Primavera sem fim

A monja Mariangêla Ryosen, que dirigiu o Templo Zen Pico de Raios por 10 anos, finalizou um retiro em SP essa semana, no Templo Busshinji, onde ocorreu o seu “Hossenshiki”, ou Batalha do Dharma, que é uma etapa do treinamento Zen Budista. Ela escreveu o texto abaixo que foi lido em durante essa cerimônia.

Gustavo Mokusen.

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SHOYOROKU ou o LIVRO DA SERENIDADE é uma coletânea de 100 Koans compilados durante o século XII e comentado por Mestre Wansong com o poemas do Mestre Hongzchi.

Introdução

Logo que um só grão de pó surge, toda a terra está contida ali; com um só cavalo e uma só lança, a terra é aumentada. Quem é esta pessoa que pode ser o mestre em qualquer lugar e encontrar a fonte em tudo?

O caso

Quando o Honrado Pelo Mundo caminhava com sua congregação, apontou o chão com o dedo e disse, “Aqui é um bom lugar para ser construído um santuário”. Indra, o Imperador dos deuses, pegou de um talo de grama, o enfiou no chão e disse, “Está construído o santuário.”

O Honrado Pelo Mundo sorriu.

Verso

A primavera sem fim nas cem plantas;

Pegando o que chega às mãos, ele usa com sabedoria

O corpo dourado de dezesseis pés, uma coleção de qualidades virtuosas

Por acaso o conduz pela mão para o pó vermelho;

Capaz de ser o mestre no pó,

De fora da criação aparece um hóspede.

Por toda parte a vida é suficiente de sua própria forma –

Não importando se somos tão espertos quanto os outros.

 

Pela primeira vez tenho contato com este livro. Passei a maior parte do tempo disponível para a preparação do Hossenshiki, lendo o caso 2  – O Vazio de Bodhidharma. Mas, escolhi o caso 4 ao ouvir os seguintes fragmentos numa conversa telefônica com uma irmã de Dharma: “Aqui está um bom lugar para ser construído um santuário. Indra pegou de um talo de grama, o enfiou no chão e disse: Está construído o santuário. O Honrado Pelo Mundo sorriu.” Eu também e minha amiga sorrimos juntas.

Passado, presente, futuro se entrelaçam.

Durante 10 anos fui um talo de grama fincado no Templo Pico de Raios em Ouro Preto, no alto da montanha, verdadeiro santuário – “Lugar onde os Budhas praticam e todos que tiverem algum contato recebem os benefícios do Dharma.” (Dogen Zenji)

A grama, aparentemente frágil, tem raízes que se alastram e quando cortadas deixam o ar perfumado e logo voltam a crescer, vicejar. Como é maravilhoso contemplá-las reunidas no chão, formando um tapete macio, ou simplesmente  caminhar de pés descalços e sentir o frescor. Terminar o zazen e encontrar o verde forrando a terra, o chão e aquele perfume… quase mar…permaneci fincada, mantendo o templo vivo com a prática diária, retiros mensais, atividades especiais com as crianças do lugar, intercâmbio constante com a comunidade.

Cultivando “o corpo dourado de 16 pés” esculpindo a cada instante “a coleção de qualidades virtuosas”, dentro – fora.

Entrei no Templo para treinar por 1 ano, após a ordenação, e permaneci mais 9 anos. Não sei explicar o por quê.

Dentro de uma linhagem ininterrupta desde Buda Shakyamuni.

Como conduzir nosso caminho?

O que temos a oferecer?

Templo chama-se Juji, cujo significado é aquilo que guarda, que vive para preservar.

No começo havia monges residentes, que com a impermanência logo se foram. Os companheiros-mestres passaram a ser gatos e cães e o ir e vir constante de visitas e hóspedes.

Silêncio, solitude…

Algumas pessoas me diziam: Você precisa cuidar da sua vida. Não entendia, não tinha como responder. Estar ali com todas as circunstâncias era a minha vida, o chão que escolhi pisar.

“A vida é onde estamos”. Encontrei mais tarde estas palavras. Então a vida é onde sentamos em zazen, onde plantamos nossos pés. E, fazer disso uma prática, um lema, um voto, nos mantém em atenção plena, consciente de nossas palavras, pensamentos e ações a cada instante.

Templo é a sua vida, onde você está com os pés plantados no chão, com o que você tem em mãos.

Parece que tudo foi simples, fácil…

 Melhor dizer: “Por toda a parte a vida é suficiente de sua própria forma

A vida vive.

E, “como hóspede de fora da criação”, o observador-testemunha, consciência sempre viva no zazen, podemos reconhecer “por acaso” que estamos imersos “no pó vermelho” de sangue, músculos, ossos. Saúde e doença ; avidez, raiva; ignorância; sofrimento e paz; vida e morte…

As nuvens passam o céu permanece.

O lótus sempre imaculado, reconhecido a cada instante sem apego, aversão, “aceitando o que vem às mãos”, criando as condições para ser “capaz de ser o mestre no pó”. Tudo é perfeito, é o que é. E Thich Nhat Hanh nos inspira com suas palavras: “vencido o medo e a aversão, a vida será vista como infinitamente preciosa, a cada momento digno de ser vivido”. Assim, “está construído o santuário”.

Vivi imensas dificuldades…que atravessei fincada nesse chão como grama, como monja, que nunca pensei em ser; como sol, lua, montanhas, nuvens, chuva, estações…o ciclo vida-morte frente a frente.

Também foi ali que me reconheci forte, destemida, persistente… alguém que nem imaginava… tomando refúgio no zazen, santuário e abrigo fiel e acolhedor. Muitas vezes, o único lugar para estar, para onde ir.

Corpo, zazen, santuário.

