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Deixar cair corpo e mente

A história do treinamento e da iluminação de Mestre Dogen (1200 – 1253) é particularmente interessante. Fundador do famoso mosteiro de Eihei-ji no Japão, Dogen Zenji pode ser considerado como o patriarca da escola Soto Zen do Budismo Japonês. Além disso, escreveu a famosa e impressionante obra Shobogenzo com seus 95 capítulos, considerada por muitos filósofos atuais uma pérola do pensamento oriental, onde são estabelecidos os pilares da prática do Zen e do treinamento espiritual.

Órfão de pai e mãe aos oito anos de idade, Dogen já na infância experimentou profundamente a impermanência dessa vida, o que o levou aos 13 anos de idade a ingressar em um monastério budista e receber a ordenação como monge da escola Tendai. Desde os primeiros anos já demonstrava uma grande inclinação para a busca espiritual, e dentro da sua mente a seguinte questão agravava-se cada vez mais: “se todos os seres já possuem a natureza iluminada, então porque é necessário praticar para alcançá-la?”. Essa pergunta não lhe deu paz, e o fez procurar seriamente por um mestre qualificado que pudesse lhe dar uma resposta satisfatória.

Em 1223 Dogen resolve fazer a perigosa travessia marítima até a China, na intenção de encontrar ali respostas e experiências que pudessem lhe conferir a realização da iluminação. Inicialmente visita vários monastérios, mas não encontra nenhum professor qualificado. No treinamento budista é dito que um grande aluno só pode aceitar um grande professor, assim como a recíproca também é verdadeira. O desencanto de Dogen foi tanto que ele decidiu voltar ao Japão em 1225, mas no caminho de volta encontrou-se com um monge itinerante que lhe contou sobre um monastério onde viviam cerca de 1000 monges sob os auspícios de Nyojo, um grande mestre budista e que praticava incessantemente os ensinamentos de Buddha. Dogen então decidiu ir visitar esse mosteiro.

Nyojo era um mestre muito rigoroso, e os monges praticavam horas e horas de meditação sentada segundo suas instruções. O principal ensinamento era o zazen, a meditação sentada. O encontro de Dogen e Nyojo foi completo desde o início, e Dogen reconheceu imediatamente que estava diante de um mestre legítimo.

Conta-se que, numa madrugada de prática de meditação matinal, um monge estava dormindo durante a sessão de zazen. Nyojo então, com seu chinelo na mão, bateu nas costas do monge dizendo: “Desperte! Você deve atirar longe corpo e mente, deve deixar cair corpo e mente para realizar a iluminação!”. Dogen, ao ouvir tais palavras, atingiu então a experiência que tanto buscava e encontrou a resposta para sua questão mais profunda e que o acompanhava desde a juventude, sobre a natureza da iluminação.

Ao final da sessão de meditação, Dogen foi até o quarto de Nyojo para lhe comunicar a realização, queimou incenso e fez uma reverência ao mestre. Nyojo, apenas vendo os movimentos corporais de Dogen, percebeu imediatamente que o aluno havia alcançado a iluminação da mente. Então Dogen disse:

– “Meu corpo e minha mente desapareceram. Então, me tornei um com o universo”.

Nyojo retrucou:

– “Está certo se tornar um com o universo; mas, antes de sua experiência, você já era um com todo o universo”.

– “É verdade, é verdade. Sem minha experiência, nós já somos um com todo o universo”, Dogen respondeu entendendo finalmente que “não que eu deixei cair corpo e mente, mas corpo e mente foram caídos por si mesmos. Desde o inicio dos tempos sem fim, corpo e mente já eram caídos, e sendo assim nenhuma realização ocorreu, mas ainda assim a iluminação foi realizada“.

Dogen recebeu assim a completa Transmissão do Dharma de Nyojo e retornou ao Japão em 1228. Anos mais tarde Dogen escreveria:

Estudar o Caminho é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo. Ser iluminado por todas as coisas do universo é livrar-se do corpo e da mente, de si próprio bem como dos outros. Até mesmo os traços da iluminação são eliminados, e vida com iluminação sem traços continua para sempre.”

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Afinal…

Reserve 10 minutos para assistir:

http://dotsub.com/view/15f0467f-d351-4224-acf5-df3f2ba9d5a0#.T1_wCxQZ9_Q.email

Um excelente video.

