Tudo é maravilhoso, e ninguém está contente

Por Guilherme Diniz, praticante zen budista.
A resposta de quem somos resplandece além consciência.
Mas com a mesma naturalidade com que afirmamos nosso existir e o existir do mundo que nos sustenta os pés e o devir, acreditamos ser natural nos descrevermos em vista dessa constatação. E creio ser um grande obstáculo à prática espiritual querer explicar essa complexidade referenciada numa terminologia que não pode ir além dos seus limites: o da discriminação, o da linguagem e da conceituação.
O cachimbo de Magritte não era, definitivamente, um cachimbo. Alienamos-nos das coisas pensando encontrá-las em seus nomes.
Descartes sela essa questão ser possível afirmar a existência humana pelo pensamento do sujeito que pensa si próprio. Existimos porque pensamos em nós mesmos, como se fosse possível apartar a coisa do seu conhecedor ou a imagem de seu reflexo. A flor é o seu cheiro, sua essência? E por nos pensarmos alheios à natureza intrínseca da realidade, diluímos essa experiência num trecho infinitamente menor que toda beleza de tudo quanto habita sobre o universo.
Há uma consciência de rocha, de arbusto, vento, pássaros e água, tão viva e esplendorosa além de tudo que possamos enumerar. À nossa semelhança, tudo caminha para o mesmo fim: as rochas se desgastam, as ramas apodrecem e as águas evaporam e os pássaros adubam novamente o solo que nos alimenta.
E por deixarem de ser alguma coisa, noutra se transformam, com outras vestes e novos arranjos. Há algum tempo escrevi um poema sugere essa compreensão:
« Abandona-te ao tempo
como se pela morte abraçasse a vida.
Despeça-te imerso na luz que te desengana e retorne
à espuma do mar que te abocanha
com fúria e desapego, para que em vosso
coração floresça um jardim de infinita compaixão. »
O que chamamos de vida, essa centelha de humanidade, essa fortaleza do Ego que busca necessidades, que chora e vive, se entrega e se emociona, é apenas a consciência limitada que percebe a vida sob a forma de homens e mulheres. Não sejamos a gota que se exclui do oceano, o peixe que se nega ao cardume, a melodia que se aliena ao canto.
Não há quem chore de saudade pelo tempo não vivido ou pelo futuro onde não mais se existe feito carne, sangue e mente. Mas ali estávamos, e lá estaremos, além do tempo, além de nós mesmos. Entre as margens da dor e do esquecimento sobrevoa a bem-aventurança. Feliz aquele que se refunda na existência além dos limites existência.
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