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Realizando a realidade

Podemos dizer que o cerne do budismo é a realização da realidade. Tornar-se aquilo que já se é. Conhecer a verdadeira natureza… Bom, tirando o fato que essas frases de efeito são até muito legais, fica a pergunta: como realmente experimentar isso? Quando eu comecei a estudar o zen e a freqüentar sesshins, eu ouvia muitas pessoas falando disso, ver seu rosto original, o “koan Mu!”, cortar o braço fora, etc, etc. No início era até interessante. Claro, esse tipo de linguagem está presente na maioria dos livros de budismo por aí, e as pessoas lêem essas coisas e, quando se identificam com elas, passam a se apropriar e fazer uso dessa linguagem. Então eu sempre ouvia isso, alguém dizendo sobre a morte do ego, a não-dualidade, e outras coisas mais. Eu mesmo também me apropriei dessas idéias por certo tempo. Isso porque a apropriação dos conceitos e da linguagem pode provocar uma sensação de potência, a sensação da transmissão intelectual da experiência, uma falsa impressão de conhecer o real através do nível simbólico, o que é muito mais rápido e agradável do que experimentar o real através do real mesmo. Mas você não mata sua fome lendo o cardápio de um restaurante. Aqui eu gostaria de apresentar para vocês alguns pontos que considero relevantes sobre essa questão.

Sentimos prazer quando nos apropriamos intelectualmente de uma boa idéia, ou de um difícil conceito abstrato que nos diferencie dos demais. Creio que somos bem atraídos e seduzidos pelas idéias. Gostamos de reduzir a complexidade da realidade ao nosso redor a pontos de vista prontos e acabados, a generalizações simplistas do “é assim” ou do “não é assim”. Porém, esse método analítico não é suficiente para cobrir toda a realidade que se manifesta bem à nossa frente e, além disso, a partir dessa lógica pura do sim e do não nasceu um estado mental conflitante: o da contradição. Estou afirmando com isso que o que chamamos de contradição é um estado que só existe dentro de nosso sistema de linguagem simbólica, fruto de antagonismos que existem apenas em nossas cabeças. A realidade não é nem contraditória e nem não-contraditória; ela simplesmente é. Nossa linguagem, por ser limitada e incapaz de descrever completamente esta realidade (como qualquer descrição o é), criou o conceito de contradição para ser usado quando esbarramos nas quinas de sua própria estrutura.

A grande pegada do zen é ir além daquilo que se interpõe entre nosso ser e a realidade que o circunda: os pensamentos, conceitos e suas contradições. Na verdade, nosso ser e a realidade que o circunda não são duas coisas distintas. Não há contradição. Realmente não são duas coisas separadas. Mas é realmente muito difícil ver isso porque vivemos atolados em nosso próprio sistema simbólico chamado pensamento, que configura uma espécie de imagem especular da realidade, e é muito sutil dar-se conta disso, e esse (re)conhecimento é que significa em última análise “realizar a realidade” ou “tornar-se aquilo que se é”. Isso quer dizer que, embora seja muito difícil e sutil, não se trata de alcançar um estado especial após algum tempo de esforço intenso, porque a realidade já é completa bem à nossa frente, quer saibamos disso ou não. Isso significa que até mesmo a nossa “imagem especular” da realidade formada pelo pensamento está igualmente dentro da realidade. Então essa “realização” é algo que você alcança de uma forma diferente, não pelo pensamento, ou pelo uso da nossa habitual força de vontade; na verdade você é alcançado por essa realidade o tempo todo, pois ela já existe e não depende em nada da sua força de vontade, você realiza que está totalmente inserido nela, então não faz mais nenhum movimento no sentido de fugir ou se agarrar a qualquer coisa que seja, é isso o que significa sentar profundamente em zazen (meditação) e deixar cair corpo e mente.

Mestre Dogen, o fundador do Zen japonês, ouviu isso enquanto fazia zazen, seu mestre admoestando um monge que dormia – “shin jin datsu raku!”, que significa “você tem que deixar cair corpo e mente!” − e nesse instante ele realizou a realidade. Outro monge foi alcançado por esse ponto quando topou com uma pedra e rasgou o dedão do pé. Buddha alcançou e foi alcançado por este ponto quando a luz da estrela da manhã penetrou pelos seus olhos após os 7 dias em que permaneceu sentado debaixo da árvore de Bodhi. Então é isso, uns realizam através dos ouvidos, outros através dos olhos. Os sentidos fluem livremente sem qualquer obstrução desde que você nasceu. É essa a resposta para o koan do mestre Nansen: “uma gaivota voa como uma gaivota”.

