Repetir o quê?

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“O pêndulo não vai e vem; ele vai, e vai, e vai novamente, e por isso seu movimento é sempre novo e muda a cada instante, justamente porque cada instante é sempre diferente”. Eu ouvi isso há mais de 20 anos atrás, quando eu estudava Física na universidade. Era uma introdução a uma aula de Estrutura Quântica da Matéria, e o professor era muito habilidoso, e ele estava criando com essa frase uma analogia entre o mundo microscópico e o pêndulo, para descrever o comportamento e a distribuição da energia quantizada entre partículas estruturais da matéria.

A gente tem uma tendência de criar formas viciadas de pensamentos, e depois ficamos presos nelas, e algumas vezes essas formas de pensar são um pouco, digamos, limitantes. Eu estava dirigindo hoje no trânsito matinal e pensando sobre a rotina de dirigir todas as manhãs, e daí me lembrei do pêndulo que sempre vai, e vai, e nunca repete seu movimento, de fato. E me dei conta de que é assim mesmo que deveríamos encarar nosso dia a dia, na verdade não existe nenhuma rotina no sentido repetitivo, as coisas são sempre novas porque tudo acontece num instante que sempre muda. Aparentemente você repete uma ação, mas nem a ação e nem você mesmo já são os mesmos de ontem, e sendo assim tudo é sempre uma experiência nova. Talvez nossa forma engessada de pensar coloque em tudo o que fazemos a aparência de uma rotina repetitiva, mas deixa eu te contar uma coisa: isso não é real. Sempre haverá alguma coisa nova, um fator atualizante que caracteriza o momento que você vive. Se ele não está aparente é porque a ideia superficial da rotina engessou sua percepção.

A sensação de rotina é criada a partir do pensamento focado na concepção errônea da repetição, não mais. É quando contaminamos o momento novo que surge com a perspectiva de que algo se repete, e assim replicamos o sentimento equivocado do “vai e vem” para o instante seguinte. Você pode dizer: “mas tem coisas que temos que fazer todos os dias!”. Certinho, mas isso não significa que tudo se repete, ou que essas coisas não sejam sempre diferentes a cada dia. É claro que você escova seus dentes todos os dias, pois isso é manutenção necessária, mas basta trocar a mão com a qual você usa na escovação e você terá então uma experiência totalmente diferente. Faça o teste, troque a mão. É só um exemplo como possibilidades novas emergem a cada momento.

Nada se repete. No mínimo, o instante do tempo em que algo ocorre “de novo” é diferente. Engraçado é que, muitos anos depois daquela aula de Quântica, eu ouvi do outro lado do planeta, num mosteiro Zen no Japão, algo muito parecido: “este instante que você acabou de respirar jamais voltará. No Universo inteiro não existirá, jamais, nada exatamente igual a ele”. Isso é muito interessante, tal qual chave e buraco da fechadura.

Rotina não há, então sem essa de achar que “já sei onde isso vai dar”. Todo o que emerge vem novinho em folha, folha limpa esperando ser escrita por nós mesmos, mas se você insiste em ver ali a xerox de ontem, então o que lhe resta é falar de futebol ou do tempo dentro do elevador. E, cá pra nós, isso é bem patético, não é?

Gustavo Mokusen.

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3 comentários em “Repetir o quê?”

  1. Texto fantástico.É curioso como quase tudo em nossas vidas nos parece rotineiro, enfadonho e cansativo, após ler este post, percebe-se que é possível enxergar a vida por um outro prisma e enfrentar, mesmo as tarefas mais rotineiras do dia-a-dia com um pensamento mais construtivo e menos decepcionante.

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  2. Acabei de me lembrar de uns comentários super interessantes do Gudo Nishijima num livro que li há pouco (To Meet the Real Dragon). Ele comenta a forma como o Dogen elabora muitos dos seus comentários no Shobogenzo. Ele diz que o Dogen costuma fazer 4 tipos de declaração em sequência. Em suma, essas declarações seriam caracterizadas da seguinte forma: uma idealista, uma materialista, uma dentro da realidade budista, e a última a ação em si. Transportando esse tipo de análise para o nosso pêndulo, talvez possamos dizer o seguinte… no dia a dia, o pêndulo vai e volta; para a ciência, o pêndulo só vai; para o budismo, o pêndulo nem vai nem volta; na verdade, o pêndulo é um pêndulo.

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  3. Sim! Essa percepção de que nada se repete é fundamental, cada momento é novo… no budismo, estamos praticando todo o tempo perceber o momento presente… mas é curioso como a regularidade percebida tem uma função importante. Essa regularidade subjetivamente percebida a partir da noção básica de Tempo/Espaço e replicada nos diversos padrões e rotinas é o pano de fundo para a percepção das irregularidades. No modo cotidiano de atuação da mente, o modo dualista, onde o tempo é reconhecido, alternamos sempre entre regularidades e irregularidades. Nomear o tempo como tempo já significa identificar uma regularidade mestre sobre a qual nos situamos. Na meditação, procuramos aprofundar no atemporal, onde nem um nem outro conceito faz sentido, justamente através do foco em algum elemento ou fator do presente imediato eternamente renovado – em geral, a respiração.

    Essa é uma questão curiosa… então, no modo relativo, o pêndulo vai e volta, porque caracteriza o compasso binário básico e subjetivo do tempo, onde opera toda a variedade de base dualista. Já no modo absoluto, talvez o pêndulo nem vá, nem volte… porque cada milionésimo de momento é um momento novo em si, e o idioma nem serve para identificar tal experiência… No budismo, me parece, a realidade é essa experiência do eterno presente. Isso não discrimina a “ilusão” de sermos humanos, mas minimiza a relevância que damos ao nosso cotidiano e nos situa mais realisticamente no universo.

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