O elefante, a argola e você mesmo

Era uma vez um bebê elefante que fora capturado e enviado para um circo. Lá chegando, colocaram uma argola de ferro em uma das pastas do pequeno elefante e o acorrentaram junto a uma estaca. O bebê não tinha forças suficientes para romper a argola e assim ficou preso, se movimento dentro de uma pequena área delimitada pelo tamanho da corrente. Ali se alimentava e dormia todos os dias.

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Vinte anos se passaram. O elefante agora não era mais um bebê, era enorme, e forte, e vigoroso. Mas, curiosamente, continuava preso pela mesma corrente atrelada à sua pata. Embora tivesse forças de sobra para romper a amarra, ele não o fazia e continuava ali, vivendo na mesma área limitada há vinte anos.

Esse é um caso real. Os adestradores do circo sabem que se o elefante bebê aprender que ele não pode romper a corrente, então ele se lembrará disso para sempre e, mesmo grande e forte, não saberá que cresceu e agora possui forças suficientes para se libertar. Ele ficará preso em algo que aprendeu quando era muito pequeno, vivendo numa espécie de ilusão em sua mente. Ele não conhece sua própria força.

Infelizmente, esse caso não se aplica somente aos elefantes de circo. Os elefantes e outros animais não chegam nem perto da capacidade do ser humano de aprender coisas. Aprendemos muito, essa é a marca da nossa espécie. Assim, é muito provável que a maioria de nós tenha aprendido e assimilado coisas em idades tenras, e carregado isso vida afora.

É muito provável que tenhamos correntes em nossos pés, dos mais variados tipos.

Todo tipo de autoridade se baseia nesse princípio. Autoridade aqui significa controle e manipulação. Significa submeter o outro a minha vontade, ou ainda usar de meios ardilosos para controlar pessoas e situações. Temos vários tipos de autoridade, religiosa, familiar, social, consumista e, na era da informação, a autoridade da mídia, por exemplo.

Mas as crianças recebem suas primeiras impressões da família e, logo depois, da escola. Assim, é na família e na escola que nossos principais limites e experiências repressoras são vivenciados e apreendidos. É claro que em um seio familiar equilibrado e em uma boa escola também recebemos amor, carinho, compreensão, etc., mas infelizmente isso não ocorre o tempo todo. Em algum instante vamos receber uma pressão externa que tende a deixar marcas limitadoras em nós. Em algum momento seremos certamente acorrentados com alguma crença ou suposição limitante.

Por exemplo, na escola. Eu me lembro bem, nos anos 80 a sala de aula era bem diferente do que é hoje. Quem não viveu isso e não se lembra dos mecanismos de controle e de autoridade que eram difundidos naquela época? Havia recompensas e punições. Havia os carimbos que a “tia” dava no caderno da gente, quando o para-casa era bem feito recebíamos um coração, uma estrelinha, um comentário qualquer. Mas também havia os bilhetes que nossos pais deveriam assinar, quase sempre de conteúdo delator das coisas que fazíamos, ou que não fazíamos. “Tia, posso ir ao banheiro?”, e a resposta da professora dependia muito de quem pedia. Se fosse um da turma de trás… Isso já chegou ao absurdo de ver um colega fazer na calça.  Havia medidas drásticas de exclusão como a “suspensão”. Terror dos que falavam o que pensavam! E ainda, de quebra, era carimbado na caderneta! Ah, a caderneta, quem não se lembra dela?

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O problema disso tudo é que pode marcar para o resto da vida. Assim como o elefante. Por exemplo, eu mesmo nunca fui de receber muitas estrelinhas no caderno. Nunca fui o preferido da tia, assim como não era o mais brilhante da turma. Eu via aquelas meninas de trança bem feita no cabelo recebendo elogios no para-casa, aqueles meninos de uniforme impecável e que eram o exemplo da turma e eu não era assim, como eles. Eu não parecia nada com isso, eu sentia. E todos aqueles métodos de recompensas e punições serviam, no fundo, para discriminar e controlar os alunos. Ou você era dos bons, ou era da turma da suspensão, ou não era nada. O rótulo era automático.

A consequência é que passei muitos anos sendo nada. Ou seja, apenas sendo eu mesmo, kkkkk. Não era dos bons, não tinha estrelinha no caderno. Mas também não era dos maus, da turma da pesada, afinal meu pai era muito bravo para isso. A consequência é que aprendia com lentidão e dificuldade, simplesmente porque estava à parte de tudo isso. Isso me custou várias recuperações ao longo dos anos e uma dolorosa reprovação na sétima série.

Levei muitos anos para quebrar essa corrente do pé e descobrir que eu gostava de estudar – e que podia ser agradável. Só que ninguém tinha me estimulado para isso em meus primeiros anos na escola, apenas estrelinhas ou suspensões.

Eu sei que hoje em dia muita coisa mudou nas escolas. Melhoramos muito, em vários aspectos pedagógicos. Mas o que quero chamar a atenção aqui é: pequenas experiências na infância podem geram enormes consequências na vida adulta. Assim como o elefante acorrentado.

Duas conclusões: primeiro, se você tem filhos ou trabalha com crianças, esteja muito atento com suas ações, falas e sentimentos. Elas aprendem com as experiências que recebem, e direcionar isso da melhor forma possível se chama “educar”, e não controlar.

A outra é que vivemos no presente, e não no passado. Assim, caso você sinta alguma argola apertando em seu pé e limitando sua vida, investigue a questão a fundo. Procure entender o tamanho da corrente e, principalmente, saber o tamanho da sua força. Você cresceu e, possivelmente, possui uma energia enorme que pode estar adormecida dentro de você. Às vezes, basta um gesto para romper a amarra. Às vezes, o sofrimento é opcional.

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Gustavo Mokusen.

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Uma consideração sobre “O elefante, a argola e você mesmo”

  1. Sou educadora e adorei o texto. Vou usar como texto base para reuniões entre os educadores da Instituição em que coordeno.

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