Conhecimento, disciplina e mitigação de riscos

Por Allyson Bastos

“Se você deseja saber o que é realmente risco, procure o espelho mais próximo. O que olha de volta pra você é o risco.” (Jason Zweig)

Engana-se quem imagina que a receita para o sucesso nas finanças seja a realização de negócios espetaculares que garantam lucros astronômicos da noite para o dia, geralmente associados a grandes riscos. Isso pode até acontecer vez ou outra, mas definitivamente não é a regra geral.

O caminho para a construção de um sólido patrimônio, não digo eu, mas sim os grandes entendidos do assunto, é a conjugação de um método de investimento adequado ao seu perfil com a disciplina necessária para manter-se fiel a ele, tanto nos momentos de crise, quanto nos de euforia financeira.

Mudanças de plano são saudáveis e correções na rota muitas vezes são essenciais para garantir que o objetivo será alcançado. É preciso cuidado, entretanto, para que a ganância não nos leve na direção contrária à dos nossos objetivos.

O primeiro investimento a ser feito na busca pela prosperidade é no conhecimento. Há, hoje, farto material gratuito disponível na internet sobre educação financeira. E, de modo geral, todo conhecimento absorvido, seja na área da economia, filosofia, história, psicologia, artes ou quaisquer outras, pode nos proporcionar um valioso instrumental para a tomada de decisões mais inteligentes. Não é preciso se tornar um profissional das finanças, mas há que se atentar para o fato de que, à medida que o seu patrimônio aumenta, mais responsabilidade recai sobre suas decisões de investimento. E uma decisão precipitada poderá acarretar grandes perdas.

A recuperação de uma perda de 50% do patrimônio exige um crescimento de 100% da parcela que restou. Nada fácil, certo? É importante, então, que nos concentremos em errar o mínimo possível, ainda que isso signifique obter retornos moderados. Retornos moderados mas constantes são muito mais poderosos que grandes ganhos com grandes perdas intercaladas.

Portanto, nada de ter pressa em aproveitar essa ou aquela oportunidade de investimento. Devemos optar sempre e serenamente pelas opções que nos pareçam mais adequadas ao nosso perfil, à nossa estratégia e ao nosso grau de conhecimento no momento. Não invista em ações apenas por ser um modismo impulsionado por histórias de garotos-prodígio que multiplicaram rapidamente o capital investido. Tenha certeza que a mídia não se interessa pelas muito mais frequentes histórias de pessoas que inadvertidamente amargaram prejuízos consideráveis com imprudentes especulações em bolsas de valores. Invista sim nesse mercado, se já detém conhecimento suficiente para entender seu funcionamento, e consegue traçar perspectivas realistas de suas possibilidades de retorno e dos riscos envolvidos.

Estude as várias espécies de investimentos e, quando se sentir à vontade, escolha as opções mais adequadas ao seu plano de independência financeira, certo de que não há investimento perfeito.

Esteja certo que o grau de risco de nossas decisões está mais associado ao nosso nível de conhecimento e à nossa disiplina do que às espécies de investimento propriamente ditas.

Devemos nos atentar especialmente para o risco representado pela falta de disciplina e pelo comportamento impulsivo. Tal risco tende a se tornar mais expressivo na medida em que o saldo de recursos financeiros à disposição aumenta. É nesse momento que as pressões por consumo de bens de alto valor começam a ficar mais intensas. Daí vem aquela vontade de trocar o carro, comprar um sítio, aumentar o padrão de vida… A falta de fidelidade para com a estratégia de investimento, ou uma vulnerabilidade latente a essas demandas consumistas podem acarretar uma grande dissipação da energia empregada ao longo dos anos, dificultando, ou mesmo inviabilizando, o alcance dos objetivos inicialmente propostos.

Concluo reforçando que há que se ter sempre em mente que a busca pela independência financeira não deve ter por finalidade multiplicar as necessidades de consumo, mas sim propiciar libertação e bem-estar. E conjugando, nessa caminhada, passos firmes e conscientes, busca constante por conhecimento, disciplina e consumo sustentável, a tão almejada qualidade de vida deixa de fazer parte de um futuro distante, existente apenas em nossos pensamentos, para ser  conquistada e experimentada a cada dia.