“Qualquer pensamento que você teve sobre si mesmo, por mais desinflado ou inflado, não é quem você é. É simplesmente um pensamento. A verdade de quem você é, não pode ser pensada, porque ela é a fonte de todos os pensamentos. A verdade de quem você é, não pode ser nomeada ou definida.

Palavras como alma, luz, Deus, verdade, “self”, consciência, inteligência universal ou divindade, mesmo que capazes de evocar o êxtase da verdade, são totalmente inadequadas como descrição da imensidade de quem você realmente é. Independente de como você se identifica: como criança, adolescente, uma mãe, um pai, uma pessoa mais velha, uma pessoa saudável, uma pessoa doente, uma pessoa que sofre ou uma pessoa iluminada, sempre, por trás de tudo isso, está a verdade de você mesmo. Ela não é estranha para você. Ela está tão próxima, que você não consegue acreditar que é você. A verdade de quem você é, é intocada por qualquer conceito sobre quem você é, seja ignorante ou iluminado, sem valor ou grandioso.

A verdade de quem você é, é livre de tudo isso. Você já é livre, e tudo o que bloqueia sua realização desta liberdade é seu apego a alguma ideia sobre quem você é. Este pensamento não impede que você seja a verdade de quem você é. Você já é isso. Ele apenas separa você da realização de quem você é. Convido você a deixar sua atenção mergulhar naquilo que sempre esteve aqui, esperando abertamente por sua própria auto-realização. Quem é você, realmente? Você é alguma imagem que aparece em sua mente? Você é alguma sensação que aparece em seu corpo? Você é alguma emoção que passa por sua mente e corpo? Você é algo que alguém disse que você é, ou é uma rebelião contra algo que alguém disse que você é? Estas são algumas das muitas vias de erros de identificação. Todas essas definições vêm e vão, nascem e depois morrem.

A verdade de quem você é, não vem e vai. Ela está presente antes do nascimento, durante toda uma vida, e após a morte. Descobrir a verdade sobre quem você é, não é apenas possível, é o seu direito de nascença. Qualquer pensamento que esta descoberta não seja para você, agora não é o tempo, você não é digno, você não está pronto, você já sabe quem é, são apenas truques da mente. Está na hora de investigar este pensamento sobre “eu”, e ver qual é sua validade real. Nesta investigação existe uma abertura para que a consciência inteligente que você é, finalmente reconheça a si mesma. A pergunta mais importante que você jamais pode perguntar-se é: Quem sou eu? De certa forma, esta tem sido uma questão implícita, perguntada em cada etapa de sua vida. Toda atividade, seja individual ou coletiva, é motivada em sua raiz por uma busca de auto-definição. Tipicamente, você busca por uma resposta positiva à esta pergunta e foge de uma resposta negativa. Quando esta questão se torna explícita, o impulso e o poder da pergunta direcionam a busca pela verdadeira resposta, que é aberta, viva e cheia de insights cada vez mais profundos. Você experimentou tanto o sucesso como o fracasso.

Após um certo estágio, cedo ou tarde, você percebe que quem você é, independente da definição, não é satisfatório. Se esta questão não for verdadeiramente respondida, não apenas convencionalmente respondida, você vai continuar com fome de saber. Porque, independente de como você tenha sido definido por outros, bem intencionados ou não, e independente de como você tenha definido a si mesmo, nenhuma definição pode trazer certeza duradoura. O momento em que se reconhece que nenhuma resposta jamais satisfez esta pergunta é crucial. Ele é muitas vezes referido como o momento de amadurecimento espiritual, o momento de maturidade espiritual. A partir deste ponto você pode conscientemente investigar quem você realmente é. Em seu poder e simplicidade a questão “Quem sou eu?” lança a mente de volta para a raiz da identificação pessoal, a suposição básica: “eu sou alguém”.

