Ensaio nº1

aws

Fui convidado pelo Prof. Doutor René Dentz para participar do II Debate de Ética e Religiões na FAMINAS, sendo que o tópico da discussão é “Porque devemos acreditar em Deus no século XXI?”. Confesso que de início hesitei um pouco para aceitar o convite, uma vez que uma das características da prática Zen Budista é não alimentar discussões metafísicas, mas sim fincar os dois pés na realidade presente pela experiência integral corpo-mente. Mas depois de alguns instantes refletindo na questão, percebi que ela traz alguns aspectos que dizem respeito justamente à nossa realidade presente e que poderiam ser explorados para esclarecimento da abordagem budista na atualidade em que vivemos. Assim, um dia depois liguei para ele e confirmei minha presença.

A primeira providência que tomei foi trabalhar na reconstrução da pergunta tópico do debate. Justamente para mostrar como nossa prática aborda a natureza religiosa do ser humano. Logo de saída troquei “devemos acreditar” por “necessitamos praticar”.

Nossa prática é, antes, uma necessidade. Não apenas um dever, porque um dever pode se tornar algo extremamente mecânico quando realizado, uma obrigação, algo que vem de fora para dentro de maneira imposta. Mas nossa meditação, nosso zazen, nossos preceitos, nossa prática da mente atenta é uma necessidade. Vem de dentro para fora. Ninguém fica te vigiando ou puxando você para um retiro ou mosteiro; aliás, eu nunca ouvi falar de cruzada budista, ou campanha de conversão, ou qualquer outra coisa assim. É quase o contrário. É dito que, nos tempos antigos, aqueles que procuravam ingressar nos mosteiros tinham que provar realmente que eram 100% convicção de dentro para fora. Conta-se que Taiso Eka, quando pediu para ser aceito no mosteiro de Shaolim onde estava o grande mestre Bodhidharma, mofou do lado de fora durante 3 dias na neve, tendo ouvido “vá embora, esse caminho é duro demais, é melhor nem começar”. Só depois de enorme sacrifício teve acesso ao salão de meditação. Ainda hoje monges noviços batem à porta do mosteiro de Eiheiji, no Japão, e permanecem do lado de fora, em pé, imóveis, até serem aceitos. Isso pode durar uma, duas, quatro horas ou até mesmo um dia inteiro. Assim, a prática é uma necessidade interior, e não uma imposição vinda de fora. Se você está envolvido na prática budista e não sabe ou não sente essa necessidade, então é preciso investigar qual o sentido disso tudo no seu caminho. Não é possível sustentar por muito tempo a prática zen quando ela não vem de dentro.

de

É por isso que nossa prática ultrapassa os limites da sala de meditação e penetra em nossas vidas, no dia a dia, pois se trata de uma necessidade permanente. Se você não pratica, você perde a conexão. Simples assim. Se você não pratica, você não realiza a realidade. É essa realização, essa conexão em nossas vidas que poderíamos entender como “Deus” na prática do zen budismo. Profunda conexão com os seres viventes, com as coisas e com o Universo mesmo. Ação correta, pensamento correto, meditação correta. Ética ajustada. É isso. A grande sacada de nossa prática é encontrar Deus no aqui e agora, em cada momento das nossas vidas, e não fora, no futuro, em outra instância. Não apenas encontrar, mas se fundir com Ele e completar o ciclo do Todo Uno. Deixar cair corpo e mente, esvaziar a mente, dissolver o ego, esquecer de si mesmo, todas essas frases enigmáticas do zen apontam para o Todo Uno, Budha Dharma, Dhyana, Prajna Paramita, Ipseidade, Samadhi, Meu Jesus Cristinho, ou outra palavra qualquer que você queira atribuir.

Bom, então a questão agora é “porque necessitamos praticar Deus no século XXI?”. É essa questão que apresentarei no dia 26/03/2013 no debate da FAMINAS. Até lá, vamos papeando por aqui.

Gustavo Mokusen.

Anúncios

2 opiniões sobre “Ensaio nº1”

  1. Bacana, Gustavo! “Não alimentar discussões metafísicas, mas sim fincar os dois pés na realidade presente pela experiência integral corpo-mente”, uma bela síntese do zen. Sabe… sinto que tenho essa necessidade e isso vem amadurecendo… algumas vezes me pego tentando entender por que tanta gente precisa de um Deus antropomórfico ou de santos ou espíritos para fazer interface com a existência… colocando-se à mercê de gurus e intérpretes e escrituras sagradas… a resposta que costuma vir é que nossa mente funciona grande parte do tempo em modo “alegórico”, ou seja, ela precisa fixar imagens e conceitos para dar conta da realidade. Talvez a maioria precise mais do que uma certa minoria. E, como a relação interpessoal se dá através da realidade relativa e a “experiência” das relações humanas é também muito importante para nós enquanto praticantes, precisamos não só nos esforçar na prática introspectiva, para aprimorar a percepção fina, mas também no sentido de vermos através do alegórico convencional o que as pessoas estão dizendo e fazendo. Ou seja, em outras palavras, o que estou tentando dizer é que a maioria das pessoas teria dificuldade de perceber essa experiência proposta pelo zen, e isso não seria falta de disposição, mas falta de habilidade mental. Como uma falta de “musicalidade”, seria uma falta de “existencialidade”. Pode parecer pernóstico, mas não é. Na verdade isso me apazigua no sentido de que não tenho que convencer ninguém da realidade que experimento através do zen e me coloca diante da necessidade de buscar uma comunicação, uma comunhão, um certo ecumenismo com os santos e espíritos da maioria! – já que relacionar-se é fundamental. Talvez a sua resposta positiva ao convite para a palestra tenha sido também movida por essa perspectiva! De início, o tema parece estranho ao zen… mas o que importa está por trás do cardápio dos conceitos…

    Curtir

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s