Respondendo com graça

Por Shan Zimmerman

Um dos maiores desafios que encontrei desde que me mudei para o Brasil foi a aprendizagem da língua. O fluxo natural de conversação, com o qual eu estava acostumada por toda a minha vida, tornou-se dolorosamente difícil. Conversas simples agora incluiam longas pausas para absorver e entender palavras, misturando numa mesma matriz expressões faciais confusas e quantidades excessivas de “eu não entendo” e “quê?”. Para evitar a vulnerabilidade, comecei a praticar a arte de fingir que sabia o que a outra pessoa estava dizendo, usando aquilo que eu esperava funcionar para me tornar crível – as expressões faciais.

Meu ego estava profundamente ferido quando me mudei para o Brasil por causa da minha luta linguística e, honestamente, muitas vezes ainda está. Eu estava frustrada porque eu não podia me comunicar, nem mesmo por frases simples. Eu tinha acabado de me formar na universidade, mas agora o meu nível de expressão tinha voltado ao nível pré-escolar. E mesmo as crianças da pré-escola olhavam para mim como se eu fosse uma alienígena!

Era comum eu estar conversando com alguém e, por qualquer motivo, eu via a face do meu interlocutor mudar com um olhar de confusão. Essa confusão, por sua vez, provocava minha crítica interna, minhas inseguranças. Antes da conversa acabar eu já estava desanimada e assim criava muitas impossibilidades. Sentia-me estúpida. Eu sentia como se eu nunca fosse alcançar meu objetivo.

No entanto, uma das minhas descobertas mais valiosas desde que me mudei para o Brasil foi a existência do diálogo interno, e também como responder a esse diálogo interno com uma afirmação positiva.

Através da prática diária da meditação, escrita e leitura sobre autoconhecimento, tenho começado a responder ao meu desafio linguístico de uma forma mais construtiva. Se eu estou falando com uma pessoa e sua resposta atiça a minha crítica interna, agora sou capaz de “ver” essa crítica interna com certa distância e responder usando uma afirmação positiva. Por exemplo, eu poderia dizer a mim mesma que este desafio é uma oportunidade para crescer… e eu estou respondendo com iteligência e graça.

As afirmações são simples. Elas são você no controle consciente de seus pensamentos. Elas são curtas, mas declarações poderosas. Quando você as pronuncia, ou as considera em pensamento, ou mesmo as ouve, elas se tornam a energia que cria a sua realidade. Quando eu tomo conhecimento de um pensamento negativo e substituo esse pensamento por uma afirmação positiva, posso sentir meu corpo relaxar automaticamente e, então, sou mais capaz de me concentrar para atender ao meu desafio de linguagem.

Eu me pergunto se no futuro as minhas afirmações positivas serão em Português… : )

Você tem uma experiência semelhante? Como as afirmações positivas poderiam ajudá-lo em sua própria vida? Deixe-nos um comentário ou envie um email: contribuicao@aluzdodia.com

Anúncios

Conhecimento, disciplina e mitigação de riscos

Por Allyson Bastos

“Se você deseja saber o que é realmente risco, procure o espelho mais próximo. O que olha de volta pra você é o risco.” (Jason Zweig)

Engana-se quem imagina que a receita para o sucesso nas finanças seja a realização de negócios espetaculares que garantam lucros astronômicos da noite para o dia, geralmente associados a grandes riscos. Isso pode até acontecer vez ou outra, mas definitivamente não é a regra geral.

O caminho para a construção de um sólido patrimônio, não digo eu, mas sim os grandes entendidos do assunto, é a conjugação de um método de investimento adequado ao seu perfil com a disciplina necessária para manter-se fiel a ele, tanto nos momentos de crise, quanto nos de euforia financeira.

Mudanças de plano são saudáveis e correções na rota muitas vezes são essenciais para garantir que o objetivo será alcançado. É preciso cuidado, entretanto, para que a ganância não nos leve na direção contrária à dos nossos objetivos.