Ao invés de automaticamente aceitar essa suposição como a verdade, você pode investigar mais profundamente. Não é difícil ver que este pensamento inicial, “eu sou alguém”, leva a todos tipos de estratégias: ser alguém melhor, alguém mais protegido, alguém com mais prazer, mais conforto e mais realização. Mas, quando este pensamento muito básico é questionado, a mente encontra o eu, que se assume estar separado daquilo que ela vinha procurando. Isso é chamado de auto-investigação. A pergunta mais básica: “Quem sou eu?”, é aquela que é a mais negligenciada. Passamos a maior parte de nossos dias dizendo a nós mesmos ou aos outros que somos alguém importante, alguém sem importância, alguém grande, alguém pequeno, alguém jovem ou alguém velho, sem nunca realmente questionar esta suposição mais básica. Quem é você, realmente? Como você sabe que isto é quem você é? Isso é verdade? Realmente? Quando você voltar sua atenção para a questão: “Quem sou eu?”, talvez você veja uma entidade que tem seu rosto e seu corpo. Mas quem está ciente desta entidade? Você é o objeto, ou você é a percepção do objeto? O objeto vem e vai. O pai, a criança, o amante, o abandonado, o iluminado, o vitorioso, o derrotado. Todas essas identificações vêm e vão.

A percepção dessas identificações está sempre presente. A identificação errada de si mesmo como algum objeto dentro da percepção leva a extremo prazer ou extrema dor e ciclos intermináveis de sofrimento. Quando você está disposto a parar a identificação errada e descobrir direta- e completamente que você é a própria percepção e não estas definições impermanentes, a busca por você mesmo nos pensamentos termina. Quando a pergunta “Quem?” é perseguida de forma inocente, pura, por todo o caminho de volta à sua origem, surge uma enorme e espantosa realização: Não há absolutamente nenhuma entidade ali! Há apenas o indefinível e ilimitado reconhecimento de si mesmo como inseparável de qualquer outra coisa. Você está livre. Você está completo. Você é infinito. Não há nenhum fundo em você, nenhum limite em você. Qualquer ideia sobre você aparece em você e desaparecerá de volta em você. Você é percepção, e percepção é consciência. Deixe todas as auto-definições morrer neste momento. Deixe todas ir, e veja o que resta. Veja o que nunca nasce e o que não morre. Sinta o alívio de se desfazer da carga de definir a si mesmo. Experiencie a efetiva não-realidade da carga. Experiencie a alegria que está aqui. Descanse na paz infinita de sua verdadeira natureza antes que qualquer pensamento de “eu” surja.”

Votos de luz,

Gustavo Mokusen.

A competitividade é saudável, mas…

Por Márcia Cândido

“Toda vez que tentava meditar, um monge era incomodado por uma aranha.

– Sempre que medito, aparece esta aranha e não consigo me livrar dela…”

***

Vivi uma experiência muito semelhante à representada nos quadrinhos do recente post aqui do ALD A aranha e o monge. À época da minha experiência, recebi uma lição que se encaixou, como uma luva, na minha vida profissional.

Participando de um sesshin (retiro de meditação zen budista), fui acometida por um medo, sem explicações, de um louva-a-Deus que tinha entrado, ao final da tarde, no zendô – local onde nos reuníamos para meditar.

Projetada na parede à minha frente, refletida à luz das velas, na altura dos meus olhos semicerrados, a sombra do inseto parecia fazer do bicho um animal muito maior que ele realmente era. Como o monge dos quadrinhos, também não conseguia concentrar. Tinha medo de que o louva-a-Deus, em sua rota incerta, me atingisse. Eu não relaxava.

Ao final da meditação, procurei Mokusen San e, com a voz bem baixa para não burlar a regra (tinha sido comunicado que, a partir daquele momento, vigorava o silêncio) e pedi ajuda:

– Por favor, poderia me ajudar a tirar esse louva-a-Deus daqui? Amanhã, de madrugada, quando nos reunirmos, novamente, sei que estará por aí e não vou conseguir concentrar.

Então, veio a lição:

– Porque tirá-lo? Ele tem todo o direito de estar aqui. Tanto quanto você.

Fiquei sem resposta.

E Mokusen San finalizou:

– Deixe ele aí. Talvez ele também tenha vindo buscar iluminação.

Foi uma lição e tanto. Grande sesshin! São experiências que adquirimos para a vida toda.

Foi, então, que compreendi que podemos dividir o mesmo espaço, sobretudo, no campo profissional, com todos. Afinal, todos têm o direito de buscar o sucesso, almejar a felicidade e garantir seu bem-estar. A competitividade é saudável, mas “precisamos ir além de nós mesmos”.

Eu fico por aqui. Até nosso próximo encontro.