Ervas daninhas e o jardim pacificado

Ontem, em nosso encontro semanal de meditação, falamos de conflitos em nossas vidas e de ervas daninhas no jardim, e também da solução budista de enfrentar pacificamente esses conflitos. Encarar a confusão com mente pacificada significa não fugir e tomar constantemente ações antientropia, ou seja, ações que equilibrem a  tendência natural dos sistemas para aumentar seu grau de desordem e confusão. Se você tem um jardim sabe bem o que isso significa. Se você não cuida, não trata dele, o mato e as ervas daninhas irão crescer e tomar o espaço das rosas e dos jasmins.

Há um ditado da psicologia budista que diz assim: “para um praticante do caminho, até uma erva daninha é material para autoconhecimento.” Isso significa que, além de cuidar do nosso jardim mental, podemos ainda aproveitar as dificuldades, as ervas daninhas, como material de autoconhecimento. O extrato a seguir, retirado do livro “Mente zen, mente de principiante” escrito pelo grande professor e mestre zen Shunryu Suzuki, mostra bem esse aspecto:

“Costuma-se dizer que ‘arrancando as ervas daninhas alimentamos as plantas’. Nós arrancamos as ervas daninhas e as enterramos junto às plantas para nutri-las. Portanto, mesmo que você tenha dificuldade em sua prática de autoconhecimento, essa mesma dificuldade servirá para ajudá-lo. Assim, não deve aborrecer-se por causa das ervas daninhas de sua mente. Ao contrário, fique grato porque elas vão, afinal, enriquecer sua prática. Se você tiver alguma experiência de como as ervas daninhas se transformam em alimento mental, sua prática fará progressos notáveis. Você vai sentir o progresso. Sentirá como é que elas se transformam em autoalimentação. Claro que não é difícil fazer interpretações filosóficas ou psicológicas acerca de nossa prática, mas isso não basta. O que precisamos é ter a experiência prática de como as nossas ervas daninhas se transformam em alimento.”

É quase impossível impedir que as ervas daninhas apareçam, por mais bem cuidado que seu jardim esteja. Às vezes um cantinho qualquer ficou sujo, ou então vem um passarinho carregando uma semente no bico que cai, ou ainda uma espécie nova que você não conhece apareceu e se confundiu com outras plantas. Não se aborreça caso isso aconteça, pois como dissemos todo sistema tem uma tendência natural à desordem. Ao invés disso, trate das dificuldades que possam aparecer, pois elas são inerentes ao seu jardim. Elas fazem parte da realidade.

Suas dificuldades pessoais podem alimentar sua prática de autoconhecimento. Sim, você vai tratar das suas ervas daninhas mentais, afinal seu jardim requer manutenção diária, mas não encare isso como uma tarefa desprazeirosa, como uma guerra ou como um peso inútil em seu caminho. Esse material pode fortalecer sua prática, pode lhe dar substrato para crescimento e expandir sua autopercepção de uma maneira formidável.

Utilizando essa psicologia, que trata as adversidades e conflitos como oportunidades de crescimento, seu jardim pode florescer ainda mais. É um adubo extra para suas rosas, cravos e jasmins. Quando uma erva daninha brotar, encare isso como uma oportunidade que a vida lhe traz, como uma chance de tornar-se melhor e mais experiente na arte da jardinagem.

Gustavo Mokusen.  

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