Compaixão

Filipe, praticante zen, leitor e participante ativo do ALD, me pediu para escrever um texto sobre o sofrimento humano, a prática zen e a relação disso tudo com uma postura atuante e não individualista. Vou tentar.

Vivemos em um país onde a desigualdade social é gritante, onde mansões são construídas ao lado de favelas. Não obstante, além de uma distribuição de renda muitíssimo heterogênea, ainda testemunhamos, por assim dizer, uma distribuição de carma igualmente desigual. O sofrimento está atrelado a toda existência humana, é verdade, mas há pessoas que trazem uma carga a mais e a carregam vida afora – portadores de necessidades especiais, aqueles que já nascem em meio conturbado, pacientes de doenças congênitas ou mesmo vítimas de acidentes e outras surpresas que o destino traz.

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Estou sentado confortavelmente em minha sala, escrevendo este post neste exato momento. Não passo fome, não estou acometido por nenhum tipo de sofrimento severo. Na esquina, posso ver da minha janela, uma criança de pés no chão pede trocados no sinal. Minha mente embaralha um pouco, desponta um mal estar devido às nossas diferenças. Afinal, tenho uma filha também.

Do outro lado da rua tem um restaurante chic, sei que um prato qualquer no almoço ali pode custar R$ 200,00 ou até mais. As pessoas que almoçam ali, e eu as vejo diariamente porque o órgão do governo para qual eu trabalho mudou para o bairro de Lourdes há um mês, quase todas elas sustentam um ar de indiferença que parece ter um consentimento social. Os garçons parecem consentir, e recebem a gorjeta de cara boa. Os transeuntes parecem consentir e admiram os prédios luxuosos e os jardins impecavelmente bem cuidados ao redor, como se fossem algum tipo de pódium social. Os que moram ali, de dentro dos carros blindados e do restaurante chic, parecem não ter contato com tudo isso e, por isso mesmo, consentem a partir dessa alienação.

Alguma coisa parece estar profundamente errada nisso tudo, não?

Se eu fosse Robin Hood, juro que gastaria todas minhas flechas ali, penso por um instante.

Mas não sou, meu nome é Gustavo Mokusen e sou monge zen budista, dentre outras coisas.

Então me lembro de um dos quatro votos do Bodhisattva que fiz no Japão, quando recebi a ordenação budista: “Por mais inumeráveis que sejam os seres vivos, faço o votos de salvar todos eles”. Esse voto me infernizou por muitos anos, pois passei muito tempo tentando compreendê-lo. Como assim todos os seres vivos? Tudo mesmo, quer dizer, todos os seres humanos mais os animais, insetos, vírus, bactérias, etc, etc? Salvar todos eles? Poxa, isso é muita coisa, hein… E inclusive conta tanto a garotinha pedindo dinheiro no sinal quanto a madame almoçando seu prato de 200 pilas. E aí?

É dito que quando o Buddha alcançou a Iluminação, sentado em meditação, ele teria pronunciado: “Eu e todos os seres alcançamos, juntos, a suprema Iluminação”. Mestre Dogen também disse: “Quando você senta em zazen, o mundo todo senta com você”. Quando prestei mais atenção nessas frases, uns 3 anos depois de voltar do Japão, o voto do Bodhisattva de salvar todos os seres começou a ficar mais amigável.

Eu não vou dizer aqui qual foi a compreensão que cheguei desse voto, pois cada um que pratica o Zen deve penetrar esse koan com corpo e mente, e assim obter seu próprio entendimento deste ponto. Mas posso dizer que quando você senta em meditação e organiza sua luz interior, então isso entra em cooperação transcendente com todo o Universo.

Isso não significa que eu vá almoçar naquele lugar chic algum dia. Se depender de mim, eles fecham as portas. Pode ter certeza. Mas o que quero apontar é que todo esse cenário complexo da diversidade e desigualdade relativa existe e está aí, em conexão com você. E a desigualdade é relativa, pois no nível absoluto somos a mesmíssima coisa – energia ocupando tempo e espaço.

O Zen Budismo sempre foi voltado para a ação plena. Então nossa prática é manter essa mente atenta para agir plenamente. Agir na realidade como ela é. Temos que agir, porque alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém. Se é possível ajudar a garotinha no sinal, então faça. Uma palavra de carinho conta. Quanto à madame, se ela quiser aprender zazen eu ensino, mas vai ter que comer papa de arroz como todo mundo. E acordar às três ou quatro da manhã.

Releio meu mal estar que senti há pouco: não é que exista alguma coisa errada com tudo o que me cerca. O mundo se apresenta, e o que faço dentro disso tudo é o que vale. O mundo é mundo desde sempre. Certo ou errado não adianta nada. Mas o mundo se resolve em ações.

ss

O Zen é tigela que flutua contra a correnteza, e isso significa ação consciente no meio do mundo que dorme, indiferente. É isso o que conta. E se achamos que não podemos iluminar os outros e a nós mesmos, então pelo menos que não criemos mais sofrimento no mundo. Já é grande coisa, acredite. Agir assim é praticar com compaixão.

Gustavo Mokusen.

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3 opiniões sobre “Compaixão”

  1. Texto bacana, Gustavo! Dá muito o que refletir… Na esfera relativa, temos uma ação social a executar, cada um tem a sua, cada um se incomoda com certas coisas e faz o que lhe cabe em dado momento. Na esfera absoluta, bem, o “koan” do voto de salvar todos os seres vivos diz tudo > não há o que salvar…

    Talvez o mais interessante disso tudo seja essa aparente dicotomia entre as duas esferas na relação com o aspecto social. Enquanto sentamos em zazen, estamos no caminho do absoluto e, nele, não há desigualdades ou injustiças, apenas “há”. Então todo o discurso de ajuda se perde como um blá-blá-blá desconexo. Já na vida cotidiana, a compaixão é enfatizada, e não observar as desigualdades e injustiças demonstra uma dureza e insensibilidade que não se espera de budistas.

    Talvez o pulo do gato da compaixão budista seja agir no social com a melhor identificação possível do que somos no absoluto. É preciso se procupar e zelar pelo outro, mas o sentimento que nos move entra num contexto mais natural, mais apaziguado, onde a busca de minimizar o sofrimento alheio não reflete tanto os nossos próprios pesares. Zelar pelo outro seria apenas zelar pela parte de nós que não reside em nós…

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  2. Gustavo, obrigado pela doar sua atenção e conhecimento. Fantástico seu voto do bodhisattva; farei-o também, lutando para torná-lo meu novo critério de tomada de decisões permanente, para lembrar instantaneamente e para ser movido espontaneamente por ele no calor e auge de todos os momentos que viver ao longo dos dias neste mundo. Lembrarei dele no zazen dia e noite, e abandonarei os outros critérios de decisão dos quais me valia ao longo do dia (obter meu próprio bem-estar, emprego, horários, comodidade, orgulhos, diplomas, seguranças sobrevivência num estilo de vida, etc), todos delusórios. Um abraço afetuoso e agradecimento sincero.

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  3. Parabéns Mestre Gustavo. Amei sua referencia ” O zen é tigela que flutua contra a correnteza, e isso significa ação cosciente no meio do munsdo que dorme….Lindo isso, um poema. Betania Cavalieri

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