Atenção, ação, administração e autoconhecimento

Eu já apresentei no ALD o sistema A4 de gestão pessoal, que funciona através do método dos 4 “As”: atenção plena, ação não reativa, administração de pontos críticos e autoconhecimento (ou aperfeiçoamento). O A4 é resultado da combinação entre a milenar sabedoria oriental e as técnicas de gestão mais eficientes que existem na atualidade, sendo que ele funciona priorizando o cultivo da mente iluminada, que nada mais é do que a mente equilibrada – chave para o sucesso em qualquer área. Hoje eu gostaria de explicar um pouco mais sobre cada “A” desse instrumento de orientação, dessa bússola de navegação que pode ser considerado o sistema A4.

O primeiro aspecto é a atenção plena. Está no leste da bússola, ponto que representa o local onde nasce o sol para nós, ocidentais. Por atenção plena entenda-se a capacidade de concentração, de focalização no exato momento presente, sem distrações. É a capacidade que nos permite focar nas metas e no que deve ser realizado. É o alinhamento entre mente e corpo necessário para aproveitar ao máximo e com maestria nossas habilidades e competências individuais. Um exercício muito usado para desenvolver a atenção plena pode ser, por exemplo, a meditação baseada nos ritmos respiratórios.

O segundo aspecto é a ação não reativa. Se localiza no ponto sul, que é o ponto que traz vitalidade. É a capacidade de se posicionar adequadamente no mundo. Ação não reativa não significa passividade, veja que a palavra ação significa fazer algo. Só que ao invés de reagir impulsivamente frente às diferentes situações que se apresentam, passamos a agir com clareza de consciência, o que significa clareza de movimentos. Às vezes pode ser um movimento de defesa, outras vezes pode ser um movimento de posicionamento enérgico. O treinamento constante da ação não reativa estimula a manutenção do equilíbrio emocional, dentre outros efeitos positivos.

O terceiro aspecto é administração de pontos críticos. O ponto oeste sempre foi traduzido como a direção que necessita de vigília e cuidados, onde o sol se põe seguido da noite. Sempre existem pontos críticos nas coisas ao redor, nas pessoas, situações e em nós mesmos, pontos de fraqueza que merecem cuidados. O terceiro aspecto é a capacidade de administração desses pontos, para minimizar seus efeitos negativos ou aproveitar a lacuna de um ponto crítico para promover um crescimento qualquer. É a habilidade de não perder a mente equilibrada nos pontos críticos.

O quarto aspecto é aperfeiçoamento pela prática, o autoconhecimento. É nosso norte, nossa direção guia. Uma característica da mente equilibrada é justamente se manter equilibrada através da aplicação prática de suas qualidades; isso se chama aperfeiçoamento constante. Os pontos fortes são cada vez mais aprimorados, os pontos críticos vão sendo transmutados. O uso das habilidades e competências naturais sustenta, então, a realização do caminho aspirado. Aperfeiçoamento gera autoconhecimento, autoconhecimento gera aperfeiçoamento.

Na verdade, embora os quatros pontos tenham sido apresentados didaticamente de forma separada neste texto, é importante reconhecer que eles funcionam juntos e ao mesmo tempo. Não é possível separá-los na prática, assim como não é possível isolar os 4 pontos cardeais um do outro; no momento em que exercitamos atenção plena a nossa ação torna-se automaticamente menos reativa, o que nos confere maior poder de administração na situação, e tudo isso junto gera aperfeiçoamento e autoconhecimento. Claro, em dado momento podemos navegar mais em uma direção do que outra, mas ainda assim as demais estão atuando.

Nos próximos posts sobre o A4 eu vou detalhar mais cada um dos 4 pontos básicos. Se você tem dúvidas, não hesite em nos mandar um email. Vamos trocando idéias sobre como usar essa bússola. Mas o mais importante de tudo é: o caminho só existe quando você passa.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen.

