A liberdade zen: parar de fugir

Não há caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho” – Sentença Zen

A vida dentro de um monastério zen pode se tornar muito chata, muito aborrecida, se você vai pra lá esperando por milagres cinematográficos ou experiências extraordinárias. Eu não sei se vocês sabem, mas a rotina monástica é bastante árdua: acorda-se muito cedo, geralmente por volta das quatro da manhã, medita-se em silêncio por umas duas horas, come-se a mesma papa de arroz todas as manhãs e depois todos vão trabalhar. Cortar grama, limpar o chão, lavar o banheiro e cozinhar, de preferência sem tagarelice e com a atenção plena de não deixar uma partícula de poeira sem ser varrida. Ao meio dia há uma refeição frugal, seguida de um breve período de descanso. Na parte da tarde vota-se ao trabalho, que às vezes é interrompido por alguma breve exposição do Dharma (palestra de ensinamentos), seguido de um banho rápido. Uma sopa leve antecede as duas últimas sessões de meditação do dia, e às nove da noite todos estão em suas camas dormindo. Essa rotina só é quebrada nos períodos intensivos de meditação, que ocorrem uma vez por mês, quando se pode ficar sentado por 12 ou 14 horas por dia. Fora esses períodos, a rotina é repetida todos os dias. Não há sábado, não há domingo ou feriado. Não há para onde ir. Não há anestesia. Uma semana, um mês, um ano.

Tem pessoas que procuram um mosteiro ou uma prática espiritual qualquer como fuga de um momento particular de tristeza ou sofrimento que estão vivendo, na esperança de assim encontrar pronto a felicidade ou um bálsamo que possa aliviar esse período de dificuldade. Às vezes também pode ser que essa fuga aconteça no trabalho, ou fazendo uma viagem de turismo. Normalmente a rota da fuga é: evitar a dor, buscar o prazer. É como se fosse uma transferência eterna: aqui não está bom, ali está. Mas quando chegamos ali, já não está bom de novo. Sempre falta alguma coisa, sempre tem algo errado, nunca estamos satisfeitos. E por quê? Simplesmente porque estamos carregando nossa infelicidade dentro de nós, de um lugar ao outro, e procurando por felicidade nas coisas externas. Com este método, realmente nada existe que seja capaz de extinguir nosso aborrecimento ou tristeza.

Mas quando chegamos a um templo zen algo diferente acontece. Não há para onde fugir. Não há desculpas. Acordou? Lave o rosto, vá para o salão de meditação e sente-se de frente para a parede. Comeu? Lave a tigela. A grama está grande? Pegue o cortador e faça o serviço. Começamos a aprender a fazer as pazes com o mundo ao nosso redor, e fazer as pazes com ele significa cuidar do que é necessário receber cuidado, significa fazer o que é necessário fazer em cada momento. E, fazendo isso, algo estranho e absolutamente libertador começa a ocorrer: começamos a nos esquecer de nós mesmos. E quando nos esquecemos de nós mesmos, começamos a parar de fugir e de sofrer. Começamos a parar de sofrer porque paramos de fugir. Começamos, finalmente, a perceber que o tamanho do sofrimento que pensávamos ter era proporcional ao tamanho do nosso autocentramento.

As palavras vão se tornando escassas. Não por tédio, mas por profunda paz. Não é necessário discutir, convencer ou explicar. Os olhos vão brilhando mais. A papa de arroz, a princípio sem gosto, começa a ficar saborosa. Uma pequena florzinha ao sol se move ao vento, e é motivo de uma gargalhada. Não é loucura não – é a tal da felicidade que sempre havíamos procurado da forma mais complicada, da forma mais enviesada nas coisas fora de nós. Estava ali, na nossa frente o tempo todo. A ilusão de que lugares, pessoas ou coisas diferentes podem nos dar essa profunda experiência cai então por terra. Essa tal felicidade sempre esteve disponível dentro de nós, para ser usada em cada passo do caminho. Para sorrir, seu rosto lhe foi dado de presente; mas você descobre que a risada é você que tem que dar.

Eu sei que é difícil para a maioria das pessoas passar por um tempo nessa experiência, isoladas dentro de um monastério. Mas a lição da história: é possível parar de fugir aí mesmo onde você está e experimentar uma liberdade diferente. Dentro da sua vida profissional. Dentro da sua vida familiar. Abrace sua vida. Cuide do mundo ao redor, a cada momento. Esqueça de você mesmo quando se sentir egoísta demais. Mergulhe no seu ordinário e não espere por nada extraordinário, afinal o mistério de estar vivo neste momento já é suficientemente extraordinário. No fim das contas, um e outro são apenas rótulos de linguagem. No fim das contas, a florzinha está na sua frente e a risada é por sua conta.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen 

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A comparação é inútil e o Zé não é mané

O mecanismo da comparação pode ser muito útil quando estamos verificando os preços em um supermercado, comprando um apartamento ou ainda quando comparamos dados estatísticos em uma pesquisa de resultados. A comparação é uma ferramenta intelectual importante na análise de questões como as que foram citadas, mas pode se tornar perigosa quando usada sob forma de parâmetro de julgamento pessoal.

Quero dizer que o mecanismo comparativo não veste bem quando falamos de seres humanos. A saia fica justa na comparação pessoal. Primeiro porque sempre é relativa, nunca definitiva, e o problema é que temos a tendência de tirar conclusões apressadas e bater o martelo rápido demais. Depois acontece que os parâmetros individuais mudam muito: pensamentos e atitudes são diferentes em diferentes situações, e sendo assim eu costumo dizer que nada é, tudo está. E por último, a comparação pessoal, na maior parte dos casos, só serve para gerar ou o sentimento de inferioridade ou de superioridade, e ambos são uma praga capaz de destruir nossa confiança pessoal ou alimentar a arrogância do ego.

Veja bem: geralmente é a insegurança que alimenta a comparação pessoal. Quando não estamos conectados em harmonia com nosso próprio caminho, cai uma dúvida constante nos processos decisórios, nos momentos em que temos que escolher ou fazer alguma coisa. Você veste aquela roupa, olha no espelho e aí começa o problema. “É, mas na fulana não fica tão bem essa combinação…”, pronto, você já caiu na armadilha. Ou, ainda mais bizarro, a autocomparação: “… meu corpo era bem melhor…”. Claro que era, há 10 anos, mas acontece que agora a parada já é outra e sua mente ficou presa numa imagem lá do passado. Acorda Zé, afinal você não é mané. Tudo bem se você quer se motivar, isso é muito bacana, mas não seja prisioneiro do gesso mental comparativo, porque nessa linha de raciocínio a comparação leva à competição, mas nessa competição ninguém ganha nada pois todos perdem a realidade de vista.

Você pára com seu carro no sinal, “é 1.0 mas é meu”, eu já vi até esse tipo de adesivo por aí, muito engraçado, já antevendo a comparação dos outros ou até mesmo do próprio dono, uma espécie de lembrete. Daí vem do seu lado direito aquele Corcel II verde, ano 1972, caindo aos pedaços, cheio de ferrugem. Você vai às alturas, sente-se um verdadeiro piloto de fórmula 1 e acelera saindo na frente, deixando poeira para trás no pobre coitado do Corcel. Tem gente que até pensa “bem feito, não estudou”, vejam só até onde vai a coisa, seria engraçado se não fosse trágico. Mas então, no próximo sinal vermelho vem aquela Ferrari, e essa é das amarelas, aquele barulho assassino de motor na marcha lenta, só esperando o bote. Você quase não cabe no banco, tentando se encolher pra dentro do carro, tem gente que fica até amarelo de sem graça, refletindo a cor do possante. “Maldito sinal, abre logo” ou “vai ver que é do pai, playboy” pode ser o mínimo, eu já ouvi pior. Ao mesmo tempo, contas na cabeça pra saber em quanto tempo daria pra juntar uma grana e trocar de carro…

A comparação pessoal material é desse jeito, ainda mais traiçoeira. Uma hora esbanjamos alegria, na outra nos sentimos na lama. Veja só quanta distorção, quanta alienação, quanta bipolaridade. Você não é nem melhor e nem pior que ninguém, você apenas é você mesmo, com seus pontos positivos e suas fraquezas como todo mundo. Aliás, provocar essa bipolaridade é estratégia de consumo atual, para você comparar mais, para comprar mais. Essa “coisificação da angústia”, esse “troque seu mal estar por outra aquisição” funciona assim. Mas no fim, não funciona nada, por que nenhuma identificação material vai te mostrar o que existe além da embalagem. Neste mundo do consumo, conteúdo e embalagem são apenas embalagem.

Quando eu praticava meditação no Templo Tenryuji, no Japão, eu ouvi um mestre dando um ensinamento a um monge de nome Kabata:

– “Um pássaro voa como um pássaro. Um peixe nada como um peixe. Kabata San pratica o Zen como Kabata San.”

É isso ai, bicho, a confusão começa quando o pássaro quer trocar asas por nadadeiras. Simplesmente não irá funcionar. Lembrei-me de um amigo: “Você se torna mané sempre que quer ser aquilo que não é“.

Votos de luz

Gustavo Mokusen

Benvindo ao ano novo de 4710

Sim, é isso mesmo meu chapa, feliz 4710! Hoje, dia 23 de janeiro, inicia-se o ano de 4710 no calendário Chinês, o famoso ano do dragão, que foi comemorado com muita festa lá pelas bandas do oriente neste fim de semana. Chineses, japoneses e outros povos asiáticos estão esperançosos, cheios de planos e metas para o ano novo: de acordo com este calendário, os anos regidos por este animal são sempre cheios de energia transformadora e trazem muitas possibilidades de mudanças, que podem ir desde o sucesso total até as grandes catástrofes coletivas.

Bom, mais ou menos, né? Se você ficar sentado no sofá vendo novela, nada de novo ocorrerá em sua vida. A sabedoria milenar oriental é clara: quando causas e condições se encontram, o carma floresce. Veja bem: causas e condições. Isso significa que nada acontece por acaso neste Universo, nada é casualidade, mas tudo é causalidade. Opa, não leia rápido não: a natureza opera na causalidade, e não na casualidade. As condições podem estar favoráveis, mas se você não agir nas causas, de nada adianta. Vou dar um exemplo: você tem uma semente de manga na mão, fresquinha de boa qualidade. Você também tem um quintal onde tem boa terra, e o clima é bom na sua região. Isso quer dizer que as condições são propícias, são favoráveis, terra boa e clima amigável. Mas se você não colocar a bendita semente na terra, adubar de vez em quando, cortar as ervas daninhas e dar uma força quando a chuva atrasar, então meu amigo, não tem dragão que faça milagre. Você não vai chupar manga se não plantar a semente. Plantar a semente é a causalidade, é a causa motor que vai tocar o barco. A terra boa e o clima são as condições. Causas e condições harmônicas, quando operam juntos, significam bons resultados, carma positivo.

Agora, se escolhemos cruzar os braços e ao invés de cuidar do nosso quintal ficamos fofocando sobre o do vizinho, então é outro tipo de carma que vem: o da estagnação, do prejuízo, do fracasso. É isso o que significa a palavra carma em sua origem na língua páli: kamma, ou ação. Você age, e colhe o resultado, lembrando que deixar de agir é também ação. Omissão e inatividade não serão desculpas quando o dragão aparecer na sua frente bufando fogo.

Então vamos entender bem: a natureza opera em ciclos, e este ciclos possuem ritmos. Aprendemos bem isso com as marés e o ciclo lunar, por exemplo. Ou alguém aqui vai peitar e entrar num rochedo durante a maré alta e brava? É isso ai, se você cortar o bambu na lua errada ele não terá uma vida útil longa, ele vai secar e apodrecer rapidinho. Eu mesmo já cometi esse erro. Então aprendemos um pouco sobre esses ciclos e ritmos da natureza, que afetam diretamente as condições do planeta, e aprendemos que existe uma hora pra tudo. No ano do dragão, que se repete no ciclo de cada 12 anos, é dito que as energias são propícias às mudanças, aos empreendimentos, aos saltos de transformação. É claro que tudo isso sempre pode acontecer em qualquer ano, mas não se esqueça do ritmo entre as marés e o rochedo. Então estão dizendo, como resultado de uma milenar cultura de observação, que o ano do dragão é um momento que reúne boas condições.

Na dúvida, vai lá ao quintal e plante sua semente. Você pode até não acreditar muito em horóscopo de jornalzinho, como eu também não acredito, mas nós temos um ano novo inteirinho pela frente, e dizem que este é dos bons. Não só plante, mas cuide e trabalhe no cultivo. Você nunca saberá quais serão os resultados de suas novas ações, mas se nada fizer nada de novo acontecerá. Planejar, inovar, tentar e perseverar é de suma importância.

Sim, o ano novo é do dragão, mas não espere que ele entre voando pela sua janela. As condições naturais já estão operando neste mesmo instante, então é hora de começar a agir nas causas. Vamos propor ao nosso amigo alado uma sociedade, meio a meio, sacou? Vamos fazer a nossa parte e cuidar do quintal, e do resto cuida a natureza com seus ritmos.

Agora, pra quem insiste em ficar sentado no sofá: depois não adianta ficar bravo e cuspir fogo, hein?

Votos de luz no ano do dragão,

Gustavo Mokusen.  

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