Fundamentos da meditação Zen

Assim ouvi:

Zazen (meditação zen) apenas permite que as pessoas iluminem suas mentes e descansem pacificamente em seu local fundamental. Isto é chamado revelar a face original e ver o cenário básico. Corpo e mente abandonados, sem apegos a sentar ou deitar. Não pensamos nem no bem nem no mal, e assim podemos transcender o comum e o sagrado, ir além de todos os conceitos de ilusão e iluminação.

Assim sendo, a mente é como um oceano e o corpo como as ondas. Não há ondas sem água e não há água sem ondas. Água e onda não são separadas, ação e quietude não são diferentes. Assim se diz que o ser verdadeiro indo e vindo, vivendo e morrendo, é o corpo indestrutível da própria energia Universal.

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Zazen é ir direto ao oceano de iluminação, assim manifestando o corpo da sabedoria. A mente clara, inata e inconcebível é repentinamente revelada e a luz original brilha em toda parte. O oceano não aumenta nem diminui e as ondas nunca voltam para trás. Assim sendo, os seres iluminados aparecem no mundo apenas com o propósito de fazer com que as pessoas realizem a sabedoria e a visão da iluminação. E eles sempre tiveram uma arte impecável e sutil, chamada zazen - um estado de absorção que é o soberano de todos os estados de concentração. Se apenas uma única vez você entrar realmente neste estado, iluminará sua mente e realizará que este é o portão principal do caminho iluminado.

Aqueles que querem iluminar a mente devem abandonar interpretações e conhecimentos superficiais, abandonar princípios convencionais e até mesmo budistas, cortar todos os sentimentos delusivos e manifestar a única mente verdadeira e real. As nuvens de ilusão se dispersam e a mente-lua brilha renovada. Buda disse: "Alimentar excessivamente pensamentos discriminatórios e delusivos é como estar fora da porta; sentar em meditação é voltar ao lar para se repousar em tranquilidade". Na ruminação mental incessante, os pontos de vista não param e a mente fica atolada. Por isto dizemos que é estar do lado de fora. Mas na meditação sentada, zazen, tudo está em paz e você pode penetrar todos locais - assim, é como voltar ao lar e sentar em paz.

As aflições vêm todas da ignorância, assim como o medo, a raiva, o apego e a insatisfação. Ignorância significa não compreender a si mesmo. Zazen é compreender a si mesmo.

Embora não se deva ser avaro com os ensinamentos, não fale a menos que lhe perguntem. De dez coisas que possa dizer, deixe nove sem falar. Mofo crescendo em volta da boca, como um leque no inverno, como um sino ao vento, sem questionar o vento sobre todas as direções – estas são características das pessoas do caminho. Apenas vá pelo princípio do ensinamento, sem selecionar as pessoas. Vá pelo caminho e não se congratule - este é o ponto mais importante a relembrar.

Zazen não se refere restritivamente ao ensinamento, prática ou realização e, entretanto, contém esses três aspectos. Se não fosse assim, o critério da iluminação seria relativo - e isto nao é o espírito do zazen.

Ensinamento é baseado em eliminar o mal e cultivar o bem - isto não é o espírito do zazen. Embora o ensinamento exista no Zen, este ensinamento não é o ensinamento comum. É o apontar diretamente, simplesmente comunicar o caminho, falando com todo o corpo. As palavras não têm sentenças nem frases - onde as ideias terminam e a razão se exaure, uma palavra compreende as dez direções. E entretanto nenhum fio de cabelo é levantado. Não é este o verdadeiro ensinamento dos Ancestrais Iluminados?

Embora falemos em prática, é prática sem fazer nada de especial. Isto quer dizer que o corpo não faz nada, que a boca não recita nada, que a mente não pensa em nada de especial, que os seis sentidos ficam naturalmente puros e claros, não afetados por coisa alguma.

Embora falemos em realização, é realização sem realização. Esta é a absorção na suprema concentração, o estado de consciência em que se descobre a unidade do movimento e do repouso, o conhecimento espontâneo que é a entrada da iluminação, através do qual a sabedoria se abre, produzida pela prática da grande tranquilidade. Transcende-se sagrado e profano, vai-se além de confusão e compreensão. Não é esta a realização da grande iluminação inata?

Zazen também não se preocupa com disciplina, concentração ou sabedoria, mas contém os três. Disciplina e preceitos são para prevenir o erro e fazer cessar o mal. Em zazen, vemos tudo de maneira não dualista, deixando de lado todos os desdobramentos. Sem preocupação com o caminho budista ou o caminho mundano, esquecendo-se dos sentimentos sobre o caminho e dos sentimentos mundanos, sem afirmar nem negar, sem bom nem mau - o que existe para ser prevenido ou parado? Esta é a disciplina da mente.

Concentração significa contemplação sem divisões. Em zazen, nos descartamos do corpo e da mente, abandonamos compreensão e confusão. Imutável, imperturbável, sem agir, sem ficar tonto, como um bobo, como uma montanha, como um oceano, sem deixar traços nem de movimento nem de imobilidade - concentrado sem nenhum sinal de concentração. Porque não possui forma de concentração é chamado de grande concentração.

Sabedoria é discernir compreensão. No zazen, o conhecimento desaparece por si só. A mente e a consciência discriminatória são completamente esquecidas. O olho de sabedoria através do corpo todo não tem diferenciação, mas vê claramente a essência da natureza. Fundamentalmente sem confusão, cortando a mente conceitual, aberta e claramente penetrando todo o caminho. Esta é a sabedoria sem nenhum sinal de sabedoria e por isto mesmo é chamada de grande sabedoria.

Mestre Zen Deshimaru
Mestre Zen Deshimaru

Abandone mente, intelecto e consciência. Pare de relembrar, pensar e observar. Não espere se tornar um Buda, não se preocupe com certo e errado.

Se sua mente estiver dispersa, fixe na ponta de seu nariz e no baixo abdômen e conte suas inspirações e expirações. Se isto não parar sua distração, traga um dizer à mente e mantenha este dizer em sua mente para acordá-la. Por exemplo: "o que é aquilo que é como é?".

Após sair da imobilidade, quando fizer suas atividades corriqueiras, o momento presente é o próprio zazen. A rigor, não existe nenhuma diferença entre sua vida mundana e seu caminho espiritual. Assim, praticando incessantemente, a existência atinge o mais elevado propósito que lhe cabe no Universo.

Gustavo Mokusen,

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