Quem é essa pessoa que pode ser o Mestre em qualquer lugar e encontrar a fonte em tudo”? Quem é?

Aquele que fizer jus à herança deixada por Shakyamuni Budha, o “Honrado Pelo Mundo”, como direito natural. Sua experiência de iluminação sela esta verdade suprema expressa nas suas primeiras palavras após a experiência de iluminação: “Quão maravilhoso! Eu, todos os seres e a grande terra simultaneamente nos tornamos o caminho iluminado”!

Lembremos com Ele: todos, sem exceção, podem despertar sua verdadeira natureza.

O caminho, o chão, é zazen – o santuário.

E seguimos com Dogen Zenji: “a prática do zazen na postura ereta sentada foi estabelecida como o portão autêntico. Esse Dharma está abundantemente presente em cada ser humano. Mas se não praticarmos, ele não se manifesta e se não o experimentarmos, não pode ser realizado”. No Rohatsu sesshin de 2011, Fujita Roshi disse: “Se não houver um movimento na direção do despertar, nada no mundo pode te colocar nesta esfera”.

Por toda parte a vida é suficiente em sua própria forma”.

Num único instante, aos 20 anos, tive contato, pela primeira vez, com o Zen, o Mestre e o zazen.  A primeira visão: as costas do Mestre sentado em zazen imerso em silêncio pesado e na penumbra levemente iluminada por luzes penetrando pelas frestas das paredes de bambu, e revelando os contornos de corpos imóveis. O lugar estava lotado, me restou um cantinho próximo à porta, onde recebi a instrução rápida e sussurrada para sentar em lótus completo. E assim, permaneci pela primeira e eterna vez até o toque do sino. O corpo, um santuário; o zazen, um santuário. A humanidade construída a cada instante… “não importando se somos tão espertos quanto os outros”.

A raiz da palavra “humano” é húmus, terra. A mesma raiz da palavra humildade, que significa tornar-se terra. Podemos dizer que ser humano é reconhecer que somos terra, somos onde estamos com os pés plantados. E que a terra doa, sustentando a vida, amparando rios, oceanos, florestas e infinitos seres na interdependência com o universo inteiro. Um “santuário” maravilhoso e vital!

“O céu e a terra e eu somos da mesma raiz; todas as coisas e eu somos da mesma substância”.

Um é todo

Todo é um.

Precisamos ser apenas 100% seres humanos – sinceros e abertos. E isso não é tarefa simples diante de tantos condicionamentos que temos que desfazer para desenvolver a claridade e a percepção da diferença entre realidade e projeção.

Mestre Dogen diz: “Devemos nos lembrar que desde o começo nós nunca deixamos de ter o supremo estado de bodhi, e o usaremos e receberemos para sempre. Ao mesmo tempo, porque não podemos perceber diretamente, nós temos a tendência de começar idéias intelectuais ao acaso e, porque perseguimos essas como se fossem coisas reais, passamos em vão [ao largo] do grande estado da verdade”.

Durante muito tempo ouvi o Mestre Tokuda Igarashi repetir: “Podemos escolher imitar um ladrão, mas imitamos Budha”. Essa é a prática dos herdeiros de Shakyamuni Buddha.

O corpo dourado de 16 pés, uma coleção de qualidades virtuosas”.

O Budha, O Honrado-pelo-mundo nos inspirando, guiando nossos passos.

Agora, sou o talo de grama arrancado do Templo e o vento espalhando suas sementes no asfalto. Saí de Pico de Raios em Ouro preto dizendo sim ao Mestre Saikawa. A descida da montanha e o encontro com o caos urbano e seus infinitos estímulos entrando por todos os poros, atordoando, dispersando. Como manter os pés fincados, bem plantados e a fé inabalável?

Como respirar com o mesmo nariz de Budha?

No Zazen – santuário imprescindível.

Como podemos manifestar o “corpo dourado” de Buda? Como erigir um templo?

“Todos os Dharmas nas 10 direções são seu corpo e seu Templo”.

Assim, no asfalto da cidade, de mãos dadas com a preciosa sangha que se constituiu e se fortalece a cada dia, a qual reverencio com profunda gratidão, finco meu “talo de grama”, planto meus pés e sementes de paz onde sopra o vento. Assim, sem perceber, fui carregando o Templo nas costas. Assim, me faço continente de um mundo de delusão pedindo socorro.

Em diversos lugares passei a oferecer meditação:

 – na unidade prisional feminina, em um centro de triagem. Imersas no primeiro zazen de suas vidas, o sorriso e a calma são as palavras finais.

– nas escolas; alimentando o centramento natural das crianças.

– em uma meditação semanal, zazenkais mensais, retiro de costura de rakusu, curso de culinária zen…

“Se você se erguer onde você está, isso será iluminação”. Shunryu Suzuki.

Prática e iluminação inseparáveis como o ar e vida.

Em qualquer lugar encontrará a fonte em tudo.”

“Não importando se somos tão espertos quanto os outros”.

O Honrado Pelo Mundo caminhava com sua congregação [a Sangha], apontou o chão com o dedo e disse: Aqui é um bom lugar para ser construído um santuário” .

Aqui e agora.

Dentro e fora.

A terra, o chão.

O caminho é você.

Quer esteja coberto de pó vermelho,

De folhas outonais

Ou de neve glacial.

Volte ao caminho

Você há de ser semente

Você há de ser árvore da vida

“Primavera sem fim”, sem fronteiras, sem tempo/espaço.

Olhando profundamente reconhecemos que não é um caminho criado pelo homem. É o caminho que vem da própria vida, fonte. O infinito que se abre num ponto, num instante. “A primavera sem fim nas cem plantas”.

 

                        as palavras calam

                        o silêncio fala

SW

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