O que iremos nos tornar?

Abaixo apresento uma questão enviada pelo Antônio Selvaggi, praticante do Zen, e da resposta pergunta que devolvi a ele:

“Acabei de ler a Missão do Mind and Life Institute (MA, USA), instituição norte-americana com um trabalho humanitário e budista sólido e importante. Já li muito sobre o budismo, e pratiquei um pouco. Hoje, chego até a me considerar budista(!), porque tenho uma afinidade profunda com as coisas essenciais dessa filosofia/religião. O que me encanta no budismo é a natureza investigativa da prática e do estudo. Acho que os mestres e pensadores budistas e de religiões/filosofias afins são os que mais perto chegaram da coisa real, da essência da existência e da vida. E isso é fascinante. Mas minha natureza é investigativa… quando me vejo tomando partido, sinto que estou essencialmente errado. Essa é uma questão complexa, porque a vida cotidiana nos exige decisões e tomadas de posição todo o tempo, mas cada decisão é uma cisão com algo que também está certo. Por mais errado que pareça, também está certo. Pode ser antiético, e aí sim temos um parâmetro claro, mas estará certo no sentido do fluir das forças em ação em dado momento.

Então, eu tenho um problema com o Treinamento. Eu não aceito bem o treinamento para nos tornarmos algo melhor ou talvez até mesmo para transformar a vida em algo melhor. É uma ideia cativante para cada um de nós que sente na pele o sofrimento dos desatinos do dia a dia. Mas será mesmo que temos a chave para uma melhor forma de viver pessoal e para a humanidade? No site do Mind and Life Institute, assim como em vários centros de budismo, muitos acreditam que sim, e acreditam que há um treinamento consistente que deve ser feito nessa direção. A missão do instituto fala explicitamente desse treinamento. E nós, zen budistas, conhecemos um pouco do treinamento zen ministrado nos mosteiros zen. Vida dura, reprogramação total com a finalidade de nos aproximarmos mais da coisa em si (real thing!) e ficarmos menos a mercê dos fluxos cotidianos. O zen evita ostensivamente a associação da prática para um determinado fim, mas, de fato, o convite é para uma imersão na prática, e isso naturalmente trará consequências e nos levará para uma nova experiência de vida que, do ponto de vista que estamos, pode ser avaliada como melhor que a atual. Então, a partida para a prática é uma motivação de melhorarmos, não há como negar isso, mesmo que, no curso da prática, percebamos a importância de não praticarmos para determinado fim.

Na minha humilde vocação de ser vivente, sinto prioritariamente a necessidade de compreender mais sobre a minha própria existência e a grande existência onde estou imerso. Não acredito num treinamento para ser melhor, porque não acredito que ninguém saiba o que é melhor para ninguém no longo curso. Entendo a relevância da Ética e sua base e procuro seguir os valores essenciais amparados nisso. Mas não me empolgo com a ideia de treinar para ser mais ético, mais humano, seja lá o que isso signifique. Acho que o que realmente importa é ter discernimento e sabedoria. Mas isso se aplica a contextos, pois vivemos contextualizados, todo o tempo. Então não há um treinamento por assim dizer que nos leve a isso. Ter discernimento e ser sábio envolve um conjunto de características pessoais e situações “inestudáveis”. Talvez o melhor caminho para isso seja apenas estudar e praticar com um profundo espírito investigativo e deixar a vida nos levar. Eu percebo e acredito profundamente em todas as forças internas e externas que nos conduzem ao longo da vida, eu sei que a amizade e o amor altruísta (objeto de muito treinamento no budismo) surgem juntos com todas as forças egoístas que nos levam pelos caminhos da competição e do consumo, por exemplo. Não há como isolar as primeiras em detrimento das outras. Podemos treinar para nos aproximarmos mais das primeiras, e alguns acreditam nessa vertente. Não estou nessa corrente. Prefiro me ver nu, por inteiro, prefiro ver todos nus, com todas as suas mazelas e glórias, preferencialmente num viés ético compreensível. Mas não me sinto agente consciente de nenhuma força específica, por “melhor” que seja. Não consigo, soa falso. Sou igualmente certo e errado, sou essencialmente humano em sua amplitude, e não sei ser diferente, e quando tentei, me dei mal. A única coisa que consigo pregar é a necessidade de nos compreendermos melhor e tb compreender as forças internas e externas que nos movem. E não porque isso vá nos beneficiar de algum modo, mas simplesmente porque faz parte da condição de ser humano, e tem um sabor especial.

