Flor de lótus

Algumas pessoas me perguntam qual é a base da prática Zen. Costumo responder que a base da prática é a prática mesmo, ou seja, o cerne do Zen é o zazen (meditação Zen). Zazen já é o treinamento completo, nada precisa ser acrescentado. Nele encontramos tudo e, ao mesmo tempo, Nada. Isso significa que o Zen é mais um esvaziamento do que um processo de obtenção, de identificação. É como aquela parábola da xícara cheia de chá: como você pode colocar algo mais dentro se ela já está transbordando? Bem, o que quero dizer é que o processo habitual do ego humano é o de “pegar”, “tornar-se identificado”. E o Zen é a libertação disso tudo, através de um esvaziamento. Mas, esvaziamento de quê?

De “ficar procurando”, de “correr atrás”, e até mesmo de “encontrar a iluminação”. Em zazen, nós “simplesmente” sentamos e apreciamos a vida como ela é. A insatisfação, o sofrimento, surge no momento em que não aceitamos a realidade, que bifurcamos a realidade em “gosto” e “não gosto” e procuramos por algo mais.

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No treinamento zen o que mais importa é tudo que está acontecendo no agora. Nossas insatisfações revelam muita coisa, os nossos “gostos” e “desgostos”, o nosso estilo mental, como o outro nos afeta… daí, se prosseguíssemos com a investigação, poderíamos nos perguntar, por exemplo: “será que funciono assim também em outros setores da minha vida? Será que sempre que me sinto incomodado, eu simplesmente abandono a cena e busco outra zona de conforto?”, etc. etc… Mas no Zen existe um ponto fundamental que é: não discriminamos em bom ou ruim a realidade que emerge, mas nós nos harmonizamos com ela. E, a partir dela, estudamos como nossa mente funciona. Esse é o ponto.

Há um padrão que repetimos dentro do ciclo do sofrimento, e o papel do treinamento espiritual legítimo é nos mostrar como funcionamos para, então, podermos sair desse ciclo. Não é masoquismo, mas é autoconsciência. Assim, se algo lhe incomoda, veja isso como uma oportunidade de crescimento, não como um obstáculo.

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O lótus é uma flor magnífica que se ergue pura acima do lodo, pois ela nasce no lamaçal e abre suas pétalas sob o sol radiante acima da água. Isso quer dizer que ela se nutre das “impurezas” para emergir perfeitamente, ou seja, usa as próprias dificuldades como alimento e força. Ser como a flor de lótus e encarar as situações difíceis como oportunidade de crescimento é necessário nesse caminho Zen. Isso não é fácil, mas é possível. É necessário desenvolver uma dignidade sem autopiedade, uma paciência que confia na força da prática potencializada pelo tempo.

Gustavo Mokusen.

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2 opiniões sobre “Flor de lótus”

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