Arquivo da categoria: Inteligência Social

Com a palavra…

Por Márcia Cândido

Eu comunico, tu comunicas. Todos nós nos comunicamos. Mas, por que? Em nome da nossa sobrevivência, precisamos trocar informações. Precisamos nos sentir parte de uma esfera. Tudo isso, porque o ser humano não nasceu para ser só. Nasceu para compartilhar seu conhecimento com os demais. Criar uma rede e crescer. E tal como uma rede de pesca, que garante a sobrevivência de toda uma comunidade, alimentando com seu pescado inúmeras pessoas, a rede de palavras nos transporta para outros ‘universos’. Por meio das palavras, nos entendemos, nos fazemos compreender, transmitimos nossos anseios e alimentamos desejos.

E como fica o silêncio neste contexto?

Só mesmo quem já experimentou a riqueza destes momentos para apreciar a comunicação sem palavras. Sobrevivemos da mesma forma, porque aprendemos a captar da dimensão tempo o que é preciso ser feito. Sem palavras, olhares bastam. Gestos substituem o que não é dito. E, com o tempo (mais uma vez, esta dimensão nos pautando!), nada precisa ser dito, porque entendemos algo muito sutil: não estamos sozinhos no universo. Fazemos parte de um todo. Assim, o que o outro sente, também sentimos. O que o outro precisa, também precisamos. O que o outro quer, também queremos. Somos um com o universo. É o conceito da interdependência. Preciso de mais palavras?

Até nosso próximo encontro!

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A fala tem poder, a escuta também

A comunicação interpessoal bem feita, transparente e eficiente é uma arte, é uma das poderosas ferramentas da Inteligência Social, capaz de promover a negociação de conflitos, o estabelecimento mútuo de acordos e metas, o entendimento de perspectivas diferentes e o cultivo da convivência pacificada. Palavras têm poder e podem curar, podem ajudar; para isso ocorrer, o exercício da escuta é igualmente necessário.

O primeiro aspecto de uma comunicação interpessoal eficiente é, assim, saber escutar. Hoje em dia existem diversos cursos de oratória, todo mundo quer falar, quer desabafar; com isso, a conseqüência é que a demanda de ter bons ouvidos é essencial para não bloquear a comunicação, que sempre deve ser um canal que transmite em duas direções. É importante saber falar, mas é mais importante saber escutar. Deveríamos freqüentar mais cursos de “escutatória”, se é que isso existe, e se não existe vou até criar um (rsrsrs…). Então a questão fundamental é que, para me comunicar bem, o primeiro passo é entender a língua na qual meu interlocutor fala e o que está sendo falado. É uma linguagem emocional? Formal? O que sua fala traz? Aquilo que está sendo dito está claro pra mim? Se conseguirmos discernir estes pontos, então já é o começo da comunicação.

Escute com atenção. Muitos fingem escutar e soltam aqueles típicos “ahan…” ou “ah, sei…”, mas, enquanto isso, já estão maquinando o que vão dizer para “pegar” o outro na próxima jogada. Não se trata de um jogo, ninguém irá perder ou ganhar sozinho. Ou os dois ganham ou os dois perdem. Não se trata de discutir e defender pontos de vista como se fosse uma guerra, porque quando fazemos isso não estamos comprometidos com a verdade, mas sim estamos comprometidos em ganhar a discussão, e isso não traz nenhum crescimento para ninguém. A discussão é inútil, ninguém ganha.

Continue ouvindo. Evite interromper constantemente seu interlocutor. Deixe que ele esvazie seu conteúdo, às vezes as pessoas estão transbordando e precisam dar vazão a este conteúdo. Você não vai conseguir colocar mais chá numa xícara que está cheia. Se a pessoa fugir do assunto ou apresentar algum ponto contraditório ou obscuro em seu discurso, não ataque, não critique. Isso jamais funcionou. Ao invés, use a técnica da “retificação subjetiva”: faça uma pergunta retificadora do tipo “mas como é isso mesmo?” ou “eu não entendi bem, pode me explicar de novo?” e deixe que ele mesmo reformule o ponto.

Aguce seus ouvidos. Sempre há um momento propício para você começar a falar, geralmente há uma pausa respiratória no diálogo que significa ser um momento em que seu interlocutor está menos tenso. Este é o ponto propício, mas lembre-se de verter sua fala com delicadeza e precisão como se estivesse colocando chá em uma xícara de porcelana delicada. Não exceda o limite da borda, não verta rápido demais, lembre-se sempre que o volume vertido e a velocidade de vazão devem ser respeitados. Muitas vezes poucas palavras causam mais efeito do que uma enxurrada delas.