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A liberdade zen: parar de fugir

Não há caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho” – Sentença Zen

A vida dentro de um monastério zen pode se tornar muito chata, muito aborrecida, se você vai pra lá esperando por milagres cinematográficos ou experiências extraordinárias. Eu não sei se vocês sabem, mas a rotina monástica é bastante árdua: acorda-se muito cedo, geralmente por volta das quatro da manhã, medita-se em silêncio por umas duas horas, come-se a mesma papa de arroz todas as manhãs e depois todos vão trabalhar. Cortar grama, limpar o chão, lavar o banheiro e cozinhar, de preferência sem tagarelice e com a atenção plena de não deixar uma partícula de poeira sem ser varrida. Ao meio dia há uma refeição frugal, seguida de um breve período de descanso. Na parte da tarde vota-se ao trabalho, que às vezes é interrompido por alguma breve exposição do Dharma (palestra de ensinamentos), seguido de um banho rápido. Uma sopa leve antecede as duas últimas sessões de meditação do dia, e às nove da noite todos estão em suas camas dormindo. Essa rotina só é quebrada nos períodos intensivos de meditação, que ocorrem uma vez por mês, quando se pode ficar sentado por 12 ou 14 horas por dia. Fora esses períodos, a rotina é repetida todos os dias. Não há sábado, não há domingo ou feriado. Não há para onde ir. Não há anestesia. Uma semana, um mês, um ano.

Tem pessoas que procuram um mosteiro ou uma prática espiritual qualquer como fuga de um momento particular de tristeza ou sofrimento que estão vivendo, na esperança de assim encontrar pronto a felicidade ou um bálsamo que possa aliviar esse período de dificuldade. Às vezes também pode ser que essa fuga aconteça no trabalho, ou fazendo uma viagem de turismo. Normalmente a rota da fuga é: evitar a dor, buscar o prazer. É como se fosse uma transferência eterna: aqui não está bom, ali está. Mas quando chegamos ali, já não está bom de novo. Sempre falta alguma coisa, sempre tem algo errado, nunca estamos satisfeitos. E por quê? Simplesmente porque estamos carregando nossa infelicidade dentro de nós, de um lugar ao outro, e procurando por felicidade nas coisas externas. Com este método, realmente nada existe que seja capaz de extinguir nosso aborrecimento ou tristeza.

Mas quando chegamos a um templo zen algo diferente acontece. Não há para onde fugir. Não há desculpas. Acordou? Lave o rosto, vá para o salão de meditação e sente-se de frente para a parede. Comeu? Lave a tigela. A grama está grande? Pegue o cortador e faça o serviço. Começamos a aprender a fazer as pazes com o mundo ao nosso redor, e fazer as pazes com ele significa cuidar do que é necessário receber cuidado, significa fazer o que é necessário fazer em cada momento. E, fazendo isso, algo estranho e absolutamente libertador começa a ocorrer: começamos a nos esquecer de nós mesmos. E quando nos esquecemos de nós mesmos, começamos a parar de fugir e de sofrer. Começamos a parar de sofrer porque paramos de fugir. Começamos, finalmente, a perceber que o tamanho do sofrimento que pensávamos ter era proporcional ao tamanho do nosso autocentramento.

As palavras vão se tornando escassas. Não por tédio, mas por profunda paz. Não é necessário discutir, convencer ou explicar. Os olhos vão brilhando mais. A papa de arroz, a princípio sem gosto, começa a ficar saborosa. Uma pequena florzinha ao sol se move ao vento, e é motivo de uma gargalhada. Não é loucura não – é a tal da felicidade que sempre havíamos procurado da forma mais complicada, da forma mais enviesada nas coisas fora de nós. Estava ali, na nossa frente o tempo todo. A ilusão de que lugares, pessoas ou coisas diferentes podem nos dar essa profunda experiência cai então por terra. Essa tal felicidade sempre esteve disponível dentro de nós, para ser usada em cada passo do caminho. Para sorrir, seu rosto lhe foi dado de presente; mas você descobre que a risada é você que tem que dar.

Eu sei que é difícil para a maioria das pessoas passar por um tempo nessa experiência, isoladas dentro de um monastério. Mas a lição da história: é possível parar de fugir aí mesmo onde você está e experimentar uma liberdade diferente. Dentro da sua vida profissional. Dentro da sua vida familiar. Abrace sua vida. Cuide do mundo ao redor, a cada momento. Esqueça de você mesmo quando se sentir egoísta demais. Mergulhe no seu ordinário e não espere por nada extraordinário, afinal o mistério de estar vivo neste momento já é suficientemente extraordinário. No fim das contas, um e outro são apenas rótulos de linguagem. No fim das contas, a florzinha está na sua frente e a risada é por sua conta.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen 

A comparação é inútil e o Zé não é mané

O mecanismo da comparação pode ser muito útil quando estamos verificando os preços em um supermercado, comprando um apartamento ou ainda quando comparamos dados estatísticos em uma pesquisa de resultados. A comparação é uma ferramenta intelectual importante na análise de questões como as que foram citadas, mas pode se tornar perigosa quando usada sob forma de parâmetro de julgamento pessoal.

