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Não acredite, veja!

A crença é uma forma de ilusão. A necessidade de se acreditar em alguma coisa surge apenas quando não existe a experiência direta da realidade dessa coisa. Se você realmente conhece, se você tem a experiência, então não é necessário acreditar em nada, você apenas confirma essa experiência instante após instante dentro da existência, assim como você dá um passo após o outro quando sabe a direção a ser seguida.

Você não acredita que a água é molhada, que o açúcar é doce ou que o fogo queima, você sabe através da experiência direta tudo o que precisa saber a respeito da água, do açúcar e do fogo. Já a crença ocorre como uma espécie de substituição para essa experiência, uma tentativa de forjar o que não foi ainda conhecido. Se você não conhece, então você pode acreditar ou não. Dessa forma, tanto a crença quanto a dúvida surgem da ignorância, ou seja, da falta de experiência conectada ao real. Por isso, duvidar ou acreditar são atitudes mentais provenientes da confusão, da ausência da experiência.

Na melhor das hipóteses a crença pode ser encarada como uma forma temporária de lidar com o desconhecido, através da qual a real experiência poderá vir a se desenvolver. Mas o problema que se instala é que, na maior parte dos casos, paramos no ponto da crença e ficamos satisfeitos com a forma temporária ao invés de alcançar o real e sua essência direta. Assim, as crenças são perpetuadas e repetidas por nós, e isso pode nos roubar nossa própria e autêntica experiência. Acreditar é, muitas vezes, mais confortável do que experimentar.

O desconhecido pode gerar medo, incertezas e desconforto. Em muitos casos acreditamos em algo a fim de aliviar toda essa angustia que sentimos, a fim de buscar uma resposta rápida para algo que demanda um esforço maior. A dúvida, a negação é o outro extremo, onde simplesmente nos fechamos para o possível, para o real. Por exemplo, o nosso futuro. Não há nada mais desconhecido que o nosso futuro, e por isso nossa tendência é acreditar nas coisas que nos trarão conforto e negar as outras que podem nos provocar sofrimentos.

Entretanto, há uma forma possível de lidar com toda a complexidade de nossas vidas sem que seja necessário nos ancorarmos nos extremos das crenças ou das dúvidas que criamos e alimentamos. Podemos simplesmente constatar os fatos que se apresentam, buscar na investigação deles os elementos concretos através dos quais entramos em contato com a realidade. É como se adiássemos a escolha apressada de acreditar ou duvidar e, no lugar dela, buscássemos pacientemente o testemunho do objeto investigado. Isso exige a mais absoluta honestidade interior de abrir mão de pontos de vista baseados em pré-conceitos para, assim, ver a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse. Sem dúvida esse é o mais elevado exercício espiritual que se pode praticar, pois ele nos aproxima cada vez mais do nosso caminho nessa existência.

Gustavo Mokusen.

Nada a esperar, nada a temer

Quando a mente deixa de procurar por qualquer coisa mais, qualquer acréscimo ou qualquer tipo de aquisição no vir a ser da sua existência, assim como deixa para trás o medo da perda e da dor e assim simplesmente sincroniza-se com a esmagadora realidade do momento presente, então dizemos que essa mente é a mente completa, saciada, pacificada.

Esse estado pacificado, iluminado, não é algo a ser alcançado, a ser obtido, pois isso não seria mais que outra tentativa de ganhar alguma coisa; tampouco é uma fuga do real, do concreto, da vida e de suas complexas demandas que se nos apresentam, pois a fuga é a reatividade operante do medo.

Essa consciência iluminada já é parte da natureza da mente humana; digamos assim, é uma instância do espectro da consciência que se torna acessível quando ativada, o que remete à antiga afirmação de que prática e iluminação são uma só coisa. Essa esplêndida experiência da completa realidade não exclui nada e não percebe a falta de nada, uma vez que tanto o espaço quanto o tempo são completamente experienciados no aqui-agora, o que por si mesmo é sempre perfeitamente onipresente e eterno.

É como se, em meio a pinheiros gigantes ao sol, a mente se tornasse unificada com todos os pinheiros gigantes ao sol e, ao mesmo tempo, as palavras pinheiro, gigante e sol fossem completamente deixadas para trás sem nenhuma identificação ou separação mental, mas com completa experiência dos sentidos.

O portal para essa experiência magnífica, que têm sido estabelecido e transmitido como o método correto para usufruir desse estado perfeitamente equilibrado, é o sentar-se com a coluna ereta.

Sentar-se, apenas sentar-se sem nenhuma intenção de ganho ou perda.

Nada a esperar, nada a temer.

Gustavo Mokusen.

Por que você não muda?

Aquilo que denominamos como sagrado, como verdade, como sendo a realidade da existência não é algo estático, fixo, imóvel ou estagnado, mas, ao contrário, um princípio dinâmico que está em constante movimento e mutação, que flui ininterruptamente sem nenhuma retenção, sempre atualizando o eterno momento presente que se apresenta a nós.

Então, por que não mudamos junto? Por que, então, obstruímos o caminho e nos apegamos em crenças, condicionamentos, medos, ideais e outras criações mentais no lugar de simplesmente acompanhar o movimento da realidade usufruindo de toda a liberdade do aparato existencial mente-corpo do qual somos dotados?

Qual seria sua resposta?

Gustavo Mokusen.