A Sabedoria do Esquecimento

Por Guilherme Diniz, praticante zen budista.
Quando olho para uma nuvem que passa ou para o rio que sob meus pés flutua, não há qualquer obstáculo nos meus pensamentos. Assim como a nuvem que se dissipa ou a água que se perde entre as margens que a aprisiona, com eles sou um, a causa e a circunstância, o dínamo e a embriaguês. Por um instante, não há motivo para viver num mundo de inesgotáveis existências.
E nesse fluir, à semelhança das percepções sentidas, da carne e daquilo que permite a vida (e também a colhe), tudo cessa. Nada se afirma por palavras, mas pela própria coisa sentida. Nada se adia ou recorda; e brevemente vive-se acima do tempo e da morte.
O conhecimento é ignorância. Iluminação é ignorância. O Zen é ignorância. Buda é ignorância. Matemo-nos então, e apaguemos sua sombra. Do que nos valem as palavras, o nome, o corpo e a mente, senão as coisas elas mesmas? O quanto disso tudo nos basta? O quanto disso tudo nos afirma? Não importa o quão escaldante esteja a água no copo. Ela nunca será capaz de incendiar a madeira da mesa.
Uma flor murcha, outra nasce, e tudo existe num mesmo cosmo como partes de uma mesma e inesgotável energia. Tudo é uma chance à essa perfeição que já existe.
E dessa consciência de não se saber homem, vento ou mineral, brotará espontaneamente a paz. Para nos percebermos é preciso esquecermos aquele que nos percebe. Para entendermos a nós mesmos é preciso esquecermos aquele que nos entende. Desaprender quem nos entende e percebe é alto, mas estar além de quem percebe e entende é a jóia suprema.
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