O primeiro investimento a ser feito na busca pela prosperidade é no conhecimento. Há, hoje, farto material gratuito disponível na internet sobre educação financeira. E, de modo geral, todo conhecimento absorvido, seja na área da economia, filosofia, história, psicologia, artes ou quaisquer outras, pode nos proporcionar um valioso instrumental para a tomada de decisões mais inteligentes. Não é preciso se tornar um profissional das finanças, mas há que se atentar para o fato de que, à medida que o seu patrimônio aumenta, mais responsabilidade recai sobre suas decisões de investimento. E uma decisão precipitada poderá acarretar grandes perdas.

A recuperação de uma perda de 50% do patrimônio exige um crescimento de 100% da parcela que restou. Nada fácil, certo? É importante, então, que nos concentremos em errar o mínimo possível, ainda que isso signifique obter retornos moderados. Retornos moderados mas constantes são muito mais poderosos que grandes ganhos com grandes perdas intercaladas.

Portanto, nada de ter pressa em aproveitar essa ou aquela oportunidade de investimento. Devemos optar sempre e serenamente pelas opções que nos pareçam mais adequadas ao nosso perfil, à nossa estratégia e ao nosso grau de conhecimento no momento. Não invista em ações apenas por ser um modismo impulsionado por histórias de garotos-prodígio que multiplicaram rapidamente o capital investido. Tenha certeza que a mídia não se interessa pelas muito mais frequentes histórias de pessoas que inadvertidamente amargaram prejuízos consideráveis com imprudentes especulações em bolsas de valores. Invista sim nesse mercado, se já detém conhecimento suficiente para entender seu funcionamento, e consegue traçar perspectivas realistas de suas possibilidades de retorno e dos riscos envolvidos.

Estude as várias espécies de investimentos e, quando se sentir à vontade, escolha as opções mais adequadas ao seu plano de independência financeira, certo de que não há investimento perfeito.

Esteja certo que o grau de risco de nossas decisões está mais associado ao nosso nível de conhecimento e à nossa disiplina do que às espécies de investimento propriamente ditas.

Devemos nos atentar especialmente para o risco representado pela falta de disciplina e pelo comportamento impulsivo. Tal risco tende a se tornar mais expressivo na medida em que o saldo de recursos financeiros à disposição aumenta. É nesse momento que as pressões por consumo de bens de alto valor começam a ficar mais intensas. Daí vem aquela vontade de trocar o carro, comprar um sítio, aumentar o padrão de vida… A falta de fidelidade para com a estratégia de investimento, ou uma vulnerabilidade latente a essas demandas consumistas podem acarretar uma grande dissipação da energia empregada ao longo dos anos, dificultando, ou mesmo inviabilizando, o alcance dos objetivos inicialmente propostos.

Concluo reforçando que há que se ter sempre em mente que a busca pela independência financeira não deve ter por finalidade multiplicar as necessidades de consumo, mas sim propiciar libertação e bem-estar. E conjugando, nessa caminhada, passos firmes e conscientes, busca constante por conhecimento, disciplina e consumo sustentável, a tão almejada qualidade de vida deixa de fazer parte de um futuro distante, existente apenas em nossos pensamentos, para ser  conquistada e experimentada a cada dia.

A liberdade zen: parar de fugir

Não há caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho” – Sentença Zen

A vida dentro de um monastério zen pode se tornar muito chata, muito aborrecida, se você vai pra lá esperando por milagres cinematográficos ou experiências extraordinárias. Eu não sei se vocês sabem, mas a rotina monástica é bastante árdua: acorda-se muito cedo, geralmente por volta das quatro da manhã, medita-se em silêncio por umas duas horas, come-se a mesma papa de arroz todas as manhãs e depois todos vão trabalhar. Cortar grama, limpar o chão, lavar o banheiro e cozinhar, de preferência sem tagarelice e com a atenção plena de não deixar uma partícula de poeira sem ser varrida. Ao meio dia há uma refeição frugal, seguida de um breve período de descanso. Na parte da tarde vota-se ao trabalho, que às vezes é interrompido por alguma breve exposição do Dharma (palestra de ensinamentos), seguido de um banho rápido. Uma sopa leve antecede as duas últimas sessões de meditação do dia, e às nove da noite todos estão em suas camas dormindo. Essa rotina só é quebrada nos períodos intensivos de meditação, que ocorrem uma vez por mês, quando se pode ficar sentado por 12 ou 14 horas por dia. Fora esses períodos, a rotina é repetida todos os dias. Não há sábado, não há domingo ou feriado. Não há para onde ir. Não há anestesia. Uma semana, um mês, um ano.