Agora, se você achar que pode “pegar” isso decorando esta resposta e a repetindo em salões de chá onde se discutem o zen, então você está obnubilado. E era isso o que eu ouvia no começo da minha prática, um monte de gente repetindo palavras, mas sem realização. Um koan se resolve através do corpo e não através do pensamento, assim como Mestre Dogen ou Buddha realizaram através dos ouvidos ou dos olhos. Então não duvide da experiência da realização, pois há milênios ela vem sendo transmitida vivamente, ela vem ecoando através do tempo e espaço através de inúmeros seres humanos.

A porta está completamente aberta, mesmo aqui e agora. Não duvide de si mesmo, potencialmente você não é nem um pouco menor do que um mestre, você não precisa ir para o topo do Tibet, o topo do Tibet é onde seus pés estão agora, você não precisa ouvir ou ver seres celestiais, seres celestiais são o mugido da vaca e o incenso queimando, mas se você não realizar isso através do seu próprio corpo-mente, se você não for atravessado por este portal sem portão, então você nunca vai saber. A condição necessária para isto é o zazen, não há outro atalho, essa é a forma que se transmitiu até hoje essa suprema realização da realidade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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Criatividade e algo mais…

Tem dias (como hoje) que me sento em frente ao computador, a página em branco do Word com o cursor piscando na primeira linha e uma leve sensação de não ter muito para escrever. Na verdade, ao contrário do que muitos possam pensar, esse momento de vazio, essa sensação de aparente falta de criatividade é fantástica, pois é a partir dela que pode surgir qualquer coisa, ou seja, tudo o que pode ser criado tem que obrigatoriamente passar por esse momento de nascimento – e todo nascimento é um pouco misterioso.

Tudo o que nasce percorre certo período de latência, de gestação, de espera. Esse tempo de incubação – que geralmente ocorre no escuro, no vazio, no silêncio da inação – é estritamente necessário para consolidar aquele processo que denominamos de criatividade. Sim, o ato de criação envolve uma boa parcela de inação!

Veja bem alguns processos naturais: você coloca a semente dentro da terra. Na escuridão, no silêncio e na solidão um broto vai tomando forma, ação vai nascendo da inação. Dizemos que a forma vai emergindo do vazio. A mesma coisa acontece com a gestação de um bebê ou até mesmo durante o processo de cura de um ferimento ou uma doença.

Se o processo criativo da natureza funciona a partir deste lugar comum, por que seria diferente com a criatividade mental humana?

Sim, a criatividade também opera a partir de um lugar vazio de onde emergem todas as possibilidades. É o chamado vazio-cheio, de onde todas as flutuações visíveis partem para o mundo fenomenal. Isso vale para qualquer forma existente, para qualquer coisa que exista dentro deste mundo dos fenômenos, materiais ou imateriais. Esse chamado vazio é o celeiro, é a matriz existencial, é o pano de fundo de tudo o que é manifesto. É neste lugar que toda a energia que existe no Universo passa quando sofre uma transformação no final ou no início de um novo ciclo, ou seja, as energias de tudo o que morre e tudo o que nasce se encontram aí.

Vamos entender o processo criativo humano. Basicamente, podemos ser criativos em duas principais situações: diante de um problema, quando buscamos soluções para ele, ou simplesmente criando livremente sem uma demanda de solução específica. Por exemplo, quando você está dentro do carro, dirigindo, e “sem querer” você começa a cantarolar um verso que veio à cabeça, compondo assim o primeiro trecho de uma música. Quando isso acontece, o processo criativo não foi instigado para solucionar uma situação problema, ele aconteceu naturalmente e trouxe algo que não existia anteriormente. Tudo bem, essa via é bastante sutil, você precisa estar bem acordado para “pegar” aquilo que está emergindo, uma vez que não foi fruto de esforços continuados – pelo menos naquele momento. Digamos que você se colocou numa postura relaxada, descontraída e por isso permitiu a livre comunicação entre o mundo consciente e essa matriz existencial de tudo. A partir daí, depois que a ideia chave emergiu, então você arregaça as mangas e vai aperfeiçoa-la.

Já quando você se debruça sobre um problema, o foco é encontrar uma solução. Neste caso, nem sempre a solução será criativa no sentido estrito do termo, pois você pode usar uma combinação de soluções que já existem. Mas ainda assim, para vislumbrar esse caminho de soluções viáveis, é necessário ser inspirado pelo vazio criador. Se você bloqueia essa inspiração, você não consegue criar a combinação necessária. Então, desta perspectiva, mesmo usando soluções já existentes você ainda pode ser criativo.

