Jogando no real

Nós gostaríamos de viver em um mundo ideal, com flores perfumadas, bichanos felpudos, passarinhos cantando, relacionamentos fáceis, etc, etc, etc, e a gente até que se esforça muito para isso, uma vez que acreditamos nesse ideal a maior parte do tempo e forçamos tentamos manter tudo sob controle.des

Mas no campo do real tem as ervas daninhas, tem escorpião que aparece no banheiro da gente (e se ele aparece, pode saber que tem barata também, que é o seu prato predileto), tem a dengue que todo verão faz vítimas, tem as operadoras de telefonia que dão canseira e também o trânsito complicado. Então, se a gente não tomar cuidado, a diferença entre o que esperamos e o que realmente acontece pode assustar. Nossas expectativas, que na maior parte do tempo não são atendidas, podem, por isso, gerar enormes sentimentos de frustração.

A gente tem que matar no peito, arredondar e tocar. A bola vem torta, toda quadrada, eu sei, mas temos que jogar. A gente tem que exercitar muito a mente atenta o tempo todo, inclusive para não ficar fazendo papel de bobo ou então até mesmo ficar doente.

É o caso das operadoras de telefonia, que eu já aprendi que não adianta ficar ligando naqueles números que tocam musiquinha. É tudo fake, é pura enrolação pra ganhar tempo – É DELIBERADO, como confirmei com um amigo que já gerenciou essa área e pediu pra sair porque o jogo é muito sujo. Ligo apenas uma vez nesses números, registro o meu pedido e pego o número do protocolo. Depois, já ligo logo para a Anatel (número 1331), dou o número do protocolo que tenho, registro uma reclamação solicitando providências. Se o problema não é resolvido em cinco dias com esse caminho, cancelo o plano logo.

No trânsito não tem jeito, o negócio e ficar esperto para não cair no estresse. Não adianta. Tem um princípio físico da hidrodinâmica que eu percebi que se aplica direitinho nos congestionamentos: a velocidade final de cada ponto é determinada pela velocidade da massa total em escoamento. Isso significa que não adianta você sair cortando todo mundo, costurando pela esquerda, meio e direita achando que vai ganhar uns minutos: no sinal da frente você pára ao lado de todo mundo que você passou. Ou seja, a velocidade do conjunto é que determina as velocidades individuais, e se você caiu num trânsito travado, trate de ouvir música, tomar chá ou qualquer coisa assim. Ou então estressar, gritar, xingar e envelhecer dois dias a cada hora, isso se não arrumar uma briga, o que absolutamente eu não recomendo.

As ervas daninhas tem que ser arrancadas toda semana, senão o jardim vira mato. Quanto aos escorpiões saiba que não tem veneno indireto eficiente, não adianta muito jogar produto químico e esperar que eles passem por ali e morram. Eles estão na terra há muito mais tempo que o homem e isso significa que se trata de uma espécie muito resistente, podem viver meses sem água e totalmente imóveis. Mas se você eliminar as baratas já é um bom começo, pelo menos não haverá comida para eles. Tampe os ralos. Se morar em casa, show de bola é comprar umas galinhas d’angola, elas comem todos eles sem piedade, são predadoras naturais não só de escorpião, mas de vários outros insetos. A dengue todo mundo já sabe, sem água parada em casa, e cobre também dos vizinhos.Soccer Player Dribbling Between Defenders

Se no campo do real o jogo é mais duro, então não fique esperando bola macia. Também não dá para ficar atropelando todo mundo. Sempre há uma jogada correta, eficiente e equilibrada para cada situação, e mesmo que ela não resulte em gol, tocar a bola pra frente já é grande coisa.

Gustavo Mokusen.

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2 opiniões sobre “Jogando no real”

  1. Obrigado Filipe, sua ponderação é absolutamente pertinente, há um enorme desconforto e sofrimento no mundo, e nossa contribuição mais valiosa é no sentido de praticar de forma não autocentrada. Um grande abraço.

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  2. São problemas reais, que nós enfrentamos na nossa vida de classe média. Os problemas do mundo da pobreza são sem dúvida, infinitamente mais degradantes, em especial os que envolvem a violência. Comento isso, Gustavo, pois atuo na área de direitos humanos. De fato as violações são de uma tristeza incomensurável, e acompanham também o sentimento constante de medo. É preciso viver o Dharma minuto a minuto, desapegando-se absolutamente do apego ao ego e à vida humana para seguir com força e serenidade. É preciso, na verdade, substituir o medo de morrer pelo de não vivenciar o Dharma; mas as ilusões são tantas, e o apego ao em-si tamanho, que muitas vezes nos rendemos ao instinto de conservação da própria vida e deixamos de atuar onde era preciso. Por isso sou muito grato à vocês, pelo acolhimento no templo zen das alterosas, o que, tenho fé, ajudará no desenvolvimento de uma mente zen e na prática do Dharma. Afinal, só o vivenciaremos praticando a compaixão universal, que se torna atitude mental no zazen, e, a partir disso, atitudes verbais e físicas ao longo do dia. Creio que essas atitudes mentais e físicas, num país como o Brasil, significam renunciar à própria rotina e ajudar os irmãos presos no Samsara, aliviando seu sofrimento físico, seja com alimentos, roupas etc; e seu sofrimento emocional, este, com palavras, ensinamentos. Assim, se lhes abriremos o caminho do Dharma, como o abriremos a nós próprios verdadeiramente; já que a compaixão universal é condição para nossa própria iluminação, e ela não deve ser apenas meditativa, comtemplativa, mas gerar atos verbais e físicos em auxílio dos demais, não é verdade? Um prazer ler seus textos sensatos, ponderados e refletindo o Dharma em nosso dia-a-dia. Por favor, continue postando, um leitor você já conquistou. Abraço afetuoso, Filipe Rodrigues

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