Descendo o rio

de

Passando algum tempo dentro de um barco à deriva, descendo rio abaixo, é que a gente se toca que o que importa mesmo é cultivar uma mente pacificada, um corpo saudável e torcer para que a sorte esteja ao nosso favor o máximo possível. E quando não estiver, bom, então aí vamos descendo sem muita frustração mesmo.

E os remos se foram há muito tempo atrás, simplesmente se desprenderam dos apoios e ficaram soltos para trás. Restou deitar no fundo do barco, de costas para relaxar, olhando o céu de noite e assim ficar abismado com as estrelas pulando em silenciosa luz.

Duas semanas longe de tudo. Sapos coaxando. Chuva, sol, às vezes fome. De repente o coração começa a se inundar junto com o rio. Não se sabe mais nada sobre solidão ou qualquer coisa assim. É a margem ou algum lugar desconhecido? E sempre descendo, sempre descendo rio abaixo.

Mas irei construir uma antena, digo, e minhas transmissões serão enviadas quando eu estiver para além. Talvez nos encontremos de novo rio abaixo, e possamos dividir o que ambos descobrimos, e assim poderemos desfrutar a visão.

Lembro de um pequeno verso que soa bem:

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

                                                                                                    Fernando Pessoa

Gustavo Mokusen.

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