Ensaio nº 2

Amanhã irei participar do II seminário Ética e Religiões da Faminas, e o tema é “Porque devemos acreditar em Deus no século XXI?”. No ensaio nº 1 que postei aqui, eu disse que tinha mudado a perspectiva do debate para “porque é necessário praticar Deus no século XXI?”. Naquele ensaio, eu discorri sobre a mudança do foco entre o dever e a necessidade, e neste eu falarei um pouco sobre a crença e a prática.

É muito perigoso acreditar. Isso pode soar estranho, mas repito que é perigoso acreditar. É perigoso porque, em primeiro lugar, quando você acredita você cria automaticamente uma expectativa na sua crença. Você deposita nela suas esperanças e anseios, sejam lá quais forem, e quando você faz esse depósito é como fazer um investimento na bolsa. Você espera um retorno, que na verdade nunca é 100% seguro, e assim passa a sofrer com a possibilidade de ficar na mão. Você aposta, mas simplesmente não sabe. Sim, você não sabe, porque se soubesse não seria necessário acreditar. Você acredita justamente porque ainda não sabe por experiência própria. Dessa forma, a frustração de não ver o objeto da sua crença atender às expectativas criadas é uma possibilidade que atormenta e tira a paz.

Melhor é praticar. É ação, não apenas crença em ideias ou ideais. Se você acredita em algo, então por que não praticar? Você acredita que seu relacionamento conjugal pouco provável pode dar certo? Ok, nada mal, então comece a praticar a mudança. Trate o outro com respeito, desenvolva sua mente atenta, crie as condições necessárias para os resultados que deseja. Você crê na sua religião, independente de qual seja? Então pratique, pois apenas a crença não é suficiente para saciar a fome espiritual do homem, muito menos para realizar o caminho da iluminação. É necessário agir, fazer, construir. Posso acreditar na iluminação do Buda, mas se eu mesmo não sentar em meditação e penetrar esse estado por mim mesmo, jamais conhecerei tal experiência.

ff

Falando em termos gerais, uma crença isolada traz também dúvidas ou conflitos até mesmo inconscientes. A ação, a prática traz confirmação. Você pode até dizer para seu marido beberrão: “eu acredito que você não irá mais chegar em casa bêbado”. Mas lá no fundo, você realmente está em paz com isso? Agora, se você faz o que estiver ao seu alcance para ajuda-lo, como apoiar e monitorar a frequência dele no grupo de ajuda, melhorar a alimentação, evitar o estresse e ajudar a evitar situações que disparam nele o gatilho da bebedeira, então você praticou de forma a esgotar tudo o que poderia ser feito, e só lhe resta confirmar o que a realidade irá lhe apresentar.

Em segundo lugar, é perigoso acreditar porque nós, seres humanos, temos um ego e uma tendência a impor a outras pessoas e outros grupos nossas crenças. Mesmo que ainda não tenhamos certeza das nossas crenças, mesmo assim é normal que tentemos retransmitir nossos ideais aos outros, seja para reforçar nossa própria segurança intelectual, seja para neutralizar oposições que possam surgir de pessoas com crenças diversas. E isso é bastante perigoso. Enormes grupos humanos já foram dizimados em nome de alguma crença. Guerras já foram feitas em nome de ideais. A crença religiosa é ainda mais perigosa, pois ela envolve uma suposta vontade divina. Veja como terroristas matam em nome daquilo em que acreditam, veja como a própria igreja matou e dizimou índios e grupos minoritários em nome de Deus. Índios norte americanos e brasileiros, aborígenes da Austrália, civilizações como os Mayas e os Incas, judeus na Europa, todos eles sofreram em nome de alguma outra crença diferente das suas próprias.

Sim, precisamos praticar algum caminho espiritual no século XXI, pois a demanda religiosa é parte da natureza humana e não tem data de vencimento. Mas, antes de tudo, o que precisamos nesses tempos pós-modernos é mais da prática do que simples crença em Deus.

Gustavo Mokusen.

II seminário Ética e Religiões da Faminas. Tema: “Porque devemos acreditar em Deus no século XXI?”

Local: auditório da Faminas, Av. Cristiano Machado, 12001 – ao lado da estação Vilarinho do Metrô.

Data: 26/03/2013

Horário: 19 hs. Entrada Franca.

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2 opiniões sobre “Ensaio nº 2”

  1. Assim é o budismo zen! Não se crê, se pratica. Por isso, não há Deus no budismo, por isso Buda não é enviado dos deuses… para isso, seria preciso ser crente, crer num Deus Todo Poderoso, crer na santidade búdica, crer na reencarnação, crer numa transcendência… No zen, a gente pratica o não-ego no zazen, pratica o zazen na realidade cotidiana, e traz a experiência da realidade para o zazen, sem filtros… o único ideal é a prática em si, onde se pratica o não-ideal… e nessa prática repousa a possibilidade de transformação real. As religiões em geral costumam “praticar o reforço da crença”… e nos apresentam modelos que precisam ser seguidos e remendos que precisam ser feitos. As mudanças acabam sendo superficiais, fora toda a energia do material reprimido que assola a comunidade judaico-cristã. Fora os riscos de seguirmos quem interpreta as regras das crenças…

    Mas para além da prática do zazen, é preciso ainda ver onde fica a prática da ética e da compaixão no cotidiano. Venho pensando muito sobre isso e cada vez mais sinto que é preciso “crer” no poder transformador da compaixão para viver melhor. A realidade é geralmente árida e adversa, e a prática de zazen não costuma ser suficiente para nos munir da energia necessária para trazer o altruísmo e a aceitação para o cotidiano. O ego se interpõe rapidamente. Então é preciso “praticar a compaixão” na realidade comum. Mesmo que embebida da experiência do zazen, o que lhe dá mais legitimidade, *a compaixão parece exigir um esforço, uma prática própria*. E será preciso *crer* na sua força transformadora.

    A questão da compaixão ainda é mais complexa pq é preciso sabedoria para aplicá-la, visão, intuição, percepção… para saber discernir o que é ser compassivo em dado momento… pode não ser afagar, mas ser duro… conosco mesmo, com os outros… será que a prática contínua nos abre gradativamente para uma experiência mais sábia?!

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  2. Ótimo texto Gustavo e ótima conclusão também.

    Também tenho notado que o ego é o maior vilão das discussões intelectuais. Por isso é importante colocar a prática antes da crença.

    Acreditar para depois praticar, ou praticar por causa da crença, é algo perigoso. Perigoso porque a crença, como criadora de esperanças e anseios, reforça o ego ao criar uma identidade do crente com aquilo que ele crê. Chamo isso de uma tendência “artificializadora”, que cria e reforça uma estrutura de ilusão. Já a prática acho que tem uma tendência que chamaria de “naturalizadora”. A prática tende a se naturalizar com o tempo. É o mesmo que dizer que a prática tem o objetivo de ser esquecida, de se tornar natural. Nisso, faz o caminho inverso da crença: ela é destruidora de esperanças e anseios, pois os contrapõem com a repetição e a repetição torna o movimento natural e a naturalidade o torna “esquecível”…

    Assim que entendo que é preciso sempre manter a prática antes da crença. Praticar primeiro, acreditar depois. Uma vez que a prática é algo que atua no enfraquecimento do ego, ela é necessária como base para a crença, que é reforçadora de ego. A crença em cima dessa base de ego enfraquecido é uma crença mais sadia, mais fluida, menos séria – assim como a realidade…

    Gostei dessa reviravolta!

    Abraço

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