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Equilíbrio emocional

Não acredito em equilíbrio emocional estático. O conceito de equilíbrio estático vem da Física, e ocorre quando a soma das forças que atuam em um corpo é igual a zero, estando esse corpo parado. A caneta na sua mesa, por exemplo. Ela está em equilíbrio estático, paradinha, sem reclamar da vida de ser caneta. Mas ela é uma caneta, e não uma pessoa que fala, ouve, tem sentimentos e toda uma vida emocional. Então, falar de equilíbrio emocional é completamente diferente de falar em equilíbrio na Física. No entanto, podemos fazer umas analogias interessantes. Quer ver? Um outro conceito físico é do equilíbrio dinâmico. Nele, um corpo está em movimento, mas a soma das forças que atuam nele é tambem igual zero. É tipo o carro que se movimenta numa estrada reta, e com velocidade sempre constante. A força de resistência do ar é contrabalanceada com a força que o motor transfere constantemente para as rodas, e o carro movimenta-se em perfeito equilíbrio dinâmico.

Equilíbrio emocional é, por natureza, dinâmico. Temos que, constantemente, mantê-lo através do uso de sentimentos, ações e forças balanceadoras. Há que se ponderar, sempre, há que se adaptar, nada é estático. Nossos desejos, nossos sentimentos e emoções mudam de peso, mudam de perspectiva – e o dos outros também. Alguém fez uma grosseria, o cara te fechou no trânsito, aquele sonho cor de rosa desbotou, estão te bajulando demais? Você se mantém na condição de equilíbrio emocional ou não, depende de como agir. Nunca vi ninguém se equilibrar na corda bamba sem ser flexível. Rigidez demais? Vai pro chão. Mas tudo bem; caiu, levanta e sacode a poeira, afinal a corda esticada é seu dia-a-dia, você não vai ficar de vítima culpando a gravidade terrestre e nada como um dia depois de uma boa noite de sono.

Mas olha só: reatividade nunca ajuda. Movimentos bruscos tampouco, assim como falta de delicadeza. Respiração, postura e ação consciente pra dar o recado. Às vezes nem precisa falar nada, basta não retribuir. Pura depuração interior. Aliás, o princípio de andar de bicicleta: vai cair para um lado, vira o guidão pro outro. Ah, meu chapa, isso sim é uma arte, equilíbrio emocional em plena época do culto ao ego, do culto ao individualismo e do homem-objeto. Mas é gratificante quando vamos conseguindo passar a maior parte do tempo em cima da corda e não beijando o chão. Isso é cuidar de si e dos outros também.

O princípio do equilíbrio emocional, nas palavras de Jean Paul Sartre: “O importante não é  aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Talvez por isso mesmo, com certa ironia e humor, o filósofo também afirmou: “O inferno são os outros”. Equilíbrio emocional tem a ver com contrabalancear as nossas demandas com as demandas alheias. Equilíbrio dinâmico.

Prenda a respiração e veja aí que aula fantástica de equilíbrio dinâmico:

Inacreditável, não? Mas é possível de ser realizado. O que mais gosto é que tudo é feito com movimento sutil, as estacas girando lentamente enquanto vão sendo equilibradas. Eu diria que este movimento é imprescindível para o equilibrista, sem ele talvez não fosse possível a façanha. Essa é a essência, nada estático demais funciona, é necessário sempre se movimentar, se adaptar, ceder, ponderar, cuidar, flexibilizar – tudo com a maior atenção possível, sem reatividade, sem movimento brusco.

Deu muito bem o recado. E no final, ainda de quebra, agradece com uma reverência. Isso, meu chapa, isso sim é arte.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen.

Finanças, consumo e bem-estar

Por Allyson Bastos

No Fedro, de Platão, faz calor e Socrates está sob um carvalho. Ele encontra uma fonte, refresca as mãos, repousa à sombra e encontra ali a perfeita consonância entre si e o que o circunda. Isto é dar “sentido” às coisas. Sócrates não precisa de nada mais, não é como Onassis ou Trump, que cortam o mar com seus iates e mil acessórios” (O Ócio Criativo, de Domenico de Masi).

