Dor e prazer

Por Antonio Selvaggi

“Pleasure isn’t a place for you to stay. Pain isn’t a place for you to stay. Pain wears away. Pleasure wears away. Our foremost Teacher said that all fabrications are inconstant.”

“O prazer não é um lugar onde se deve ficar. A dor não é um lugar onde se deve ficar. A dor se vai. O prazer se vai. Nosso Professor mais proeminente disse que todas as nossas criações são inconstantes.”

Ajahn Chah, “The Last Gift”

Comentários:

Naturalmente, a individualidade quer preservar a sensação de prazer e evitar ou enfrentar (para eliminar) o sofrimento. Essa é a questão básica da sobrevivência que nos pariu e nos mantém. Mas tanto na ânsia de preservar o prazer como na ânsia de fugir ou enfrentar a dor, estamos precisamente no mesmo “lugar” fazendo o mesmo esforço. O alerta é de que esses não são os “lugares” onde devemos estar e, atenção aqui, o alerta não é de que não devemos sentir nem de que devemos nos especializar em imunizar os sentimentos. Na verdade, o lugar onde devemos permanecer grande parte do tempo é no Presente, aumentar a consciência do momento presente. O fato é que somos levados todo o tempo a seguir as forças do prazer e da dor e, nesse frenetismo, transformamos elementos naturalmente fugazes e transitórios (os sentimentos) em “lugares” onde queremos nos alojar. A dica é: para sairmos da ditadura do prazer e da dor (e dos vícios, padrões nocivos, etc. por ela engendrados…), a saída real não é manipular mais a realidade para um determinado fim (a resposta do controlador), nem nos entregarmos aos ciclos sucessivos de prazer e dor numa indolência sem esforço (a resposta do hedonista), mas simplesmente colar no presente e aumentar a consciência do que se passa em nós e em torno de nós. A melhor ação possível parte disso.

Na vida relacional, todos os sentimentos se sucedem freneticamente, naturalmente, e não queremos fazer um curso de como impedir isso. Mas praticamos estar no “lugar” presente, este sim, o único real, e a consciência de que tudo mais é “irreal” (mesmo sendo forças poderosíssimas que articulam subjetivamente nossa vida relacional…). Viver num mundo um pouco mais equilibrado pressupõe esse enfoque, ou seja, valorizar a permanência no que é real: o momento presente. Dele parte tudo mais, inclusive nossa percepção de integração universal e a ética humana decorrente disso. Todas as outras forças que atuam sobre a individualidade devem ser vistas desse ponto. Este é o ponto de melhor equilíbrio que pode diminuir as oscilações radicais nas relações humanas e é o centro das principais filosofias e práticas orientais.

O risco embutido na valorização desse caminho é a inação, a estagnação relacional e a repressão sentimental. Mas a melhor resposta para esse risco continua sendo a mesma: perceber verdadeira e realisticamente o momento presente. Se ocorrem inação e estagnação é porque houve uma falha na percepção da realidade e na natureza dos sentimentos: houve excesso de manipulação. A sutileza de perceber quando a prática de estar no presente vira uma fuga relacional é a margem sutil do caminho mais equilibrado, e isso transparece. A tendência aliás é essa, essa constitui a falha mais gritante dos caminhos ditos “espirituais”: a elaboração de uma neutralidade fabricada que se transforma numa ditadura do que é certo e errado. Por isso são tão poucos os seres modelares. Todos nós somos meros praticantes. A vida real se passa no fio da navalha e esse fio naturalmente oscila e corta e derruba quem não está pronto a ser ao mesmo tempo delicado e forte para absorver os impactos e atuar numa perspectiva realista que inclua sua herança e bagagem pessoal e as circunstâncias históricas e presentes em que vive.

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