Conexão

Após alguns dias de retiro pessoal, onde não levei nem computador e nem qualquer outra forma de conexão virtual, volto escrevendo lento, digitando com dificuldade, já desacostumado com meu teclado e sentindo, por isso, alegria da confirmação de ser, em essência, homem e não máquina.

Não somos o celular, não somos o perfil do Facebook, não somos aquilo que projetamos no mundo virtual, tanto das virtudes quanto da internet, muito menos não somos aquilo que não somos (e que procuramos parecer ser). A certeza de que experimentamos conexão no presente, realidade fluindo na realidade, necessidade humana do contato com o outro, tudo isso me faz afirmar que a natureza do homem é do relacionamento.

Por milhares de anos estivemos nos relacionando com a natureza, com a montanha, com os animais, com o tempo, e aprendemos muito com isso, aprendemos a moldar a natureza, a unir e dividir o átomo, fomos à Lua e agora estamos todos interconectados pela eletricidade. Mas o fato, infelizmente, é que estamos atualmente desaprendendo a manter contato entre nós mesmos, seres humanos. O conhecimento de todas essas coisas, da ciência, das artes, o conhecimento em si mesmo nos fez ilhas, diminutas ilhas no oceano de uma realidade aparentemente apartada. As pessoas se esbarram nas ruas e não querem se abrir.

Eu não prezo pela ingenuidade da abolição do conhecimento, da ciência, do mundo virtual, mas eu vejo claramente a diferença entre acumular e compartilhar. Cada hora gasta em acúmulo de informação lhe custa pelo menos o dobro em isolamento social, porque uma mente saturada perde a capacidade de se abrir e se conectar à realidade interdependente das relações.

Assim, quando alguém me pergunta o que é mais importante, eu geralmente respondo que vale mais a pena sair para caminhar com seus amigos do que passar a tarde vendo um filme. Eu digo que é melhor sentir o frescor e a energia pura que brota de uma montanha do que escrever uma poesia sobre ela. E penso que deveríamos falar menos sobre nós mesmos e ouvir mais os sons e provar mais os temperos que existem por aí.

Gustavo Mokusen.

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2 opiniões sobre “Conexão”

  1. Fala Gustavo! Bem-vindo de volta meu amigo! Estava sentindo a sua falta!

    Sim… é isso… hj estamos todos altamente conectados E profundamente desconectados. A impressão que dá é que quanto mais se encurta as distâncias através da virtualização, menos se sabe sobre o sujeito ao lado, quanto mais se conhece sobre tudo, mais ansiosos estamos por conhecer mais, e os ganhos se perdem no exato momento em que são gerados. É como comparar uma viagem de avião com uma de ônibus. O óbvio hj é que o avião te leva muito mais rápido ao destino, mas, sem o contato com a rodovia, não experimentamos a transição entre origem e destino, e perdemos as sutilezas do caminho. Da charrete para o ônibus, devemos ter perdido muito contato com o caminho tb…

    Como vc bem disse, não estamos aqui pregando um passadismo ingênuo, mas alertando para o fato de que a ciência e a virtualização aproximam E afastam, trazem ganhos E perdas, não são A resposta mágica que nos vendem e, sim, estão nos levando a uma aceleração globalizada desenfreada. Hj, mais do que nunca, é preciso valorizar o humano e reduzir o ritmo, apontar de forma clara para as farsas do marketing e da ideologia de consumo dominante. Não porque o capitalista é mau e quer ganhar dinheiro às nossa custas, mas porque somos o próprio sistema que nos oprime… quando nos damos conta disso, entendemos melhor como é preciso sentar na almofada para termos tempo de nos ver por inteiro… e acredito que seja dessa prática aparentemente individual que pode nascer um comportamento novo com poder de fomentar um sistema social mais humano e equilibrado.

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