Assim, de uma forma ou de outra você irá precisar de sintonia com esse silêncio criador para dar forma a uma solução para um problema ou para gerar algo que ainda não existe. Tem um ditado no zen que é assim: “a melhor resposta para uma questão emerge naturalmente no silêncio da mente”. Ou seja, há uma forma de comunicação criativa entre você e a matriz universal que se dá a partir do silêncio, sem muitas interferências ou preocupações. Aquela coisa de “quanto mais me esforço, menos consigo criar” é verdade, pois neste caso é o excesso de esforço que está bloqueando o que ainda está por vir. Neste sentido, na verdade somos apenas instrumentos de uma energia criadora, e não os criadores propriamente ditos. Mas isso não funciona se forçamos a barra.

Acredito que a meditação é um grande treinamento para abrir esse canal de comunicação com a criatividade. Não é necessário perseguir à força uma solução, ou se agarrar na urgência de criar. Apenas nos colocamos abertos ao que pode emergir.

A página em minha frente continuava em branco. Coloquei a coluna reta, e por alguns minutos fiz a respiração abdominal, como fazemos em zazen. Não procurei encontrar nada. Silêncio mental. De repente, o cursor do Word começou a se mover e as primeiras palavras foram escritas. O resultado é exatamente esse texto que vocês acabaram de ler.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Raspar a cabeça

Já de volta ao Brasil, estava vendo hoje algumas fotos da viagem ao México. Muitas coisas interessantes e bonitas foram registradas, mas há outras que uma câmera não pode captar.

Por exemplo, me lembrei de Andrew, um canadense de uns vinte e poucos anos que encontramos em um hotel na Península de Yucatán. Viajava sozinho, e aparentemente buscando a essência do próprio caminho, marca inconfundível de quem bota uma mochila nas costas e sai por aí a andar pelo mundo. Na verdade, ninguém faz isso sem uma motivação, sem uma busca interior já aflorada.

Começamos a conversar, e ele se interessou rapidamente pelo tipo de viagem que eu e Léo estávamos fazendo. Uma viagem menos turística e mais voltada para a compreensão do antigo povo Maya. Pirâmides, sítios arqueológicos, cultura, tradições antigas e rapidamente o foco da conversa foi para o autoconhecimento.

Então Andrew me perguntou o que eu fazia no Brasil. Dentre outras coisas, disse a ele que ensinava meditação. E que havia estado no Japão, e que ali eu havia sido ordenado como Monge Zen. Andrew demonstrou grande interesse em saber detalhes da minha experiência nos monastérios em que estive, especialmente sobre o treinamento psicológico. A essa altura da conversa, bastante fluida e agradável, ele me perguntou por que os monges raspavam a cabeça.

Eu expliquei a ele que isso vem da Índia antiga, quando a divisão entre as castas sociais era identificada, dentre outras coisas, com o corte de cabelo que as pessoas usavam. Por exemplo, certos coques eram permitidos apenas aos nobres, príncipes e reis. Então, quando um discípulo se aproximava de Buddha e pedia refúgio em sua comunidade de seguidores e praticantes, a primeira orientação dada por ele era a de raspar a cabeça em sinal de desapego à casta de origem, à autoimagem, como condição de admissão. Em outras palavras, é uma prática de desapego ao ego e à imagem de si mesmo.

Andrew ia escutando tudo muito atento. E eu também, por ele ter demonstrado esse incomum interesse nas perguntas que me fazia. Às vezes, ele acenava positivamente com a cabeça, demonstrando entendimento. Outras, ficava curioso.

Então ele me perguntou:

– Qual foi a coisa mais importante do treinamento para você?

– Aprender a me relacionar de forma mais justa com as pessoas e com a realidade – respondi.

Tudo isso não durou mais que meia hora de papo. No dia seguinte, encontrei novamente com Andrew no hotel.

Ele havia raspado a cabeça.

Esse fato me deixou impressionado, uma impressão que vai além das palavras. Aquele rapaz tinha captado o ensinamento budista prontamente, a ponto de fazer o que muitos praticantes hesitam durante anos, ou seja, cortar o apego com a autoimagem.

Seria sensato ponderar que isso poderia ter sido um ato meramente mecânico, imitativo, movido por delusão ou por uma identificação ainda mais egóica com a imagem do monge. Mas esse não era o caso de Andrew, pelo menos naquele momento. Havia uma sinceridade e uma força na expressão facial dele. Ele realmente estava buscando o Caminho.

Saímos do hotel na manha seguinte e eu nunca mais vi Andrew. Não trocamos qualquer contato.Eu não sei por quanto tempo ele vai manter a decisão que tomou, mas aquele ocorrido foi um ensinamento claro: você pode ser um veterano com décadas de meditação acumulada, ou um noviço que acabou de entrar no monastério – a prática e a realização do Caminho estão ao alcance de ambos.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.