Quero dizer que o mecanismo comparativo não veste bem quando falamos de seres humanos. A saia fica justa na comparação pessoal. Primeiro porque sempre é relativa, nunca definitiva, e o problema é que temos a tendência de tirar conclusões apressadas e bater o martelo rápido demais. Depois acontece que os parâmetros individuais mudam muito: pensamentos e atitudes são diferentes em diferentes situações, e sendo assim eu costumo dizer que nada é, tudo está. E por último, a comparação pessoal, na maior parte dos casos, só serve para gerar ou o sentimento de inferioridade ou de superioridade, e ambos são uma praga capaz de destruir nossa confiança pessoal ou alimentar a arrogância do ego.

Veja bem: geralmente é a insegurança que alimenta a comparação pessoal. Quando não estamos conectados em harmonia com nosso próprio caminho, cai uma dúvida constante nos processos decisórios, nos momentos em que temos que escolher ou fazer alguma coisa. Você veste aquela roupa, olha no espelho e aí começa o problema. “É, mas na fulana não fica tão bem essa combinação…”, pronto, você já caiu na armadilha. Ou, ainda mais bizarro, a autocomparação: “… meu corpo era bem melhor…”. Claro que era, há 10 anos, mas acontece que agora a parada já é outra e sua mente ficou presa numa imagem lá do passado. Acorda Zé, afinal você não é mané. Tudo bem se você quer se motivar, isso é muito bacana, mas não seja prisioneiro do gesso mental comparativo, porque nessa linha de raciocínio a comparação leva à competição, mas nessa competição ninguém ganha nada pois todos perdem a realidade de vista.

Você pára com seu carro no sinal, “é 1.0 mas é meu”, eu já vi até esse tipo de adesivo por aí, muito engraçado, já antevendo a comparação dos outros ou até mesmo do próprio dono, uma espécie de lembrete. Daí vem do seu lado direito aquele Corcel II verde, ano 1972, caindo aos pedaços, cheio de ferrugem. Você vai às alturas, sente-se um verdadeiro piloto de fórmula 1 e acelera saindo na frente, deixando poeira para trás no pobre coitado do Corcel. Tem gente que até pensa “bem feito, não estudou”, vejam só até onde vai a coisa, seria engraçado se não fosse trágico. Mas então, no próximo sinal vermelho vem aquela Ferrari, e essa é das amarelas, aquele barulho assassino de motor na marcha lenta, só esperando o bote. Você quase não cabe no banco, tentando se encolher pra dentro do carro, tem gente que fica até amarelo de sem graça, refletindo a cor do possante. “Maldito sinal, abre logo” ou “vai ver que é do pai, playboy” pode ser o mínimo, eu já ouvi pior. Ao mesmo tempo, contas na cabeça pra saber em quanto tempo daria pra juntar uma grana e trocar de carro…

A comparação pessoal material é desse jeito, ainda mais traiçoeira. Uma hora esbanjamos alegria, na outra nos sentimos na lama. Veja só quanta distorção, quanta alienação, quanta bipolaridade. Você não é nem melhor e nem pior que ninguém, você apenas é você mesmo, com seus pontos positivos e suas fraquezas como todo mundo. Aliás, provocar essa bipolaridade é estratégia de consumo atual, para você comparar mais, para comprar mais. Essa “coisificação da angústia”, esse “troque seu mal estar por outra aquisição” funciona assim. Mas no fim, não funciona nada, por que nenhuma identificação material vai te mostrar o que existe além da embalagem. Neste mundo do consumo, conteúdo e embalagem são apenas embalagem.

Quando eu praticava meditação no Templo Tenryuji, no Japão, eu ouvi um mestre dando um ensinamento a um monge de nome Kabata:

– “Um pássaro voa como um pássaro. Um peixe nada como um peixe. Kabata San pratica o Zen como Kabata San.”

É isso ai, bicho, a confusão começa quando o pássaro quer trocar asas por nadadeiras. Simplesmente não irá funcionar. Lembrei-me de um amigo: “Você se torna mané sempre que quer ser aquilo que não é“.

Votos de luz

Gustavo Mokusen

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