3 venenos e 3 antídotos

Quando você está inflamado, nervoso, discutindo, você não está comprometido com os fatos, com a verdade, você está comprometido com a vitória, com ganhar a discussão a qualquer preço. Sua mente está cega, blindada, furiosa, tendenciosa e, dessa perspectiva distorcida, o mundo ao redor será sempre uma ameaça constante. Você quer afastar essa ameaça, pois ela lhe incomoda, ela representa tudo aquilo que você não gosta ou não concorda. O Budismo chama esse quadro mental de a “mente raivosa”. A raiva é um dos três venenos da mente, segundo os ensinamentos budistas. Os outros dois são a ganância e a ignorância.

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A mente da ganância é aquela mente que se apega ferrenhamente a algum objeto dos sentidos ou da consciência, e quer conquistá-lo a qualquer custo, quer acumular, reter, tomar, pegar, possuir. A ganância é movida pelo desejo desenfreado e pelo apego àquilo que gostamos ou achamos que nos fará bem.

É interessante notar como a ganância se relaciona com a raiva. Quando não podemos manter o que desejamos, ou quando aquilo que possuímos nos é retirado por algum motivo, então é possível aparecer um sentimento de raiva. Ou seja, quando nossa ganância é contrariada nos sentimos raivosos. Ainda, existem inúmeras situações nas quais somos obrigados a conviver com algo que não gostamos; uma pessoa que nos irrita, um sentimento de contrariedade ou alguma outra coisa que não aceitamos. Isso seria mais ou menos a ganância ao inverso, o que também é campo para a mente raivosa aparecer.

O terceiro veneno mental é a ignorância, e é ela que mantém esse ciclo vicioso entre raiva e ganância operando. Essa ignorância diz respeito ao desconhecimento ou não aceitação da impermanência, e a ignorância é a ilusão que sustentamos de querer manter tudo como desejamos para sempre. Acreditamos nessa premissa, de que as coisas devem durar para sempre e do jeito como queremos. Essa é nossa ignorância fundamental, a não aceitação da impermanência como base fundamental do mundo em que vivemos. Ela tem muito a ver com a noção de controle, de desejo de controle da realidade, o que também pode ser entendido como um tipo de ganância.

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Então, de fato, os três venenos da mente se inter-relacionam e se alimentam mutuamente. A ignorância, que é a ilusão de não aceitar a impermanência, nos deixa descontentes e sentimos raiva quando algo não sai como queremos, e para compensar isso desenvolvemos maior ganância a fim de obter o que julgamos necessário. Isso tudo reforça mais a ilusão do apego e a não aceitação da impermanência. Assim, é um ciclo que opera com três aspectos simultâneos e concatenados.

Ao mesmo tempo, o ensinamento de Buddha traz uma espécie de antídoto para os venenos da mente. Existe o que chamamos de “os três selos do Dharma”, que seriam os três aspectos fundamentais da prática e da compreensão budista sobre a realidade. Os três selos do Dharma são: impermanência, impessoalidade e nirvana. São chamados de selos porque tudo o que existe leva sua marca, são verificáveis quando olhamos para os fenômenos com profunda investigação honesta. Estão lá, como um selo da realidade.

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A impermanência pode ser verificada em tudo o que vive, pois tudo o que vive morre. Tudo o que aparece, desaparece. Nada é definitivo, tudo é provisório. Quando entendemos isso – e praticamos isso – então neutralizamos a raiva de perder algo que gostamos ou de conviver com outra que detestamos. A impessoalidade, ou verdade sobre o “não eu”, diz respeito à compreensão profunda da interdependência de tudo o que existe; nada é por si mesmo, tudo está correlacionado. O professor só existe quando há um aluno; só existe um aluno quando há um professor. O “eu”, tanto no nível orgânico biológico quanto no nível social, se constitui por uma série de inúmeras relações dependentes. Sou pai na medida em que existe um filho; é impossível desempenhar o “eu-pai” sem que haja o filho. “Meu braço” é parte do “meu corpo”, mas o “eu” que se manifesta por esse corpo será outro caso perca esse membro. Se for músico, por exemplo, esse “eu-músico” não será o mesmo de antes sem um braço. Assim, temos um “eu” apenas na medida em que uma série de condições existe. A compreensão da ausência de uma pessoalidade permanente e independente é a compreensão sobre o selo da impessoalidade. A compreensão da impessoalidade neutraliza a ganância, pois se entendemos que não há um “eu” apartado, como poderíamos pensar em termos de ganho ou perda?

Nirvana poderia ser entendido como a própria experiência plena de existir nessa realidade impermanente e impessoal, sem obstruções. É a profunda experiência de tornar-se aquilo que se é, dentro da realidade impessoal e impermanente vigente. Embora haja certo nível de compreensão mental envolvido, nirvana é mais uma experiência do que um conceito apartado. Em nosso treinamento, é a própria prática da meditação Zazen, o estado completo de Buddha inerente a todos nós. A prática completa de nirvana através do Zazen dissolve a ignorância da mente.

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Os três selos poderiam ser assim resumidos: tudo o que existe é, em última análise, impermanente, está livre de uma substância pessoal (ego) e repousa na perfeição da existência. Também estão correlacionados, pois a impermanência sustenta a impessoalidade, o que por sua vez mantém a desobstrução do nirvana, e tudo isso vai sendo alimentado pela própria prática. Cada um deles funciona como um potente antídoto contra cada um dos três venenos da mente, confirmando sua validade na própria realidade que se apresenta.

Gustavo Mokusen.

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3 opiniões sobre “3 venenos e 3 antídotos”

  1. Gustavo, obrigada pelo belo texto. Já enviei para um amigo, pequeno empresário e mega estressado. Sugiro a ele que cure o estresse dele com as meditações do Templo das Alterosas. Grande abraço e vou ver se apareço neste domingo. Está me fazendo muita falta. Abs,
    Elizabeth Fleury

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