Seja claro no que disser, e certifique-se de que foi entendido. Esse é um ponto crítico, pois cada um entende de acordo com sua própria linguagem interna: pergunte a um alemão que som faz um cachorro latindo e ele responderá “wolf, wolf”. Isso é sério, o “au, au” é só em português. Mas não tente fazer o outro mudar de opinião ou a aceitar suas convicções; não gaste energia com isso, pois não depende de você. Se for o caso, isso acontece naturalmente, sem violência ou uso de força.

A comunicação tem mais a ver com se colocar no lugar do outro e tentar entender como ele vê o mundo. Apenas quando entendo o outro é que tenho uma chance de colocar o que necessito dizer com igual entendimento e aceitação. E quando o outro se sente entendido, a confiança na comunicação aumenta. Saber falar é saber escutar.

Votos de luz aos ouvidos,

Gustavo Mokusen. 

Relacionamentos e ajuda

“Querido Gustavo,
Parabéns por A luz do Dia, está muito bom !
Gostaria de discutir um pouco sobre este texto, “A mente e a Cartola Mágica”. Sabe, tenho trabalhado em atendimentos de urgência a pessoas que buscam o autoextermínio como saída para seus problemas. E fiquei pensando na história do toco de madeira. É aquilo ali, mas… e a doença? Tenho acompanhado muitos casos onde a medicalização tem apagado, me parece, a capacidade criativa, ou melhor, a má administração desta medicação bem como um sistema ainda muito falho na saúde. Contudo, ela também é necessária muitas vezes. E no meio disso, desse sistema que se transforma devagar, a urgência de uma angústia ali na sua frente. Muitas vezes só resta um olhar, um olhar de encontro com aquela pessoa na minha frente. É isso que sobra ao esculpir aquele momento. E pode ser transformador. Entretanto, em tão curto tempo, é realmente possível ajudar alguém doente a ver a mente como uma cartola mágica?  Me parece tão raro. Mas não deveria ser, se esta é a natureza das coisas…fico confusa.”
Excelente questão. Sim, no mundo temos tocos de madeira, mas também temos granito, mármore, plástico, ouro, bronze… e tem argila, tem barro, tem cerâmica… Você vai usar a mesma técnica, vai empregar sempre o martelo e talhadeira para qualquer matéria prima? Não, você não pode fazer sempre a mesma coisa em situações e condições diferentes, sob o risco de perder a oportunidade que tem nas mãos ou mesmo danificar seu precioso material. Essa é a arte dos relacionamentos. E, além disso, há outro ponto. Às vezes podemos mostrar como a cartola mágica funciona, mas às vezes devemos fazer a mágica por nós mesmos. Entende? Há situações em que é possível mostrar como nossa mente funciona, e o nosso depoimento somado às nossas ações podem provocar mudanças de comportamento e de perspectiva nas pessoas que nos cercam. Mas em outras situações pode ser mais urgente uma ação direta nossa, ou para aliviar um sofrimento ou para equilibrar algum aspecto crítico.
Uma pessoa doente necessita de ajuda. Ela não está, digamos, em condições muito apropriadas para esculpir ou aprender mágica como prioridade do momento. Pode até ser que isso vá acontecendo naturalmente durante o processo de tratamento, mas o foco é o tratamento. Aí, quem faz a mágica com a cartola são as pessoas que ajudam. A palavra “relação” vem do latim “relatío ónis” e a tradução literal seria: ação de dar em retorno. Agir e doar em retorno, agir para servir. “Dar em retorno o quê, se eu não ganhei nada?”, assim é o pensamento comum. Mas é um pensamento ainda muito iludido, muito elementar. Nós ganhamos a vida do Universo, e todas as nossas habilidades, toda forma de energia que usamos, toda nossa inteligência e capacidade de discernimento simplesmente são presentes dados a nós. Então, coloca-se como uma necessidade natural ajudar sempre que pudermos, oferecendo nossas melhores mágicas nas relações nas quais estamos envolvidos. Às vezes ajudamos, muitas vezes somos ajudados.
O legal da sua questão é que ela já traz a própria resposta. “É isso que sobra ao esculpir aquele momento. E pode ser transformador. Entretanto, em tão curto tempo, é realmente possível ajudar alguém doente a ver a mente como uma cartola mágica?”  Sim, é possível que você ajude uma pessoa mesmo neste curto espaço de tempo e contato. Se a pessoa não aprender a fazer mágica, ela pode ao menos se encantar com as que você fizer. E pode ser transformador, não duvide das suas próprias palavras. Você faz com sua cartola aquilo que acredita fazer.
Votos de luz, e obrigado pela questão,
Gustavo Mokusen.