Os Seis Conjuntos de Seis

No último sábado o GEB (Grupo de Estudos Budistas) se reuniu para estudar mais um sutra (discurso) budista. Dessa vez nosso foco foi o Sutta 148 do Majjhima Nikaya (Cânone Pali): Os seis conjuntos de seis. Trata-se de um profundo discurso do Buddha a respeito do processo de formação de nossos sentidos físicos, percepções, consciência e objetos mentais, bem como do caminho para a libertação do sofrimento proveniente do apego, da ignorância e da aversão.

b2Antes de apresentar o link do arquivo do sutra e de sugerir sua leitura e estudo, gostaria de fazer algumas observações.

O texto foi traduzido por mim da publicação em inglês, que por sua vez veio diretamente da versão em páli através da tradução de Bhikkhu Nanamoli e Bhikkhu Bodhi, dois monges reconhecidos mundialmente pelos trabalhos de divulgação do Budismo.

O Buddha ensinou que “Tanha“, um termo em páli que significa literalmente “sede”, é a raiz do sofrimento humano, que por sua vez é representado na língua páli por “Dukkha“. Estes dois termos foram usados constantemente nos discursos do Buddha a seus discípulos – os termos tanha e dukkha – para mostrar o processo do sofrimento e sua libertação.

Creio que a maioria dos textos em português sobre budismo traduz “tanha” por “desejo”. Após cuidadoso exame de literatura preferi não seguir essa tendência, pois, sob meu ponto de vista, é possível que algum grau de confusão venha a ocorrer nesta linha. Por exemplo, observando o ensinamento contido nas Quatro Nobres Verdades: embora possamos afirmar que alguns tipos de desejos sejam certamente fonte de sofrimento, tais como os egocentrados, não podemos, entretanto, assumir que a total extinção dos desejos seja algo realmente possível, pelo menos num primeiro momento – até mesmo porque precisaríamos do desejo de trilhar o caminho budista para que isso fosse possível. Uma vez que os dois monges acima citados escolheram a palavra “craving” em inglês para representar “tanha“, me pareceu bastante razoável utilizar o termo “ânsia” no lugar de “desejo”.

Em primeiro lugar, e à luz do Sutra 148 (que é o foco deste momento) vemos que  “tanha” é a sexta classe dos seis, e se manifesta em três situações possíveis em relação a um objeto: apego, aversão ou ignorância (nem apego e nem aversão). Ora, em nossa cultura o “desejo” é bastante referente ao ato do apego, da posse, mas nem tanto nos dois outros casos. Já “ânsia” é mais abrangente e se molda com mais clareza nos casos em que queremos fugir da dor ou nos manter dentro da zona de conforto da ignorância (ansiedade no geral). Em segundo lugar, a ansiedade resultante do conflito bipolar entre a busca da satisfação e a inerente condição de insatisfatoriedade de todas as outras cinco classes apresentadas no Sutra 148 já é, em si, a instalação do próprio processo do sofrimento – “Dukkha”, ou insatisfatoriedade – enquanto que a instância do desejo ainda traz consigo a premissa ilusória de sua possibilidade de satisfação. Inclusive, não seria essa “ansiedade” crônica justamente o mal do nosso tempo? Um labirinto de ilusão desenhado pelos traços do desejo, que busca incessantemente uma saída sem nunca a encontrar?

Assim, me pareceu mais adequado o uso da palavra “ânsia”, devido à sua maior abrangência no processo estrutural da formação do sofrimento humano. Abaixo, o link para o Sutra 148 e, ainda, uma tabela que facilitará a compreensão do mesmo.

Majjhima Nikaya 148 – Os seis conjuntos de seis

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Gustavo Mokusen.

 

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3 opiniões sobre “Os Seis Conjuntos de Seis”

  1. Olá Gustavo. Assistí sua palestra na Loja Vila Rica (AMORC) e gostaria de ver novamente aquele esquema onde você mostra o ciclo aversão/apego e ânsia. Na ocasião não pude anotar. Queria rever os quatro aspectos.
    Att, Claudia

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  2. Gustavo, parabéns pela sua capacidade de concisão, e amor aos ensinamentos do Buddha, facilitando a todos nós o acesso a eles e à sua compreensão.
    Abçs,
    Eufrásia

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