Talvez duas facetas da paradoxal inquietação humana nos tempos atuais sejam a ansiedade financeira e a busca desesperada pelo bem-estar espiritual.

A ansiedade financeira pode ser entendida como um produto da cultura do consumo e do imediatismo, que nos pressiona a termos, hoje, mais do que podemos, queremos e, principalmente, mais do que precisamos. É fruto, também, da pretensa eleição do dinheiro como a mais relevante unidade de medida de valor de todas as possibilidades de realização do ser humano. E assim, vende-se falsamente a ideia de que sensações, conhecimentos, experiências e relações estão cada vez mais à nossa disposição… desde que, e apenas na medida em que, possamos pagar por isso.

E a busca pela satisfação das infindáveis demandas impostas deságua, muitas vezes, no consumo desenfreado. Daí vem o endividamento, que ao comprimir ainda mais a capacidade de sustentar o consumo, gera mais ansiedade, alimentando um círculo vicioso.

Da percepção do desajuste que há entre as necessidades naturais próprias do ser humano e os modos de satisfação vazios e desprovidos de sentido impostos pela cultura do consumo e do imediatismo é que surge a busca desesperada por fórmulas mágicas para se alcançar o equilíbrio espiritual, como uma espécie de fuga da realidade.

Primeiramente, preciso dizer que sou cético quanto a fórmulas que prometem resolver as ansiedades do mundo moderno tão somente pela ação no plano espiritual ou psicológico. Do mesmo modo, tenho convicção que ninguém se torna equilibrado em sua plenitude tão somente por ter um bom emprego, com um alto salário, enfim, por estar “bem resolvido” no plano material.

Na verdade, creio que a busca conjunta pelos equilíbrios material e espiritual tem um grande potencial. Uma vida espiritual e emocionalmente equilibrada favorece o desenvolvimento da inteligência financeira na medida em que fortalece nossa imunidade contra os apelos consumistas. Por outro lado, uma inteligência financeira bem exercitada nos garante melhores condições materiais de nos dedicarmos mais ao nosso desenvolvimento espiritual. Forma-se, então, um círculo virtuoso.

É preciso, pois, aceitar que o desejo de prosperar materialmente pode e deve ser conjugado com a busca pelo desenvolvimento interior. Não há pecado algum em buscar melhores condições financeiras. Pelo contrário, a riqueza é sempre bem-vinda quando não direcionada simplesmente ao “ter mais”, mas sim ao “ser em paz”.

Na busca por uma vida sustentável, temos que nos esforçar para precisar de menos. Aquela roupa caríssima é realmente necessária neste momento? Realmente preciso trocar de carro agora? Preciso mesmo viver tanto das aparências? Um espírito evoluído certamente tem mais condições de refrear esses impulsos, por possuir a lúcida percepção de que o valor das coisas está não no “quanto custam”, mas sim no “quanto significam”.

Não prego uma visão radical de que devamos nos privar das coisas boas da vida material. Não tenho tal desprendimento e acredito que muito dificilmente o terei. Penso que devemos apenas cultivar o consumo consciente. Aquele que, de fato, nos traz bem-estar sem efeitos colaterais.

Concomitantemente ao esforço por nutrir menos demandas, é salutar que busquemos informação, que aprendamos a lidar com o dinheiro, com nossas finanças pessoais, mas não a ponto de ocuparmos todo o nosso tempo com números, índices, propostas de investimentos etc. Digo que devemos dedicar às finanças apenas o tempo necessário para garantir que não precisaremos nos preocupar com dinheiro. E isso basta.

Aí reside a nobre missão da educação financeira: propiciar condições materiais para que possamos viver em paz, desfrutando plenamente os bons momentos que realmente nos engrandecem espiritualmente.

Para terminar, voltemos à cena descrita no início deste texto.  O filósofo realmente teria a paz de espírito necessária para encontrar a perfeita consonância entre si e aquilo que o circundava naquele momento de extrema simplicidade (mas de absoluta satisfação), caso tivesse prestações vencendo, dívidas acumuladas e credores batendo à sua porta?

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