Tem pessoas que procuram um mosteiro ou uma prática espiritual qualquer como fuga de um momento particular de tristeza ou sofrimento que estão vivendo, na esperança de assim encontrar pronto a felicidade ou um bálsamo que possa aliviar esse período de dificuldade. Às vezes também pode ser que essa fuga aconteça no trabalho, ou fazendo uma viagem de turismo. Normalmente a rota da fuga é: evitar a dor, buscar o prazer. É como se fosse uma transferência eterna: aqui não está bom, ali está. Mas quando chegamos ali, já não está bom de novo. Sempre falta alguma coisa, sempre tem algo errado, nunca estamos satisfeitos. E por quê? Simplesmente porque estamos carregando nossa infelicidade dentro de nós, de um lugar ao outro, e procurando por felicidade nas coisas externas. Com este método, realmente nada existe que seja capaz de extinguir nosso aborrecimento ou tristeza.

Mas quando chegamos a um templo zen algo diferente acontece. Não há para onde fugir. Não há desculpas. Acordou? Lave o rosto, vá para o salão de meditação e sente-se de frente para a parede. Comeu? Lave a tigela. A grama está grande? Pegue o cortador e faça o serviço. Começamos a aprender a fazer as pazes com o mundo ao nosso redor, e fazer as pazes com ele significa cuidar do que é necessário receber cuidado, significa fazer o que é necessário fazer em cada momento. E, fazendo isso, algo estranho e absolutamente libertador começa a ocorrer: começamos a nos esquecer de nós mesmos. E quando nos esquecemos de nós mesmos, começamos a parar de fugir e de sofrer. Começamos a parar de sofrer porque paramos de fugir. Começamos, finalmente, a perceber que o tamanho do sofrimento que pensávamos ter era proporcional ao tamanho do nosso autocentramento.

As palavras vão se tornando escassas. Não por tédio, mas por profunda paz. Não é necessário discutir, convencer ou explicar. Os olhos vão brilhando mais. A papa de arroz, a princípio sem gosto, começa a ficar saborosa. Uma pequena florzinha ao sol se move ao vento, e é motivo de uma gargalhada. Não é loucura não – é a tal da felicidade que sempre havíamos procurado da forma mais complicada, da forma mais enviesada nas coisas fora de nós. Estava ali, na nossa frente o tempo todo. A ilusão de que lugares, pessoas ou coisas diferentes podem nos dar essa profunda experiência cai então por terra. Essa tal felicidade sempre esteve disponível dentro de nós, para ser usada em cada passo do caminho. Para sorrir, seu rosto lhe foi dado de presente; mas você descobre que a risada é você que tem que dar.

Eu sei que é difícil para a maioria das pessoas passar por um tempo nessa experiência, isoladas dentro de um monastério. Mas a lição da história: é possível parar de fugir aí mesmo onde você está e experimentar uma liberdade diferente. Dentro da sua vida profissional. Dentro da sua vida familiar. Abrace sua vida. Cuide do mundo ao redor, a cada momento. Esqueça de você mesmo quando se sentir egoísta demais. Mergulhe no seu ordinário e não espere por nada extraordinário, afinal o mistério de estar vivo neste momento já é suficientemente extraordinário. No fim das contas, um e outro são apenas rótulos de linguagem. No fim das contas, a florzinha está na sua frente e a risada é por sua conta.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen 

por

%d blogueiros gostam disto: