Cada gota do agora

momento-presenteMeditar é a arte de dar-se conta de si mesmo, em qualquer situação ou sob quaisquer condições. Por isso, não existe meditação fácil ou difícil, comum ou especial: existe apenas aquilo que é como é, ou seja, nossa natureza essencial ocorrendo instante após instante dentro da realidade. E essa natureza, por assim dizer, já é completa e pacificada em sua base.

Partindo desta perspectiva compreendemos que não seria muito adequado encarar a prática do zazen, da meditação sentada, como um meio intermediário para se alcançar algum tipo de resultado, seja ele qual for. É claro que, intrinsecamente à prática da meditação, vários resultados aparecerão como consequência dessa prática; mas, fundamentalmente, nós não os buscamos de forma deliberada. Tudo o que fazemos é realizar o ato de sentar como ato de sentar, com plena atenção, e nessa realização já entramos em contato direto com o núcleo da experiência do momento presente. Praticando desta forma, e ampliando a prática para nossas atividades cotidianas, percebemos que podemos praticar a meditação não apenas durante o ato de sentar, mas em todos os demais atos rotineiros, como o ato de varrer o chão, tomar o chá ou ler esse texto. Por tal razão, também poderíamos dizer que zazen é realizar o ato de varrer o chão pelo do ato de varrer o chão.

Esse é o cerne do que se chama de atenção plena – um dos oito aspectos do caminho óctuplo budista. A forma correta de se estabelecer a atenção plena foi minuciosamente ensinada pelo Buddha, e isso ocorre por meio da concentração colocada na respiração e nos quatro fundamentos da atenção plena: corpo, sensações, mente e objetos mentais. Praticando assim, entramos em contato direto com a experiência pura de ser no momento presente, seja essa experiência tal qual for. O ponto chave de harmonização reside no fato de não alimentarmos nem o apego e nem a aversão nessa prática: o que quer que apareça, independentemente se gostamos ou não disso, nós o acolhemos no seio da contemplação direta. O acolhimento é interessante, porque está além do apego e da repulsa e provoca harmonia. Tal como uma mãe acolhe uma criança que chora, e essa criança se acalma pelo simples acolhimento que recebe, assim também, ao acolhermos nossas experiências subjetivas e objetivas, estamos cultivando o terreno para a calma e a pacificação de corpo e mente. Acolher significa dar-se conta, sem aversão e sem identificação. A energia da atenção plena colocada no acolhimento traz a harmonização necessária ao momento em que o fenômeno emerge. A criança chora, a mãe acolhe e a crise de choro, que é uma descarga emocional, tende a se acalmar.

Em síntese, a prática budista é a prática de nos harmonizarmos com a realidade através da atenção plena e do acolhimento, que é outro nome para aceitação consciente. Como vemos, o acolhimento – ou a aceitação –, no contexto da prática, nada possui de passividade e requer um treinamento consciente de corpo e mente para que possamos desfrutar do presente momento-presente. Em cada gota do agora, o agora.

Gustavo Mokusen.

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2 comentários em “Cada gota do agora”

  1. Suas palavras transmitem muita sabedoria e paz,por favor continue o excelente trabalho.Gostaria que estas palavras fossem ouvidas por todos os seres… compreendi que o zen é o caminho que nos leva o compreender a nossa natureza de Buda,e como diria Shunryu suzuki roshi: o zen nos leva à mente de principiante,mente de possibilidades,como o azul incessante no céu.

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