Comparação e competição

Quando eu estava treinando no Templo Tenryuji, no Japão, eu ouvi um mestre dando um ensinamento a um monge de nome Kabata:

– “Um pássaro voa como um pássaro. Um peixe nada como um peixe. Kabata San pratica o Zen como Kabata San.”

O mecanismo da comparação pode ser muito útil quando estamos verificando os preços em um supermercado, comprando um apartamento ou ainda quando confrontamos dados estatísticos em uma pesquisa de resultados. Mas quando começamos a comparar nossa prática espiritual com a dos outros, e isso passa a gerar disputas e sentimentos agressivos, então ingressamos numa modalidade de treinamento muito parecido com um “zen olímpico”, ou qualquer coisa assim. Começamos então a comparar, competir e a encarar nosso ambiente de prática como se fosse um ambiente hostil, cheio de adversários. É claro que essa perspectiva deturpada nada mais é do que a reprodução de um padrão competitivo da vida moderna onde “ser um vencedor” e “bater metas” tornou-se sinônimo de sucesso.

Seria espantoso, a princípio, acreditar que isso seria possível, que as pessoas que buscam uma via espiritual desenvolvessem ali suas posturas contaminadas com padrões de comportamento usuais, mas é exatamente isso o que se verifica na prática. Alguns professores chamam isso de desvio de prática, mas na verdade esses “desvios” são exatamente a oportunidade de reconhecer como operamos e como realmente somos. Somente a partir dessa consciência é que uma mudança interior pode, de fato, ter início.

No autêntico caminho budista não se ganha nada, não se perde nada e não se compete com ninguém. Lidamos com a realidade tal qual ela é, e isso significa nos harmonizar, nos atualizar instante após instante com os fenômenos que emergem. Caso a raiva, a ganância, a inveja ou o espírito competitivo apareçam, pois eles são também fenômenos emocionais que emergem, aprendemos a nos voltar tranquilamente para dentro, respirando na barriga e acalmando o coração. Não os negamos, pois a repressão só faz aumentar a pressão interna do conteúdo recalcado, mas também não entramos na onda.

A comparação pode ser entendida como um impulso, uma tendência natural humana, mas a confusão começa quando o pássaro quer trocar asas por nadadeiras. Simplesmente não irá funcionar. Lembrei-me de um trocadilho de um amigo: “Você se torna mané sempre que quer ser aquilo que não é“.

Gustavo Mokusen

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s