Antônio.”

ded

 

Antônio, suas questões são legítimas.

Não posso dizer que o treinamento lhe fará uma pessoa melhor. Como você mesmo pontuou, é difícil afirmar com certeza o que é melhor ou pior no curso da nossa existência. Isso, em última análise, é uma forma de análise discriminatória dualista. Certo e errado, bom e ruim, blá blá blá. Todos já ouvimos isso nos sermões budistas. Mas é fato, é experiência, que não podemos reduzir a vida e sua enorme complexidade a dois quadrados, um preto e outro branco, um melhor e outro pior. Assim, dizer que o treinamento tornará você melhor (ou pior) é, pelo menos, uma simplificação ingênua da realidade.

Uma vez, lá pelo ano de 2004, eu estava fazendo um retiro no Templo Zen Pico de Raios em Ouro Preto, estava “treinando” lá nas montanhas. Belo lugar, passei muitos retiros ali. Então nessa vez alguém perguntou “porque devemos praticar, treinar de forma tão metódica, tão ritualística, quase imitativa?” e foi respondido que “bem, podemos imitar um ladrão. Ou então podemos imitar o Buda. E a nossa vida vai se tornar muito próxima daquilo que escolhermos imitar”.

Eu confesso que essa resposta soou para mim como algo justo. O ser humano é um ser que aprende, e nosso aprendizado passa muito pela imitação. Pelo menos no começo. Negar isso é não conhecer nossa natureza. Uma criança aprendendo a falar, andar, comer, escolher… ela irá certamente imitar muito o que observa. Uma pessoa aprendendo música passará anos imitando técnicas de outros músicos e professores. Claro que você pode aprender por você mesmo, mas o que é “você mesmo” senão já um conjunto de filtros, moldes, comportamentos apreendidos? Enfim, naquele momento do retiro a resposta me pareceu justa.

Realmente não posso dizer que o treinamento zen deveria ser prescrito para o mundo inteiro. Eu não diria a um psicopata para “tornar-se como sua própria natureza é”, pois muito provavelmente ele iria começar a matar. Não faz sentido. Nem posso dizer que o treinamento torna as pessoas melhores. Às vezes acontece, às vezes não. Por “acontece” quero dizer que já assisti muitas pessoas que encontraram certo equilíbrio, mesmo que temporário, com a prática. Ficaram menos ansiosas, menos depressivas, ocuparam sua mente. Tudo bem, em alguns casos isso passou, mas ainda assim foi um equilíbrio. E em outros casos as pessoas começaram a se ver, com defeitos e qualidades, apenas isso. “Apenas”. Depois ficaram assustadas com o que viram e pararam com a prática. Pior? Não sei, não posso dizer.

Mas o que aquela resposta dada no mosteiro em Ouro Preto me chamou a atenção foi: é a forma como usamos nosso tempo-espaço nessa existência que define aquilo que nos tornamos. Se você escolher “imitar” um ladrão, você irá roubar. Se você escolher “imitar” o Buda, você irá fazer meditação. Você irá se tornar aquilo que fizer, pensar e falar. É isso.

A vida é complexa e estamos vivendo sob a influência de forças que ainda não compreendemos bem. Os astros, a Lua, a natureza, o passado, o futuro, tudo isso nos influencia. Então, no meio disso tudo, possuímos essa possibilidade de decidir o que fazer com nosso tempo-espaço enquanto vivemos o drama da existência. Essa é nossa cruz e espada, essa eterna e necessária resposta que somos convidados a dar para a pergunta: o que iremos nos tornar?

Gustavo Mokusen.

 
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Uma opinião sobre “O que iremos nos tornar?”

  1. Olá, Gustavo
    Tenho me encontrado. Sou igual sempre fui. Com menos vergonha de ser como sou. Me aceitando melhor. Então acho que já não sou igual.

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