Simplesmente sentar

O simples fato de sentarmos na postura correta de meditação já é, em si, a realização plena do caminho espiritual budista. Nada há para ser alcançado fora da realidade do aqui e do agora, realidade essa que continuamente se atualiza bem à nossa frente. Sentar para meditar é, assim, a forma pura de entrar em contato direto e sem barreiras com esse presente. É como adotar a mesma postura magnífica de um leão que toma sol em completa presença e que ocupa totalmente o espaço e tempo que sua existência abarca.

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Essa forma de praticar, na qual não se busca alcançar nem mesmo a própria iluminação, recebeu o termo de “shikantaza”, palavra em japonês cuja tradução é “simplesmente sentar”. Isto significa uma prática completamente ancorada na vida tal qual ela é, tal qual se apresenta, nesse mesmo instante. Tudo o que ocorre dentro desse momento está incluído, nada pode ser apartado, diferenciado como sendo “especial”, “comum”, “melhor”, “pior”, etc. Por isso, dentro dessa experiência plena e contínua da prática pura, afirmar que nossa mente é especial torna-se totalmente equivalente do que afirmar que ela é comum, ordinária. Isso ocorre devido ao fato de que os opostos, as dualidades, os julgamentos, as discriminações perdem completamente o valor relativo que possuem e fundem-se todas numa só continuidade imersa no aqui-agora. É devido a esse mesmo aspecto que mestres do Zen continuamente impulsionam seus alunos com afirmações aparentemente paradoxais, num momento afirmando e no seguinte negando o que acabaram de dizer, para derrubar toda essa ilusão que é a linguagem que usamos para descrever o real.

A experiência dessa mente “shikantaza” não se restringe à essa ou aquela posição específica do corpo, muito embora haja uma técnica corporal específica descrita e um método associado a ela, e que no início é necessária para que o próprio caminho possa ser visualizado e praticado objetivamente. De fato, experienciamos a totalidade do caminho a cada momento da vida, a cada respiração, a cada tigela que lavamos, a cada pensamento que emerge. Em outras palavras, não poderíamos discriminar nem um fio de diferença entre algum estado “especial” chamado meditação e outro “ordinário” chamado de comum. Puro e impuro tornam-se igualmente “realidade” que desponta nesse mesmo instante.

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Essa é prática que nos devolve à nossa própria existência, mesmo cientes de que nunca houve um momento em que nos separamos dela. Essa é a arte de nos atualizarmos dinamicamente com o universo inteiro sem mexer em nem um fio de cabelo sequer. Essa é a mente que está satisfeita com a perfeita e completa atitude de simplesmente sentar, e nada mais pode ser acrescentado ou retirado dela.

Gustavo Mokusen.

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