoiada no terreno mais sujo que existe. Isto significa que não há diferença nenhuma entre pureza e sujeira, e quando se percebe o Assim-Agora, quando isso é completamente realizado através de corpo e mente, então sagrado e profano tornam-se o mesmo vazio cheio de Assim-Agora.

Assim-Agora é pronunciado tão vigorosamente pelos sons do Universo que os surdos podem escutá-lo; Assim-Agora brilha com tal radiância que até mesmo os cegos podem enxergá-lo claramente; Assim-Agora não deixa dúvidas, pois nunca houve um espelho suficientemente polido que não refletisse uma laranja podre colocada em sua frente. Por quê, então, deveríamos discriminar entre certo e errado e alimentar dúvidas em nossas mentes?

A contradição só existe quando bifurcamos a realidade, e da bifurcação nasce a insegurança, mas a dúvida se dissolve na ação que é sempre plena no Assim-Agora. O leque se move e o ar é abanado, o calor cozinha o arroz na panela e o nariz sente o perfume exalado. Os antigos mestres costumavam queimar imagens de Buda para se aquecerem no inverno, mas nenhuma harmonia era quebrada com isso, pois suas mentes estavam unificadas com o calor ou com o frio, sem oposição ou conflito, sem apego ou repulsa. É incrível, mas quando a mente torna-se o próprio Assim-Agora não há direita ou esquerda.

Não há nada de certo ou errado com essas palavras, uma vez que Assim-Agora é a criança que chora, o carro que passa, a lua que nasce ou o despertador que toca. Até mesmo não perceber o Assim-Agora é igualmente Assim-Agora. Mas aqueles que atravessam o portal sem portão podem conhecer por si mesmos a própria essência do Assim-Agora, sem, entretanto, haver nenhuma identificação como o próprio Assim-Agora.

Um elefante me disse que não há mérito algum em sentar-se imóvel de pernas cruzadas para meditar, e ele está absolutamente correto, uma vez que seus pés estão livres de qualquer amarra e sua tromba brincalhona joga água do rio em cima de si mesmo, da forma como só que conhece Assim-Agora poderia fazer.

Por isso, meu caro leitor, a única coisa que respeitosamente poderia lhe sugerir para experimentar Assim-Agora por si mesmo é que pratique o Zazen com muita atenção por 10 ou 20 anos, sem nenhuma intenção de alcançar nada, e que não pragueje muito quando um cisco cair dentro do seu olho, pois, ainda assim, é Assim-Agora.

Gustavo Mokusen.

Os limites entre os pares de opostos

Quando você pega um termômetro nas mãos, onde começa o calor e termina o frio?

Quando você apaga uma vela acesa, o que desaparece primeiro: o brilho da luz ou a sombra que ela produzia nas coisas?

É o silêncio que nos permite identificar um som que emerge ou será que são os sons que nos dão a oportunidade de experimentar o silêncio quando eles estão ausentes?

Nós tratamos a realidade a partir da lógica cartesiana do “sim” e do “não”, do certo e do errado, do preto e do branco. Dentro dessa perspectiva, as coisas parecem ter existência própria, isolada das demais. Mas, de fato, todos os dualismos ocorrem dentro de uma unidade, de forma que se investigarmos a raiz dos fenômenos vamos nos deparar sempre com a matriz existencial de tudo, que é por natureza indivisível e contínua no tempo-espaço em que vivemos.

As perguntas acima nos remetem a essa natureza intríseca das coisas. E essa natureza intríseca abraça todas as aparentes contradições, ou seja, tudo inclui. A realidade nunca é contraditória, por mais complexa e insondável que pareça. Ela nunca é contraditória por que sempre emerge da unidade fundamental que sustenta o mundo fenomenal manifesto.

A luz e sombra, o frio e o calor, o som e o silêncio são apenas pontos opostos da mesma continuidade chamada de realidade. Opostos, mas não contraditórios. Um não pode existir sem o outro, e ambos são sustentados pelo mesmo campo fenomenológico existencial.

Por isso, os limites entre os pares de opostos são puramente relativos, e nunca absolutos. Some-se a isso a fantástica atuação da lei da impermanência, que nunca cessa de transformar nosso mundo, e teremos então uma realidade absolutamente dinâmica, sempre em transformação e jamais estática.

A mudança muda o mundo. Mundança.

Porquê se apegar?

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.