Zazen e o teatro mágico

Por Thiago Kamon

“O mundo inteiro é um palco,
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores:
Eles entram e saem de cena;
E cada um, em seu tempo, representa vários papéis.”
Shakespeare, na peça As You Like It
Utilizando a metáfora do autor, poderíamos dizer ainda que a meditação, ou o zazen, equivale àqueles breves momentos, entre atos, em que o ator para um pouco a atuação, sai de cena, entra em seu camarim e, retirando a maquiagem, vai desmontando o personagem, pedaço por pedaço.
Em uma primeira camada, ele vai retirando os cenários: em um movimento, vão-se o escritório e os problemas que ainda não foram resolvidos; em outro, lá se vai o lar e as demandas domésticas; e, em um derradeiro, some também o teatro e, com ele, a necessidade de atuar.
Na segunda camada, ele retira de si, com cuidado, os personagens coadjuvantes: o chefe exigente, com suas ordens impossíveis e seus prazos inexoráveis; o parente necessitado, com seu olhar de vítima e aquele toque de oportunismo que lhe espeta a caridade; até mesmo a família deixada muitas vezes de lado, com todo a sua dose de culpa. Em um último e difícil retoque, retira até mesmo os falecidos pais, que martelam em seu cérebro com o peso de um aríete.
Na terceira camada, ele chega ao personagem em si. Ou melhor, aos personagens. Máscara após máscara, ele vai saindo de todos os papéis: o preocupado, o carrancudo, o aliviado, o feliz; o pai, o marido, o empregado, o amigo; o ex-atleta, o ex-roqueiro, o ex-pegador, a ex-criança; o futuro-chefe, o futuro-milionário, o futuro-aposentado, o futuro-avô. Todas as máscaras, uma por uma, vão sendo retiradas e empilhadas; uma por uma, vão sendo devolvidas às galerias ancestrais.
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Ao final, sobram as vestimentas e, nesse momento, elas já estão praticamente retiradas: e, em um movimento de corpo, lá se vai a corcunda, a dor crônica no joelho, a velhice e a juventude. Mas também não se esquece de se despir da vaidade, do intelectualismo, dos preconceitos e certezas.
Como em uma cebola, as camadas se soltam como se nunca tivessem sido presas. E o que sobra disso tudo?
Sobra o ator, simples assim.
E quem é o ator?
Essa, meu amigo, é a pergunta fundamental.
“Qual era a sua face original antes de seu pai e sua mãe nascerem?”
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